Religião

16/04/2021 | domtotal.com

Hans Küng: uma inspiração para a parresía teológica

O professor de Tübingen foi tomado como inimigo por quem enxerga a teologia como mera reprodução e reafirmação dogmática

Foto tirada em 12 de março de 2012 em Berlim mostra o teólogo católico suíço e padre Hans Kueng durante a apresentação de um livro.
Foto tirada em 12 de março de 2012 em Berlim mostra o teólogo católico suíço e padre Hans Kueng durante a apresentação de um livro. (Rainer Jensen/DPA/AFP)

Teófilo da Silva*

A Teologia do século 20 foi robusta e, se assim não tivesse sido, não teríamos visto o alvorecer do maior acontecimento da Igreja contemporânea: o Concílio Vaticano II. A contribuição de Hans Küng para o discurso e a hermenêutica da fé na modernidade é digna de reconhecimento. Nascido sob a proteção de São José, em 19 de março de 1928, Hans Küng celebrou sua páscoa definitiva em plena oitava pascal, no dia 6 de abril, aos 93 anos. Nos últimos anos, vinha lidando com o sofrimento e os revezes do mal de Parkinson, o que o trouxe aos noticiários religiosos, envolto em mais uma polêmica: a consideração que vinha fazendo de ser submetido, caso julgasse oportuno segundo sua consciência e legislação alemã, a uma eutanásia, o que até então é veemente rechaçado pelo magistério católico.

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Para o reacionarismo católico, Küng estava "cancelado", para usar uma terminologia tão atual nas redes. Isso porque, para este segmento de dentro da eclesialidade, ou se repete a doutrina, sem mais, ou não se tem valor e lugar de fala legítimos. Como outros tantos e tantas, o teólogo suiço foi tomado por inimigo, por quem enxerga a teologia como mera reprodução e reafirmação dogmática. Não foi inesperada, a propósito – apesar de absolutamente desnecessária –, a sanha reacionária por ocasião do fraterno e dialogal encontro entre o teólogo com o então papa Ratzinger, seu antigo colega de magistério na Universidade de Tübingen, com quem teve divergências teológicas e doutrinais quando este último presidia a Congregação para a Doutrina da Fé. Hans Küng, por sua vez, lidou com as consequências do seu lançar-se corajoso ao fazer teológico com bastante parresía. Na sua atuação, um grande e valioso ensinamento àqueles e àquelas que se aventuram, contemporaneamente, no labor teológico: é preciso arriscar à hermenêutica da fé para que a mensagem cristã não caia num processo de cristalização estéril.

A Teologia não está pronta: isso porque é preciso, continuamente, interpretar a revelação de Deus na história dos homens e mulheres de todos os tempos, isto é, encontrar os traços encarnatórios da Palavra de Deus que, persistentemente, continuam a convidar as pessoas à salvação. Essa vocação teologal, que continua tão urgente em nossos tempos, exige criatividade espiritual, a fim de saber ler contextos, situações, características próprias dos tempos e das culturas. Um legítimo fazer teológico não busca o uniformismo dogmatista do discurso, mas a capacidade de ler a fé com inteligência, a partir daquilo que o tempo hodierno supõe, sem perder o essencial daquilo que nos faz cristãos: Jesus Cristo e seu significado para o mundo. Nesse caminho, olhares diferentes despontarão, interpretações diversas e plurais surgirão e, tudo isso, é essencial para o avanço da ciência teológica, que também não está imune a equívocos.

Um teólogo da envergadura de Hans Küng é uma verdadeira inspiração aos teólogos e teólogas de nosso tempo: que sejamos capazes de lidar com criatividade com aquelas questões que se impõem à fé, não nos furtando de descontinuar com pensamentos e costumes esclerosados, bem como conservar o essencial da fé, tornando-a credível para nossos tempos, razão última da vocação teologal. Que agora, partilhando da ressurreição de Jesus, seu Mestre, interceda por nós, na construção de uma Ética Mundial, tal como seu sonho, que inaugure tempos de verdadeira paz!

*Teófilo da Silva, teólogo e poeta



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