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20/04/2021 | domtotal.com

Caso George Floyd: Procurador diz que sua morte de Floyd foi assassinato

Julgamento de Derek Chauvin, policial acusado de ter matado Floyd em 2020, chega a sua reta final e aumenta a pressão em Minneapolis

Manifestantes se manifestam em Memorial de George Floyd em Minneapolis, nos Estados Unidos, em 18 de abril de 2021
Manifestantes se manifestam em Memorial de George Floyd em Minneapolis, nos Estados Unidos, em 18 de abril de 2021 (Kerem Yucel/AFP)

O procurador no julgamento sobre a morte do afro-americano George Floyd pediu nessa segunda-feira (19) aos membros do júri que condenassem o ex-policial branco acusado de assassinato, observando que a prisão do homem negro, registrada em vídeo, foi um "chocante abuso de autoridade".

Derek Chauvin é acusado de ter matado Floyd em 25 de maio de 2020 ao prendê-lo em Minneapolis, no norte dos Estados Unidos, o que gerou protestos contra a injustiça racial e a brutalidade policial em todo o mundo.

"Este caso é exatamente o que eles pensaram quando viram o vídeo pela primeira vez", afirmou o procurador Steve Schleicher nos argumentos finais do julgamento de Chauvin. "Usem o bom senso", disse o procurador ao júri. "O que viram, eles viram". "Podem acreditar no que viram", insistiu Schleicher. "É exatamente o que sabiam, é o que sentiram nas entranhas, é o que agora sabem no fundo do coração".

Chauvin foi filmado ajoelhado sob o pescoço de Floyd, que ficou imobilizado com o rosto para baixo e algemado ao chão por mais de nove minutos, suplicando: "Não consigo respirar". "Não se tratou de vigilância policial, mas de assassinato", observou Schleicher. "Nove minutos e 29 segundos de chocante abuso de autoridade". "O réu é culpado de todas as três acusações. E não há desculpa", ressaltou.

Chauvin, um veterano de 19 anos do Departamento de Polícia de Minneapolis, pode pegar um máximo 40 anos de prisão se for condenado pela acusação mais grave: homicídio em segundo grau. Além disso, o policial enfrenta acusações de homicídio em terceiro grau e homicídio culposo.

Segundo o procurador, Floyd "pediu ajuda com seu último suspiro", mas Chauvin não o atendeu. "Ele não seguiu o treinamento, não seguiu as regras de uso da força do departamento, não fez ressuscitação cardiopulmonar", argumentou. "George Floyd não era uma ameaça para ninguém", disse Schleicher. "Ele não estava tentando machucar ninguém".

O advogado do ex-policial, Eric Nelson, pediu a absolvição de seu cliente, alegando que a acusação não tinha conseguido apresentar provas irrefutáveis sobre sua culpa na morte de Floyd.

Casa Branca atenta

O julgamento de Chauvin coincidiu com o aumento da tensão devido a duas outras mortes de pessoas negras por policiais brancos, que tiveram uma grande repercussão.

Daunte Wright, um jovem negro de 20 anos, foi morto em um subúrbio de Minneapolis em 11 de abril nas mãos de uma policial branca que aparentemente confundiu sua pistola com seu taser; e um menino de 13 anos foi morto pela polícia em Chicago.

A morte de Wright gerou várias noites de protestos em Minneapolis e, antes do veredito no caso Chauvin, tropas da Guarda Nacional foram enviadas para esta cidade, onde muitas vitrines e prédios foram tapados por precaução.

A porta-voz da Casa Branca, Jen Psaki, foi questionada sobre o nível de preparação do governo federal antes do veredito. "Estamos em contato com as autoridades locais, com os estados, com os governadores, com os prefeitos", afirmou. "Continuaremos a incentivar protestos pacíficos, mas não vamos nos antecipar ao veredito", acrescentou.

Antes dos argumentos finais, Ben Crump, advogado das famílias Floyd e Wright, disse que esperava que Chauvin "fosse considerado responsável criminalmente pela morte de George Floyd". "Matar pessoas negras desarmadas é inaceitável", defendeu Crump à ABC News no domingo. "Temos que enviar essa mensagem para a polícia. Fazer com que os agentes sejam responsabilizados".

Entre as 38 testemunhas de acusação, havia transeuntes que testemunharam a prisão de Floyd por supostamente usar uma nota de US$ 20 falsificada para comprar um maço de cigarros. Darnella Frazier, a adolescente que filmou o vídeo que se tornou viral, afirmou que Floyd estava "assustado" e "implorando por sua vida". "Ele não estava bem. Ele estava com dor", disse Frazier.

Genevieve Hansen, de 27 anos, bombeiro fora de serviço, relatou que Chauvin e outros oficiais presentes recusaram sua oferta de oferecer cuidados médicos a Floyd. Donald Williams, de 33 anos, testemunhou que ligou para o 911 para relatar um "assassinato" depois que Floyd foi levado em uma ambulância.

Uso razoável ou excessivo da força?

