Mundo

22/04/2021 | domtotal.com

Clamor por ações contra racismo nos EUA aumenta após veredito do caso Floyd

Condenação de policial pela morte de George Floyd é considerada uma decisão rara no país, onde julgamentos de assassinatos de pessoas negras e latinas pela polícia nem sempre tem o mesmo desfecho

Manifestação em frente ao prédio onde aconteceu o julgamento da morte de George Floyd
Manifestação em frente ao prédio onde aconteceu o julgamento da morte de George Floyd (Chandan Khanna/AFP)

O tão esperado veredito contra o ex-policial branco condenado pelo assassinato de George Floyd gerou uma onda de esperança entre os afro-americanos nessa quarta-feira (21), embora casos de outros cidadãos negros mortos pelas mãos de policiais mostrem que ainda há um longo caminho pela frente.

"Justiça!", um "ponto de virada na história": tanto o advogado da família Floyd, Ben Crump, quanto os manifestantes reunidos em frente ao tribunal de Minneapolis na terça-feira (21) não puderam conter sua alegria após ouvir o veredito contra o ex-policial Derek Chauvin.

"Agora vamos poder respirar um pouco melhor", repetiram os manifestantes, os políticos, mas também os irmãos de George Floyd, retomando as últimas palavras que este afro-americano de 46 anos afirmou no dia 25 de maio de 2020, antes de sua morte.

"Por favor, não consigo respirar", Floyd implorou várias vezes, enquanto Chauvin mantinha o joelho sob o pescoço por mais de nove minutos. Esse apelo logo se tornou um grito de guerra contra o racismo e os abusos da aplicação da lei que ecoaram em várias partes do mundo.

Após três semanas de um processo cercado de alta tensão nesta cidade do norte dos Estados Unidos, os 12 membros do júri concluíram, em menos de 24 horas, que o réu era culpado das três acusações contra ele: homicídio em segundo e terceiro grau e homicídio culposo.

Expulso das forças de ordem, o ex-agente de 45 anos demonstrou pouca emoção quando o veredito foi anunciado. Ele foi imediatamente algemado e levado para a prisão. Uma decisão e imagem muito raras em um país onde os policiais raramente são condenados.

'O tempo dirá'

"Só o tempo dirá se (o veredito) marca o início de algo que realmente mudará os EUA e o que passam os negros americanos", disse Philonise Floyd, um dos irmãos de George, nessa quarta-feira ao The Washington Post.

No local onde morreu, batizado de Praça George Floyd, Helena Sere, uma mulher negra de cerca de 40 anos afirmou ter "chorado" na véspera, ao ouvir o veredito. "Espero que esse seja o começo de uma mudança", afirmou com esperança.

Mas depois da satisfação inicial, muitas vozes não tardaram em apontar que esse processo continua sendo um evento isolado. "Devemos continuar lutando por todas as minorias marginalizadas que perderam suas vidas para a brutalidade policial", tuitou o advogado Crump.

Para o presidente Joe Biden, o veredicto pode marcar "um grande passo à frente no caminho em direção à justiça nos Estados Unidos" e levar a "mudanças significativas".

"Os negros americanos, principalmente os homens negros, foram tratados neste país como se não fossem homens", afirmou Kamala Harris, ao lado dele durante um discurso solene. "Precisamos reformar o sistema", repetiu a primeira vice-presidente negra dos Estados Unidos.

"Sabemos que a verdadeira justiça exige muito mais do que um único veredito em um único julgamento", ressaltou Barack Obama na terça-feira, pedindo a continuação da "luta" para combater o racismo e a violência policial. "Não podemos parar por aí", exortou o primeiro presidente negro dos Estados Unidos.

Biden e Harris pediram aos parlamentares que agissem mais rápido. Mas republicanos e democratas ainda parecem longe de qualquer ação comum.

Como triste exemplo dessas declarações, na terça-feira, pouco antes do veredicto ser divulgado, a polícia de Columbus, no estado de Ohio, matou a tiros uma adolescente negra de 16 anos que aparentemente atacava outra pessoa com uma faca. Em um vídeo compartilhado rapidamente pela polícia, a mulher parece atacar com uma faca outra pessoa jovem.

A porta-voz da Casa Branca deplorou o episódio, qualificando-o como trágico. "Sabemos que a violência policial afeta de maneira desproporcional as pessoas negras e hispânicas", ressaltou Jen Psaki.

Outros casos também geraram indignação quando foram mostrados durante o julgamento contra Chauvin, como o vídeo de um menor latino de 13 anos, Adam Toledo, morto por um policial de Chicago. Imagens "insuportáveis", segundo a prefeitura da cidade.

E nessa quarta-feira, outro afro-americano foi morto a tiros por um policial da Carolina do Norte, quando o agente foi cumprir um mandado de busca e apreensão.

Os Floyd no funeral de Wright

Nos arredores de Minneapolis, Daunte Wright, um afro-americano de 22 anos, morreu após ser baleado por um policial branco durante uma blitz de trânsito em 11 de abril.

O funeral está previsto para esta quinta-feira (22) em uma igreja da cidade, e a família de Floyd, seu advogado e o ativista de direitos civis Al Sharpton comparecerão, onde irão discursar. Sua morte mais uma vez agravou a tensão nesta cidade já repleta de proteções e barricadas em decorrência do julgamento. 

O Departamento de Justiça dos Estados Unidos anunciou nessa quarta-feira que abrirá uma investigação civil sobre a polícia de Minneapolis. Separado das investigações criminais em andamento sobre a morte de Floyd, esta nova investigação examinará se a polícia municipal aplica uma política sistemática de força excessiva, mesmo durante protestos legais.


AFP/Dom Total



Comentários
Newsletter

Você quer receber notícias do domtotal em seu e-mail ou WhatsApp?

* Escolha qual editoria você deseja receber newsletter.

DomTotal é mantido pela EMGE - Escola de Engenharia e Dom Helder - Escola de Direito.

Engenharia Cívil, Ciência da Computação, Direito (Graduação, Mestrado e Doutorado).

Saiba mais!