Religião

16/04/2021 | domtotal.com

Hans Küng: o teólogo que sonhava com uma ética universal

Contribuição teológica de Küng para o ecumenismo mirava a paz mundial por meio de uma ética universal

Kung, nascido em 19 de março de 1928 em Sursee, perto de Lucerna, é desde 1995 presidente da Fundação para a Ética Global (Stiftung Weltethos)
Kung, nascido em 19 de março de 1928 em Sursee, perto de Lucerna, é desde 1995 presidente da Fundação para a Ética Global (Stiftung Weltethos) (Joel Saget/AFP)

Felipe Magalhães Francisco*

As pessoas de fé, geralmente, observam a realidade e a interpretam a partir de uma dimensão religiosa, permeada de sagrado. Celebramos, recentemente, a festa da Páscoa, momento religioso-celebrativo ápice para cristãos e cristãs. É a ocasião em que fazemos memória da passagem de Jesus, o Filho de Deus, da morte à plenitude da vida do Pai. Desde antiquíssima tradição, o cristianismo vive a semana imediatamente seguinte ao Domingo de Páscoa, como um prolongamento festivo deste dia. É o que chamamos de Oitava de Páscoa: tão importante é a memória da Ressurreição de Jesus Cristo, que a festa se prolonga, como se em um único e infindável dia. E foi em plena Oitava de Páscoa que celebrou a sua própria e definitiva, o teólogo Hans Küng. Difícil não olhar para esta "coincidência", e não percebê-la à luz da fé!

Nascido em 19 de março de 1928, em Sursee, uma comuna suíça, Küng foi ordenado presbítero em 1954. Dedicou-se, em sua pesquisa doutoral, ao tema da "Justificação", resultando numa tese que viria, posteriormente, a ser bastante importante para o estreitamento do diálogo ecumênico entre católicos e luteranos. A partir de 1960, tornou-se professor na importante Universidade Eberhard Karls, em Tübingen, na Alemanha, onde foi colega de Joseph Ratzinger (Papa Bento XVI). Destaque em sua atuação teológica, é sua participação, como perito, no Concílio Vaticano II, quando contribuiu bastante expressivamente em temas fundamentais, influenciando diretamente na redação dos documentos conciliares. Defensor de visões teológicas bastante abertas, foi personagem de controvérsias teológicas sobre temas incandescentes, tais como o fim do celibato clerical, infalibilidade papal, participação feminina na vida da Igreja, por exemplo. Depois de uma vida bastante comprometida com a pesquisa e o ensino da Teologia, morreu em Tübingen, no último dia 06.

Hans Küng produziu uma obra monumental, de modo que a dedicação à pesquisa da teologia moderna e contemporânea exige, necessariamente, um contato com seu trabalho. Partícipe importante do Concílio Vaticano II, como dissemos, sem dúvidas é um teólogo fundamental no processo de recepção e aplicação do aggiornamento proposto por este que foi o evento mais importante da história recente da Igreja. Destacamos de modo especial seu empenho na proposição e efetivação do diálogo entre as religiões, naquilo que compreendia, de modo abrangente como sendo o "ecumenismo", a partir de uma ética universal. Esse diálogo, na perspectiva de Küng, precisava se alargar também para as ciências naturais, o que buscou fazer de maneira promissora nestes últimos anos.

Na celebração pascal definitiva de tão eminente teólogo, conhecido também por suas contundentes críticas, o Dom Especial desta semana se dedica ao legado deixado por Hans Küng, como gratidão por seu serviço teológico transformador e pertinente. Inspirados e mobilizados por seu sonho de uma ética universal, que nos leva a compreender nossa missão cristã de maneira tão alargada, à luz do Evangelho, temos os três artigos que aqui apresentamos. No primeiro, "Uma teologia ecumênica pela paz entre os povos": o legado de Hans Küng, Sinivaldo Tavares destaca elementos fundamentais da teologia proposta por nosso teólogo, demonstrando a envergadura da obra deixada. Fabrício Veliq, a partir da temática do diálogo entre as religiões, tão urgentes na atualidade, propõe o artigo: Hans Küng: um legado a ser ouvido, no qual aponta a pertinência da contribuição ecumênica do teólogo suíço. Por fim, Teófilo da Silva reflete sobre a importância da ousadia no labor teológico, como cumprimento da vocação de cada teólogo e teóloga, no artigo Hans Küng: uma inspiração para a parresía teológica.

Boa leitura!

*Felipe Magalhães Francisco é teólogo e professor. Coordena os especiais de religião deste portal. É co-autor do livro Teologia no século 21: novos contextos e fronteiras (Saber Criativo, 2020). E-mail: felipe.mfrancisco.teologia@gmail.com.



Comentários
Newsletter

Você quer receber notícias do domtotal em seu e-mail ou WhatsApp?

* Escolha qual editoria você deseja receber newsletter.

DomTotal é mantido pela EMGE - Escola de Engenharia e Dom Helder - Escola de Direito.

Engenharia Cívil, Ciência da Computação, Direito (Graduação, Mestrado e Doutorado).

Saiba mais!