Chauvin compareceu ao julgamento todos os dias de terno e fazia anotações em um bloco amarelo. Ele falou apenas uma vez e sem a presença dos jurados. Invocou seu direito de não testemunhar em sua própria defesa.

Grande parte da fase de evidências do julgamento girou em torno de se o ex-policial havia feito um uso razoável ou excessivo da força.

Um médico forense aposentado chamado a depor pela defesa indicou que Floyd morreu de parada cardíaca causada por uma doença cardíaca e pelas drogas ilegais fentanil e metanfetamina encontradas em seu corpo.

Já os especialistas médicos chamados pela acusação disseram que Floyd morreu de hipóxia, ou falta de oxigênio, causada pela pressão do joelho de Chauvin em seu pescoço, e que as drogas não foram um fator decisivo. 

A defesa também chamou um policial aposentado que afirmou que o uso da força de Chauvin contra Floyd era "justificado".

Por outro lado, segundo os agentes que testemunharam pela acusação, incluindo o chefe da polícia de Minneapolis, o uso da força foi excessivo e desnecessário. Uma condenação por qualquer uma dessas acusações exigirá do júri um veredito unânime. O juiz Peter Cahill ordenou que os 12 jurados se reunissem a sós para deliberar. 

Três outros ex-policiais envolvidos na prisão de Floyd, Tou Thao, Thomas Lane e J. Alexander Kueng, também enfrentam acusações e serão julgados separadamente até o fim do ano.

Tensão em Minneapolis

"Estamos nos preparando para o pior", afirmou Janay Clanton, moradora de Minneapolis, onde na segunda-feira (19) as forças de segurança faziam patrulha e as lojas estão fechadas enquanto aguardam o veredito do julgamento pela morte do afro-americano George Floyd. "Tudo vai explodir", prevê esta mulher de 62 anos, se o policial branco Derek Chauvin não for considerado culpado de assassinato.

Clanton não é a única preocupada: depois da morte de Floyd no momento em que era preso por Chauvin em maio passado, as emoções têm estado à flor da pele nesta metrópole do norte dos Estados Unidos, que se tornou espaço de grandes protestos contra a injustiça racial e a violência policial.

Minneapolis, uma cidade típica do meio-oeste, tem mais de 400 mil residentes. Arranha-céus cercam o tribunal onde o julgamento do policial branco está chegando ao fim. Cada uma dessas torres de escritórios decidiu se proteger atrás de enormes placas de madeira, com vários metros de altura.

Uma loja da rede Target, localizada a algumas centenas de metros do tribunal, ainda está aberta aos clientes, mas está tão protegida que lembra um prédio abandonado. "Eu moro no centro da cidade e estamos todos muito preocupados com o resultado do julgamento", lamenta Clanton.

Em torno do tribunal, veículos do exército, atrás de blocos de concreto e portões de três metros de altura, atestam a sensibilidade referente a esse julgamento, que entrou em sua fase final, com os argumentos finais, antes do júri se retirar para deliberar.

Qualquer decisão que não seja um veredito de culpa pode transformar a cidade, onde ainda caem alguns flocos de neve, em palco de novas manifestações. Se for esse o caso, "acho que haverá tumultos e as pessoas ficarão muito bravas", observa Pouya Hemmati, uma cirurgiã de 31 anos.

Para ela, Chauvin deve ser condenada pelo que considera ser um "assassinato" e um caso de "brutalidade policial" contra Floyd. "Todos o viram colocar o joelho no pescoço [de Floyd] por 9 minutos e meio", explica.

Como exemplo da tensão existente, a polícia anunciou que na manhã de domingo dois membros da Guarda Nacional foram atacados a tiros a partir de um carro em movimento. Nenhum foi atingido pelas balas e tiveram apenas ferimentos superficiais, principalmente por causa do vidro quebrado.

Maxine Waters, uma congressista democrata negra da Califórnia que viajou para Minnesota, foi acusada por funcionários republicanos de colocar lenha na fogueira neste fim de semana. "Devemos ficar nas ruas, devemos ser mais ativos, devemos ser mais agressivos", defendeu a octogenária, que disse esperar a condenação de Chauvin.

'Desencadeie uma mudança'

Para alguns moradores, diante dos histórico do tribunal de Minnesota, quando se trata de casos envolvendo policiais, há maior probabilidade para um veredito que inocente o acusado.

"A única vez que vimos (um policial) ser condenado ele era uma pessoa negra. Portanto, como uma pessoa negra, não espero que o resultado seja - entre aspas - favorável a mim", ressalta Ashley Commodore. "Não acho que ele será condenado, e acho que a cidade está se preparando para isso", acrescenta a cantora de 33 anos, citando a presença da Guarda Nacional.

A jovem prevê "revoltas e confrontos" que se "duplicarão ou até triplicarão" de intensidade em relação ao ano passado. Porém, se Chauvin for considerado culpado, Commodore espera que o caso "realmente desencadeie uma mudança" na forma como a polícia de Minnesota atua.

Clanton prefere ser otimista. "Só espero que tudo corra bem, que todos estejam satisfeitos e que nossa cidade continue de pé", argumenta.


AFP/Dom Total



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