Religião

23/04/2021 | domtotal.com

Uma oração que alcança a lua

São Jorge pode nos ajudar a reencontrar os perdidos caminhos do Evangelho, cujo centro e cume é Jesus Cristo

No imaginário popular se estabeleceu a imagem de que São Jorge moraria na lua
No imaginário popular se estabeleceu a imagem de que São Jorge moraria na lua (Unsplash/Ganapathy Kumar)

Gustavo Ribeiro*

"...São Jorge ia pra lua lutar contra o dragão;
São Jorge quase morria, mas eu lhe dava a mão.
E voltava trazendo a moça com quem ia me casar,
era minha professora, que roubei do Rei Lear"

(Estampas Eucalol, de Hélio Contreiras)

Que a realidade brasileira não é fácil, todos nós estamos cansados de experimentar. Mas por que apelar para um santo que mora na lua? Esse é o paradoxo religioso tupiniquim. Para suportar as agruras de nosso país, recorremos ao mítico guerreiro, São Jorge, o capadócio que lutou contra um dragão e foi um fervoroso católico e que, segundo o senso comum, vive no astro dependurado no céu de nossas noites.

O Brasil possui uma riqueza religiosa maravilhosa. Em sua diversidade, o comum é que encontremos pessoas vivendo mais de uma expressão religiosa. A dupla pertença é algo mais comum entre nós do que imaginamos, é quase uma instituição, não reconhecida, mas amplamente explorada. E isso forma o povo brasileiro em sua identidade, uma vez que o sincretismo religioso é tão forte que influencia em nossas subjetividades.

Leia também:

A intenção deste nosso artigo é de explorar alguns pontos da popular Oração a São Jorge, que, claro, nos permitem mergulhar nessa diversidade que forma o sistema de crenças religiosas do povo brasileiro e, também, da realidade, que é o que enseja a necessidade de rezar para o santo guerreiro.

Esta oração que tem sua origem no terreno religioso cristão, mas encontra eco maior no sincretismo, na vivência das religiões de matriz africana, na umbanda e no candomblé, sobretudo. Nestas duas tradições, Jorge sincretiza um importante orixá, Ogum, também guerreiro, o aplicador da lei e da ordem. Ogunhê!

A primeira parte da oração é uma afirmação a partir das características estéticas atribuídas ao santo capadócio. É uma afirmação sobre a armadura que cobre o corpo do cavaleiro, essa figura atribuída a Jorge na idade média, no período das cruzadas. O centro dessa afirmação é a proteção contra o inimigo. Estar armado e protegido para a "batalha" contra esta figura antagonista que pode vir a fazer o mal contra o corpo e contra a alma. Aliás, este é o pano de fundo de toda a oração. O que é bastante interessante, uma vez que essa visão maniqueísta não faz parte da tradição das religiões afro-brasileiras, já que o bem e o mal coexistem e estão contidos em tudo, é a orientação que define para qual dos polos penderá o trabalho. Esse dualismo é próprio do cristianismo sob influência da filosofia grega.

Outro ponto interessante é que nossa geração nunca experimentou uma guerra. Ou melhor, uma guerra em seu sentido "clássico", como tantas vezes vimos reproduzidas na cinematografia. Porém, possuímos um vocabulário e uma gramática existencial bastante belicistas. Veja como tratamos a pandemia da Covid-19, como uma guerra; quando, na verdade, estamos falando de processos da natureza que se exacerbam por nossas ações antrópicas. O vírus não tem uma estratégia, ele não possui consciência, ele não nos escolheu como inimigos. Nós só estamos colhendo o que plantamos com a degradação ambiental.

Agora, quanto à oração, o inimigo, o outro, a alteridade fora e diferente de mim, que tenta interferir no meu sucesso, que vive à espreita para me derrubar, é uma criação, é uma construção, que se aguça sob o sistema econômico vigente, o capitalismo. Ora, sob esse sistema, que se alicerça na meritocracia, não pode haver mais de um vencedor, por isso, todos aqueles que competem entre si são inimigos uns dos outros. A colaboração não faz parte desse modelo de comportamento, embora, como marketing, o capital até pinte algumas telas nessa perspectiva, porém, o que é o imperativo é o mérito pessoal.

"Eu andarei vestido e armado com as armas de São Jorge para que meus inimigos, tendo pés não me alcancem, tendo mãos não me peguem, tendo olhos não me vejam, e nem em pensamentos eles possam me fazer algum mal".

Num país que se arma cada vez mais e que coloca a sensação de segurança nas armas de fogo, é preciso mesmo rezar para que nenhum projétil alcance nosso corpo. E essas balas alcançam muitos corpos, principalmente os corpos negros nas periferias, disparadas, na maioria das vezes, pelo braço armado do Estado, que deveria proteger essas vidas.

É interessante notar que nos Evangelhos não há sinal de que a violência seja incentivada. Pelo contrário, o incentivo é para a não-violência. A recomendação é que os discípulos nada levem pelo caminho nem mesmo uma arma (cf. Mt 10, 9-10). E quando receberem um tapa, pois que ofereçam o outro lado (cf. Lc 6,29). E quando um dos discípulos sacou uma arma, uma espada, no Horto das Oliveiras, Jesus mandou guardar, porque esta não é a conduta de um seguidor do Caminho (cf. Mt 26,51-52; Lc 22,49-51; Jo 18,10-11).

