Brasil Política

21/04/2021 | domtotal.com

Sociedade da conciliação

O acordo é para acomodar os interesses das classes dominantes, de modo a evitar uma ruptura no sistema de equilíbrio que trouxesse os 'de baixo', com seus interesses divergentes, para o 'alto' do comando da sociedade

Uma manifestação contra Bolsonaro no muro de uma unidade de saúde no Rio de Janeiro
Uma manifestação contra Bolsonaro no muro de uma unidade de saúde no Rio de Janeiro (Mauro Pimentel/ AFP)

Reinaldo Lobo*

O Brasil parece não ter cura. Vai ladeira abaixo de crise em crise. Mas sempre acha uma saída provisória, que não é a solução ou a remissão dos sintomas. É um arranjo, com pequenas variações ao longo do tempo, entre os poderosos de sempre. O nome disso é conciliação.

É uma coisa das elites: empresários, banqueiros, latifundiários, banqueiros-latifundiários, industriais do agronegócio, grileiros, burocratas corruptos que amealharam fortuna, militares com poder de barganha, políticos que servem a essas frações, bancadas da bíblia, do boi e da bala, e - não se pode esquecer - boa parte da mídia, que altera informações, edita debates políticos, tudo em nome da "moderação nacional".

O hábito de "conciliar" e de "moderar" vem de longe, desde o Império, culminando na atual fase de decadência da Nova República, invenção conciliatória para não acabar definitivamente com os restos da Ditadura. O acordo é para acomodar os interesses das classes dominantes, de modo a evitar uma ruptura no sistema de equilíbrio que trouxesse os "de baixo", com seus interesses divergentes, para o "alto" do comando da sociedade.

Não é por acaso que o tema político do momento é "como evitar a polarização" em 2022. Os conflitos existem desde sempre, como luta de classes, disputas entre facções políticas, lutas entre escravocratas e liberais, conservadores e reformistas, esquerda e direita, mas o importante é varrer esses conflitos para debaixo do tapete e obter o acordo pelo alto, entre os próprios poderosos. A isso chamam de "centro político", que , na verdade, é uma fórmula para manter tudo como está na hierarquia social.

A chamada "polarização" revela as diferenças entre interesses de classe e esclarece algo que precisa ficar opaco para o Sistema prosseguir operando às cambalhotas. A direita nacional costuma ser ruim de voto e fracassou na tarefa atual de fazer a economia crescer e manejar a crise sanitária provocada pela pandemia. Então, precisa achar uma saída pelo centro-direita que possa tamponar seu fracasso e evitar a ascensão do PT, comprometido em trazer de volta à cena os interesses dos trabalhadores, dos pobres e dos excluídos em geral.

Para isso, a direita conta com a ideologia da moderação e da conciliação, espargida pela classe média branca e até por setores das massas mais pobres, voltadas para o alívio imediato da crise e perdidas na alienação da desinformação programada. As classe médias são as que mais defendem, a serviço dos setores dominantes, a ideologia da conciliação de raça e de classes inaugurada lá atrás por Gylberto Freire e - é preciso dizer - também por Sérgio Buarque de Holanda, que criou o mito do "homem cordial".

A chamada polarização foi uma criação da mídia conservadora e do governo Bolsonaro, cuja exposição óbvia dos objetivos antipopulares de seu governo e da defesa escancarada dos interesses das classes dominantes, com o arrocho sobre a população trabalhadora, o roubo de seus direitos, o desemprego em massa e a violência genocida de seu presidente.

Agora, as elites tentam achar um candidato que seja seu, sem os "excessos" do neofascismo e capaz de enfrentar a candidatura da esquerda mais se destacada, que é a de Lula. A direita nacional está desesperada. Seu modelo neoliberal de governar afunda evidentemente, não há plano B e, talvez, nem tempo para recuperar prestígio popular antes das eleições de 2022.

O apelo à moderação e à conciliação começa a falhar. Talvez essa seja a sua última chance de vigorar no Brasil, pois não se trata de um pacto que resolva as crises, como ocorreu no Uruguai, na Espanha e em Portugal.

A conciliação é causa de crise, pois inclui poucos setores da vida nacional e não permite um consenso em que as próprias classes trabalhadoras participem do bloco democrático. A estratégia das classes dominantes brasileiras é paradoxal, uma vez que propõe pacificar os conflitos e, ao mesmo tempo, os gera, excluindo o povo e os pobres.

Para uma democracia ser legítima e rotinizar seus efeitos curativos sobre as crises, é preciso haver consenso não apenas entre uma facção ou poucas facções da vida social e política, mas entre a maior parte dos atores da vida nacional, sobretudo os que sustentam a vida do país. Como dizia o ex-presidente uruguaio José Pepe Mujica, para existir democracia de verdade é necessário que o povo se reconheça e faça parte dela.

*Reinaldo Lobo é psicanalista e articulista

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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