Cultura

20/04/2021 | domtotal.com

Na casa do poeta

Jan Brokken e Youri Egorov, exemplo de amizade verdadeira

É um romance que presta um tributo profundo à amizade entre um mestre pianista russo-soviético e o grande escritor holandês, Jan Brokken
É um romance que presta um tributo profundo à amizade entre um mestre pianista russo-soviético e o grande escritor holandês, Jan Brokken (Lev Chaim)

Lev Chaim*

Quando falo ou penso no escritor holandês Jan Brokken, imediatamente vem à mente nomes de grandes escritores brasileiros do meu tempo de escola: José de Alencar, Euclides da Cunha e Machado de Assis. Ele é filho de um pastor protestante que morava na Indonésia e se mudou de volta para a Holanda, pouco antes de Jan Brokken nascer na cidade universitária de Leiden. O meu encontro real com ele aconteceu em Breda, há cinco anos, quando ele foi fazer uma palestra sobre o seu novo livro, O jardim dos cossacos, que acabara de ser publicado.

Aconteceu na pequena e linda igreja de Breda, de Walse Kerk (Igreja da Valônia), bem no centro. Quando entrei na igreja e o vi, ali sentado calmamente, com a sua editora, não imaginei que ali estava um grande escritor da Holanda, vencedor de vários prêmios, traduzido em várias línguas: um homem simples, com terno sem gravata, calvo, de óculos e olhos serenos. Após a sua apresentação, quem quisesse comprar o livro e ganhar um autógrafo do autor tinha que entrar na fila. Eu comprei dois: O jardim dos cossacos e Na casa do poeta. É sobre este último romance que vamos falar agora, um dos mais personalizados que ele já escreveu contando sobre a vida de seu amigo pianista russo, dos tempos da velha União Soviética, Youri Egorov, que havia fugido para o Ocidente e se sediado em Amsterdã.

Demorou um tempo para que eu o lesse, mas quando comecei, não pude parar, pois, quando amo um livro de tal forma tão intensa, sempre retardo o seu final, carregando-o para baixo e para cima, literalmente, dentro de minha casa. Youri Ergorov era o "poeta russo" entre os mestres pianistas de sua geração, com um tato nos dedos de força e delicadeza, para manejar o teclado de um piano de tal forma e deixar a sua marca no ar, fazendo com que todos notassem a sua virtuosidade. Ele morava na rua dos canais de Amsterdã, por onde Jan sempre caminhava. E ao passar ali, ele escutava com estupor o som de um piano vindo dos apartamentos acima. Logo depois, ele soube quem era o pianista e teve a oportunidade de encontrá-lo após uma apresentação do mesmo, na Sala de Concertos de Amsterdã (Concertgebouw). Foi uma amizade para a vida toda, até a morte prematura desse pianista.

Este romance tão personalizado, também baseado em sentimentos do próprio Youri, que foram escritos em um diário secreto deixado em herança para o escritor Jan Brokken. O pianista russo saiu da União Soviética, após ter ido estudar no conservatório de Moscou. Ele voou para a Itália e acabou se estabelecendo na Holanda. Era um pianista sóbrio, emotivo e que deixava, às claras, todas as mensagens pretendidas do autor das obras executadas. Youri era um músico que se baseava na pauta e na história de seus personagens. Tal qual Jan Brokken, que escrevia após profundas pesquisas, podíamos dizer que eram como se fossem almas gêmeas: um, poeta do piano, e o outro, poeta das letras.

Na conturbada e livre vida de Amsterdã dos anos 1970 e 1980, Youri pôde fazer o que queria com sua vida pessoal. Tinha amigos de todos os matizes e era um assíduo frequentador de pubs e clubes gays. Sim, ele era homossexual e isto foi um dos motivos que o incentivou a deixar a União Soviética. O medo de revelar a verdade à família, principalmente à mãe, o fez emigrar para o Ocidente, após um de seus concertos por aqui, tal qual o fizeram vários personagens intelectuais da vida artística russa-soviética. 

Ao escrever este romance, tão pessoal e tão carinhoso para com um de seus grandes amigos daqueles anos, Jan Brokken entrou na tradição russa e prestou uma homenagem póstuma a Youri, tal qual os russos tinham o costume de homenagear um morto, com um concerto ao vivo. São linhas escritas como se fossem uma pauta de um concerto: emocionadas, cheias de amor, sem qualquer forma de julgamento para com a vida desregrada do pianista amigo que, fora da sala de concertos, e quando não estava a estudar novas obras, estava bebendo ou fumando maconha.

No momento em que Brokken descreveu um concerto de Youri, num dos mais novos museus da capital holandesa, o Hermitage, ele colocou os tons de admiração, amor e amizade em suas palavras: 

"O sol estava um pouco escondido entre as nuvens e as vezes sai com tudo. A luz do sol na sala, como naquela tarde, era forte e temperada, como se estivesse em comum acordo com a peça de Ravel que estava sendo executada por Youri. Era como se ele estivesse adaptado o seu concerto à tonalidade do tempo lá fora. Parecia que o céu deixou de existir, com exceção de alguns momentos mágicos da música executada. Naquela tarde, o céu desceu à Terra. Não foi apenas imortalmente belo o que ele realizou, foi como se ele estivesse moldando a eternidade".

Como em outras ocasiões em que Youri fez um concerto com músicas de Schubert. Escreveu Brokken: "Ele dedilhou o piano, tocando o compositor como ninguém antes o havia feito. Foi uma noite em que dois poetas se tornaram um". Jan se perguntou se aquela noite teria sido uma noite pesada devido às emoções. E Jan Brokken respondeu: "Acredito que naquela noite, todos morreram um pouco!".

Este romance de uma amizade tão intensa e tão autêntica não deixa dúvidas: não foi escrito para entendedores de música apenas, mas para todos que sabem o que é realmente uma amizade profunda entre dois seres humanos, extremamente capacitados em suas áreas particulares: nas letras e na música. É um romance que presta um tributo profundo à amizade entre um mestre pianista russo-soviético e o grande escritor holandês, Jan Brokken, que tive o prazer de conhecer pessoalmente.

Se você gosta de ler, e ler coisas divinas que o transportam às nuvens, peça a um editor mais próximo de você, para que traduza este romance de Jan Brokken, o livro, Na casa do Poeta (In het huis van de dichter- o título original do romance em holandês), para o português. Talvez ele já tenha sido traduzido e ai vocês podem se deixar levar pela magia desses momentos entre o pianista e o escritor. Nós podemos exigir de nossos editores que nos presenteiam com obras mágicas, por que não? Na Holanda, o romance Na casa do poeta foi publicado pela editora Atlas Contact, Amsterdam/Antwerpen. Leiam, depois me contem, está bem?

*Lev Chaim é jornalista, colunista, publicista da FalaBrasil e trabalhou mais de 20 anos para a Radio Internacional da Holanda, país onde mora até hoje. Ele escreve todas as terças-feiras, para o Dom Total

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



Comentários
Newsletter

Você quer receber notícias do domtotal em seu e-mail ou WhatsApp?

* Escolha qual editoria você deseja receber newsletter.

DomTotal é mantido pela EMGE - Escola de Engenharia e Dom Helder - Escola de Direito.

Engenharia Cívil, Ciência da Computação, Direito (Graduação, Mestrado e Doutorado).

Saiba mais!