Mas os cristãos seguem incentivando a liberação cada vez maior do porte de armas para o "cidadão de bem". E se assim acontece, no clima de competição e paranoia na relação com os "inimigos", é necessário mesmo rezar pedindo proteção, pois nunca se sabe quando alguém poderá sacar uma arma para ferir e matar. Acontece no trânsito, por exemplo, com mais frequência que deveria.

"Armas de fogo o meu corpo não alcançarão, facas e lanças se quebrarão sem o meu corpo tocar, cordas e correntes se arrebentarão sem o meu corpo amarrar".

Segundo a tradição, Jorge era um cristão convicto e é por isso que ele foi perseguido e morto. Foi, também, por causa de sua fé no Mestre, que ele realizou seus grandes feitos, para levar seus coetâneos a acolher a fé e a se tornarem cristãos.

É neste ponto que a oração encontra seu alicerce cristão, pedindo proteção a Jesus, aquele que tem poder e graça para isto. É, também, quando ela toca o sincretismo, porque Jesus nas religiões afro-brasileiras é Oxalá, o filho de Olorum, o sábio e benevolente.

"Jesus Cristo, me proteja e me defenda com o poder de sua santa e divina graça; a Virgem de Nazaré, me cubra com o seu manto sagrado e divino, protegendo-me em todas as minhas dores e aflições; e Deus, com sua divina misericórdia e grande poder, seja meu defensor contra as maldades e perseguições dos meus inimigos".

Para não ser subjugado é necessário dominar o adversário, o inimigo, para que ele não tenha ação e nem possa tomar a iniciativa primeira. Por isso, pede-se que o cavalo do santo mantenha debaixo de sua pata todos aqueles que querem o mal contra quem reza. Mas a submissão não é a quem pede e, sim, a Jorge, aquele que em seus feitos aprisionou, subjugou e matou o dragão.

O dragão, essa imagem mítica que habita nossas fantasias, figura como aquele que impõe, em chamas, o mal. Imagem demoníaca que não tem outra função senão a de perseguir e fazer arder os feitos humanos, porque é assim que ele geralmente é representado na literatura e no cinema. 

E uma vez controlada toda ação do mal externo, pede-se o que se quer alcançar, a graça necessária, não sem antes suplicar por modos de superar o desânimo. O desânimo é a falta de alma, de vontade, de apetite, de desejo. Um ser não desejante está morto. Só os que vivem podem pedir, porque desejam e querem alcançar um modo de vida melhor. Por isso, são os que menos têm os que mais pedem, porque desejam mais. Os que muito têm até pedem, mas não desejam, morreram soterrados no acúmulo de seus bens e egos.

"Oh! Glorioso São Jorge, em nome de Deus, estenda-me o seu escudo e as suas poderosas armas, defendendo-me com a sua força e com a sua grandeza, e que debaixo das patas de seu fiel cavalo meus inimigos fiquem humildes e submissos a vós. Ajudai-me a superar todo o desânimo e alcançar a graça que tanto preciso: ...faz-se, aqui, o pedido.

Assim seja com o poder de Deus, de Jesus e da falange do Divino Espírito Santo. Amém!"

Pelos estudos astronômicos sabemos que a lua não possui luz própria, mas que reflete a luz do sol. Acho que aqui temos algo importante para aportar a fé. Uma metáfora que pode nos ajudar a reencontrar a centralidade da fé cristã. Mesmo que São Jorge não tenha existido, ou se existiu sua história seja muito diferente da que conhecemos (o que é mais provável), ele pode nos ajudar a reencontrar os perdidos caminhos do Evangelho, cujo centro e cume é Jesus Cristo. Se irradiarmos a luz do Cristo com nosso testemunho neste mundo muitas vezes permeado pelas trevas do medo, da violência e da ignorância, seremos, de fato, os "guerreiros" desta "batalha". Guerreiros sem armas, é bom que se diga, porque o que o Mestre recomenda é não levar nada, apenas a Boa Nova a ser anunciada pelos caminhos.

Que ao rezarmos a São Jorge peçamos coragem, essa sim a maior virtude de um guerreiro. A coragem de arriscar nossas vidas para que a vida das maiorias populares seja defendida e promovida, em abundância (Jo 10,10).

E mais, que recitando esta oração ao santo capadócio saibamos que somos muitos os que a rezamos, com os mais variados desejos e necessidades, matizados das mais diferentes cores da fé. Mas Deus que está no céu e vê o que está escondido, conhece o interior de nossos corações e sabe de tudo. Que nossas diferenças não nos afastem, mas nos unam na construção de um mundo mais justo e tolerante, sem guerras e armas.

*Gustavo Ribeiro é natural de São Vicente de Minas/MG. Atualmente residindo em São José/SC, onde trabalha como Analista de Pastoral Sênior em um colégio católico. Graduado em Teologia. Graduando em Pedagogia. E pós-graduando em Gestão Escolar. Poeta nas horas vagas, que são poucas.



Comentários
Newsletter

Você quer receber notícias do domtotal em seu e-mail ou WhatsApp?

* Escolha qual editoria você deseja receber newsletter.

DomTotal é mantido pela EMGE - Escola de Engenharia e Dom Helder - Escola de Direito.

Engenharia Cívil, Ciência da Computação, Direito (Graduação, Mestrado e Doutorado).

Saiba mais!



Outras Notícias