Religião

16/04/2021 | domtotal.com

Hans Küng: um legado a ser ouvido

Um dos grandes esforços do teólogo consistiu na proposição de uma ética universal

O teólogo católico suíço e padre Hans Kung discursa por ocasião de sua saída da universidade de Tubingen, no sul da Alemanha, em 22 de abril de 2013. Kueng se aposentou da vida pública alguns dias após seu 85º aniversário.
O teólogo católico suíço e padre Hans Kung discursa por ocasião de sua saída da universidade de Tubingen, no sul da Alemanha, em 22 de abril de 2013. Kueng se aposentou da vida pública alguns dias após seu 85º aniversário. (Daniel Bockwoldt/DPA/AFP)

Fabrício Veliq*

No início deste mês de Abril faleceu o grande teólogo católico Hans Küng. Grandemente conhecido, não somente no meio teológico, como também no meio secular, foi sem dúvida um dos maiores nomes da Teologia do século 20.

Parte da fama se deve aos embates que teve com o Vaticano, ao questionar o dogma da infalibilidade papal, e, também, por seu esforço constante em propor uma chamada ética universal. Nesse percurso, como consta no prefácio de seu livro Religiões do mundo, um longo caminho foi feito por ele, pensando, principalmente, nas religiões como ponto fundamental para se pensar a contemporaneidade. Assim como é importante pensar os temas econômicos, sociais e culturais, segundo Küng, também importa pensar nos assuntos que se referem às religiões.

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Seu adágio de que "não haverá paz no mundo se não houver paz entre as religiões" dá a tônica de qual foi seu trabalho nessa área. Küng tinha plena consciência de que em todas a culturas humanas, as perguntas acerca da sua própria existência, do final de tudo, do sentido da vida, da superação do sofrimento, dentre outras, se fazem presentes e, por isso mesmo, as diversas religiões, que em última instância visam dar respostas a essas e outras perguntas, têm diversos pontos de convergência e de semelhança.

Ao mesmo tempo, em seu percurso, percebeu os pontos negativos dessas mesmas religiões. Diversas vezes elas se mostraram como fomentadoras de várias agressões aos seres humanos ao longo da história. Contudo, seu intuito era ressaltar os pontos positivos que cada uma pode trazer para a melhoria do viver em sociedade ao redor do mundo.

Contrariamente ao que muita gente pode pensar, Küng não desejou uma religião universal, como se houvesse somente uma a que todas as pessoas seguiriam, mas via que a variedade de religiões pode trazer um mútuo enriquecimento para todos os envolvidos. Nesse sentido, parece-me importante citar aqui o final do prefácio de Religiões no mundo. Nele, a posição de Küng fica muito clara:

A meta de um entendimento universal entre as religiões deve ser um etos comum da humanidade, mas um etos que não deverá substituir a religião – como às vezes se tem erroneamente pensado. O etos é e continua a ser apenas uma dimensão dentro das diferentes religiões, uma dimensão das religiões entre si. Não se trata, pois, de chegar a uma religião única, nem a um coquetel de religiões, nem de substituir a religião por uma ética. Mas, antes, de um empenho pela paz entre os homens das diferentes religiões deste mundo, o que constitui uma necessidade urgente. Pois: Não haverá paz entre as nações, se não existir paz entre as religiões. Não haverá paz entre as religiões, se não existir diálogo entre as religiões. Não haverá diálogo entre as religiões, se não existirem padrões éticos globais. Nosso planeta não irá sobreviver, se não houver um etos global, uma ética para o mundo inteiro (KÜNG, Hans. Religiões do mundo: em busca dos pontos comuns. Campinas: Versus Editora, 2004, p. 17).

O legado e esforço de Küng no que tange ao diálogo inter-religioso é de valor inestimável para toda pessoa que deseja encarar honestamente a tarefa de propor novas formas de lidar com o fenômeno religioso na atualidade.

Em uma época em que vemos crescer o fundamentalismo religioso como resposta às perdas de referências de uma sociedade hipermoderna e como tentativa de angariar para si o poder sobre esta, a voz profética de Küng se mostra importantíssima, sendo, portanto, sábio ouvir o que ele, por meio de seus escritos, continua a nos dizer.

*Fabrício Veliq é protestante e teólogo. Doutor em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Belo Horizonte (FAJE), Doctor of Theology pela Katholieke Universiteit Leuven (KU Leuven), Bacharel em Filosofia e Licenciado em Matemática (UFMG). Autor do livro: Teologia no século 21: novos contextos e fronteiras. Editora Saber Criativo. E-mail: fveliq@gmail.com. Site: www.fabricioveliq.com.br.



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