Religião

23/04/2021 | domtotal.com

São Jorge: testemunha de fé e esperança

Devoção a São Jorge pode nos ajudar a acreditar no Deus da vida mesmo num contexto de morte

Representação de São Jorge matando o dragão com uma lança em sua mão direita da Capela de São Basílio, datada do século 11
Representação de São Jorge matando o dragão com uma lança em sua mão direita da Capela de São Basílio, datada do século 11 (Wikimedia/Alperen Çiçekli)

Francisco Thallys Rodrigues*

Nossa sociedade está imersa num universo de mudanças e de avanços tecnológicos que permitem múltiplas conexões, contatos e trocas de informações nos tornando uma aldeia global. Neste cenário, seguindo o caminho contrário às diversas previsões, as religiões continuam marcando presença na vida de inúmeras pessoas. Há uma constante busca pelo sagrado que se expressa de diferentes formas. As devoções aos santos, no caso da Igreja Católica, expressam o desejo de maior proximidade com sagrado, na busca por modelos concretos de seguimento ao Evangelho de Jesus. A questão que se coloca é saber quais contribuições para a fé cristã as devoções podem trazer.

Para tanto, tomaremos como exemplo um santo bastante conhecido pelo povo e que tem visto sua devoção crescer nos últimos tempos: São Jorge.

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Não há registros documentais seguros sobre o nascimento e a morte de São Jorge, mas há testemunhos que comprovam sua devoção desde os primórdios da Igreja. Jorge nasceu na Capadócia, atual Turquia, no século 3. Filho de pais cristãos, converteu-se ainda jovem a fé cristã. Ingressou no serviço militar e destacou-se pela determinação, inteligência, coragem e força física. Rapidamente subiu de patente tornando-se capitão do exército romano. Durante o período de perseguição aos cristãos pelo imperador Diocleciano, Jorge se opôs firmemente. Pressionado a renunciar a sua fé, oferecendo sacrifícios aos deuses, ele se manteve firme em suas convicções. Torturado de diversos modos, ele manteve-se fiel até a sua morte. 

O sangue derramado em seu martírio tornou-se símbolo de perseverança para muitos fiéis que viviam num contexto de perseguição e sofrimento. Logo a sua devoção se espalhou por cidades, vilas, povoados, sobretudo a partir do século 5 e, depois, no período das Cruzadas, ele se tornou um santo bastante popular. São Jorge é o patrono de países como a Inglaterra, Portugal, Geórgia e Lituânia e de cidades como Moscou e Rio de Janeiro.

No Brasil, a devoção a São Jorge chegou por meio dos portugueses. Em torno de sua figura cresceram múltiplas histórias, lendas e contos que ressaltaram suas virtudes heroicas. Numa mistura de fé, devoção e heroísmo, este santo se tornou símbolo de fidelidade, força e capacidade de enfrentamento dos perigos e adversidades. Os negros trazidos como escravos para o Rio de Janeiro, impossibilitados de praticar sua religião, identificaram este santo com o orixá da guerra Ogun. Por conseguinte, tomando a devoção popular a São Jorge, pode-se sinalizar alguns elementos que chamam atenção, seja por sua capacidade de alimentar a fé, seja pela possibilidade de estreitar os laços de diálogo, escuta e esperança. Vejamos. 

Primeiro, os santos são um reflexo da santidade de Deus. De modo semelhante a lua que não tem brilho próprio, mas reflete a luz do sol que incide sobre ela, assim a santidade dos homens e mulheres é reflexo da santidade de Deus, Nele tem sua fonte e sustentação. Neste sentido, contemplar um santo é olhar para um fragmento da santidade de Deus que está refletida na vida de amor e doação daquele homem ou daquela mulher. É a santidade ao pé da porta do qual nos tem falado o papa Francisco: pais e mães de família que lutam todos os dias em busca do sustento, religiosas (os) idosos (as) que continuam a sorrir...

A santidade é vivida na experiência de seguimento a Jesus que nos torna anunciadores da boa nova do Reino. Em sentido estrito, a santidade não é uma piedade desencarnada da vida e dos problemas do mundo, nem tampouco uma religiosidade descomprometida com a vida dos irmãos e irmãs. A santidade supõe a experiência de professar a fé no Deus revelado por Jesus que se concretiza no compromisso com os pobres e sofredores em cada época e momento da história humana. 

Segundo, a devoção e afeição a São Jorge podem ser um caminho para o diálogo inter-religioso. Tendo em vista que em torno do santo guerreiro unem-se pessoas de diferentes experiências religiosas, pode-se, a partir das expressões de devoção e piedade popular, tecer caminhos para o diálogo e a escuta mútua que possibilitem a superação das barreiras do medo e do preconceito.

Terceiro, a devoção pode alimentar a esperança e perseverança neste momento de dor e sofrimento. Numa sociedade cada vez mais insegura, marcada pela desigualdade social e violência, a pandemia da covid-19 tem acentuado conflitos de interesses marcados pelo egoísmo e desejo de poder. A pandemia reforçou a sensação de medo e insegurança, sobretudo nos mais pobres e vulneráveis. Neste contexto, a devoção a São Jorge, fiel cristão, seguidor de Jesus, pode nos ajudar a acreditar no Deus da vida mesmo num contexto de morte. Lutar para que toda vida seja respeitada e tratada com igual dignidade, pois as mortes não são simplesmente números, mas vidas, histórias, que se encerram.

Portanto, a devoção a São Jorge quando não se encerra em si mesma, isto é, quando ela não é fim, mas meio, pode colaborar: para o crescimento no seguimento a Jesus vivendo os valores do Reino; para o fortalecimento de vínculos que permitam o diálogo com o diferente e para lutar pela vida plena para todos, mesmo num contexto marcado pelo desânimo e cansaço. Seguindo a devoção popular que atribui a São Jorge a lenda do enfrentamento de um dragão, podemos dizer que como ele somos convidados a enfrentar os dragões da maldade, do ódio e do egoísmo que buscam tomar conta de nosso coração.

*Presbítero da Diocese de Crateús, mestrando em Teologia na Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE), bolsista CAPES, especialista em Sagradas Escrituras (EST), bacharel em Filosofia (FCF) e Teologia (FAJE), licenciado em História (UNOPAR).



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