Religião

16/04/2021 | domtotal.com

Francisco e o fim da monarquia vaticana

Como os pontífices modernos tentaram extinguir o espírito de corte que pairou sobre o governo da Igreja por séculos

Papa Francisco recebeu de presente uma tiara papal, em 2016, do presidente do Parlamento da Macedônia, Trajko Veljanoski
Papa Francisco recebeu de presente uma tiara papal, em 2016, do presidente do Parlamento da Macedônia, Trajko Veljanoski (La Stampa/L'Osservatore Romano)

Mirticeli Medeiros*

O Vaticano se autodefine uma monarquia absolutista, cujo chefe de Estado é o papa, o detentor dos poderes executivo, legislativo e judiciário. Embora essa definição se mantenha em pleno século 21, os papas contemporâneos fizeram vários malabarismos para dissociar da própria função a imagem do príncipe renascentista que se fecha dentro do seu palácio sagrado.

O fato de o papa Francisco ter deixado de lado alguns símbolos e rituais, segue uma tendência que tem se manifestado desde os idos de 1960. E não porque o papado moderno não os valorize. Para alguns sumos pontífices da nossa era, muitos desses costumes evocam um período no qual muitos papas estavam mais preocupados com a expansão de seus domínios do que com sua própria missão.

Em entrevista à emissora mexicana Televisa, em 2019, Francisco disse não se sentir à vontade ao pensar que o Estado do Vaticano é a única monarquia absolutista remanescente da Europa. "A corte (papal) se desfez, mas ainda permanecem as estruturas de corte, e isso precisa cair", ressaltou. 

Os historiadores avaliam que foi João 23 quem começou a varrer, para fora do Vaticano, os resquícios da realeza. Com ele, a imagem do pastor universal, entre os tantos títulos atribuídos ao líder máximo da Igreja Católica, foi a que mais sobressaiu. Isso porque ele começou a ter contato com o povo, a ir ao encontro das pessoas. Não por acaso, é aclamado até hoje como "o papa bom".

Num passado não tão distante, até meados do século 19, não era bem assim. As aparições públicas do papa se limitavam, muitas vezes, àquele desfile sobre a cadeira gestatória, o trono móvel que, mais à frente, seria substituído pelo papamóvel.

Não era fácil, para uma pessoa comum, cumprimentar o papa. Ao mesmo tempo, era muito tranquilo, para o fiel daquela época, tratá-lo como um "soberano inacessível"; como alguém que, dotado de poder temporal,  – e, ao mesmo tempo, sobrenatural –, trazia em si as prerrogativas do único representante de Cristo na terra, o vicarius Christi. 

Paulo VI, o sucessor de João XXIII, também deu uma parcela de contribuição bastante significativa para essa virada de página. Em 1964, um ano depois da sua coroação como papa, renunciou à tiara papal, símbolo da supremacia pontifícia desde a Idade Média. Composta por três coroas sobrepostas, simbolizava o tríplice poder do sucessor de Pedro: pai dos príncipes e dos reis, reitor do mundo e vigário de Cristo na terra. Essa fórmula antiga, usada durante o ritual de posse do pontífice romano, também foi abolida por Paulo VI. Além disso, por decisão dele, a antiga corte papal passou a se chamar "casa pontifícia" e o exército do Vaticano foi extinto.

João Paulo I, eleito em 1978, foi o primeiro a não realizar a cerimônia de coroação do sumo pontífice. E seu sucessor, João Paulo II, foi ainda mais além: em documento com novas normas para a eleição do pontífice, de 1996, a substituiu, oficialmente, pela missa de inauguração do pontificado.

Bento XVI, por sua vez, seguindo a tradição daqueles que o antecederam, extinguiu do seu brasão oficial a famosa tiara, substituindo-a pela mitra episcopal.

Pode parecer banal, mas o armário litúrgico e cerimonial do pontífice, que inclusive é matéria de estudo de alguns historiadores, diz muito a respeito da linha de governo que ele adota. Aliás, para quem quer conhecer a fundo determinado pontificado, deve estar atento a esses detalhes. Como a Igreja Católica é uma instituição bimilenar, o que parece superficial à primeira vista, esconde séculos de história.

*Mirticeli Medeiros é jornalista e mestre em História da Igreja pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma. Desde 2009, cobre o Vaticano para meios de comunicação no Brasil e na Itália e é colunista do Dom Total, onde publica às sextas-feiras

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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