Religião

23/04/2021 | domtotal.com

São Jorge é Ogum? Uma abordagem sobre o sincretismo religioso

São Jorge e Ogum possuem como características equivalentes a qualidade de serem guerreiros, defensores, protetores

64ª Festa de São Jorge e Ogum em Porto Alegre em 2017
64ª Festa de São Jorge e Ogum em Porto Alegre em 2017 (Joel Vargas/PMPA)

Guaraci Maximiano dos Santos e Glaydson de Oliveira Souza*

No dicionário Oxford para a língua portuguesa, o sincretismo religioso é definido como a "fusão de diferentes cultos ou doutrinas religiosas, com reinterpretação de seus elementos". Podemos entendê-lo, portanto, como uma mistura de crenças que tem como finalidade uma prática devocional. Logicamente, a realidade não se reduz a esse entendimento.

Há na formação religiosa da sociedade brasileira a contribuição primordial de três grandes grupos, respectivamente: (a) dos povos originários; (b) dos invasores portugueses e (c) dos africanos da diáspora. Pouco se registrou acerca da genuína religiosidade dos primeiros em razão do genocídio que os acometeu; sempre houve a prevalência dos segundos por meio do cristianismo (catolicismo romano) que de certo modo ainda vigora no estado laico como religião "oficial" e, por fim, nunca se buscou entender a diversidade das religiosidades dos terceiros, que transmigraram da África uma memória reproduzida de maneira muito peculiar.

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Extraída a abordagem dos autóctones, nosso foco será explorar o sincretismo havido entre São Jorge e Ogum, a saber, um santo católico e um Orixá do candomblé nagô, também reverenciado como Nkosi, uma divindade nos candomblés de Angola, assim como nas umbandas e encantarias.

São Jorge foi um soldado romano que viveu nos anos 275 a 303. Segundo Jacopo de Varezze, seu nome, Georgius, deriva de "gerar" e gyon, "luta", significando 'lutador sagrado' "porque lutou contra o dragão e contra o carrasco. Jorge ainda pode resultar de gero, que quer dizer 'peregrino' porque foi peregrino em seu desprezo pelo mundo, cortado em seu martírio e conselheiro na prédica do reino de Deus" (VAREZZE, 2003, p. 365). São Jorge é um mártir cristão e santo padroeiro em inúmeras cidades pelo mundo, como por exemplo, Londres, Barcelona e Gênova, muito evocado para proteção contra os inimigos.

Ogum é um Orixá (Orisà: Ori=cabeça, =pai) que remonta à criação do mundo para o povo nagô-iorubá. Ele é um guerreiro responsável pelo ferro, pela agricultura, pelos caminhos, pela caça, pela tecnologia e é protetor dos artesãos e ferreiros (BARROS, 2007, p. 225). Como equivalente para o povo bantu temos Nkosi, um N'kisi que apresenta qualidades semelhantes.

Percebemos que as duas divindades, São Jorge e Ogum, possuem como características equivalentes a qualidade de serem guerreiros, defensores, protetores. Contudo, aquilo que os aproxima também os distancia na medida em que se pretende estabelecer uma "pureza" devocional e ritualística que afasta a porosidade religiosa havida entre o catolicismo e a matriz afro-brasileira.

Não podemos ignorar que os reinos centro-africanos do Congo e Matamba (atual Angola) foram colonizados pelos portugueses no final do século 15 e que o cristianismo foi aceito nesses reinos, interpretado a partir das crenças locais. Conforme nos informa Eduardo Possidônio, "o catolicismo se propagou rapidamente dentro do Congo e, por uma "ironia", muitas das práticas cristãs assimilavam-se em vários aspectos com o fetichismo animista dos povos centro-africanos" (POSSIDÔNIO, 2015, p. 38), ao que completa Marina de Mello e Souza, afirmando que:

Deu-se uma intensa reinterpretação de crenças, mitologias, símbolos e costumes que levaram, de um lado, missionários a acreditarem que catequizavam com êxito o povo e, do outro, um povo que entendia continuar com suas antigas crenças religiosas recebendo novos valores católicos aos seus tradicionais costumes. As igrejas ganhavam o nome de nzo nkisi, a bíblia era apresentada pelo clero católico como mukanda nkisi e os próprios padres se intitulavam em diversos momentos, como ngangas (SOUZA, 2002, p.66)

Observa-se, portanto, que ainda na África e antes da diáspora que trouxe esses povos ao Brasil, houve o contato entre o cristianismo e as religiões tradicionais centro-africanas, com o estabelecimento de cultos similares a Santos católicos e Minkisi (plural de N'kisi) o que se dava pela correspondência ou semelhança com a qualidade dos mesmos (guerreiros, protetores, dadivosos, etc).

Tais crenças foram reproduzidas por esses povos no Brasil, ressignificando a memória religiosa centro-africana, posteriormente acrescida da devoção dos povos africanos centro-ocidentais (Nigéria, Togo, Gana) chamados aqui de nagôs-iorubás. Nesse sentido é que Pierre Sanchis define que "é impossível abstrair a vivência das religiões de matriz africana no Brasil de certa impregnação católica, impossível imaginar nosso catolicismo de fato, como despido de ressonâncias africanas" (SANCHIS, 1997, p. 42). No mesmo sentido, Carlos Engemann conclui que:

As crenças – católicas, sincréticas ou africanas circulavam pelas vozes sussurradas nas senzalas ou bradadas dos púlpitos, passando seus saberes de boca em boca e produzindo um conjunto de práticas ritualísticas compartilhadas e criadas como sagradas por grande parte dos indivíduos (ENGEMANN, 2008, p.90).

Se o contato com o cristianismo não envolveu qualquer mudança religiosa fundamental para os cultos afro-brasileiros (pois seus adeptos continuaram praticando sua fé nos Minkisi, Orixás e ancestrais e ainda agregaram os Santos católicos como mais uma forma de proteção) porque o sincretismo ainda gera tantas discussões que beiram a intolerância e geram essencialismos? Ou seja, se São Jorge continua sendo São Jorge e Ogum continua sendo Ogum, qual a origem da reinvindicação de uma pureza que, de fato, nunca existiu?

O sincretismo como "fuga" da proibição dos negros de praticarem sua fé no período da escravização é uma ideia que se opõe a história, haja vista que, mesmo subalternizados, eles não desistiram das antigas crenças: a assimilação de novas crenças não implicou na exclusão das suas crenças tradicionais. A esse respeito, John Thornton explica que:

[...]continuavam a visitar os túmulos de seus ancestrais e procurar por sorte, saúde e bênçãos. Respeitavam as divindades territoriais que ocasionalmente identificavam com os santos cristãos, mas outras vezes reverenciavam-nas separadamente (THORNTON, 2010, p. 95).

Mary C. Karasch (2000) se interroga em relação à compreensão tradicional de sincretismo religioso – segundo a qual o santo católico seria supostamente o esconderijo para a divindade africana e para a conservação de seu credo – e corrobora que não houve sincretismo, pois, não houve fusão e sim uma assimilação conveniente dos santos católicos às crenças, costumes e tradições centro-africanas. A concepção do sincretismo como assimilação também é identificada pelo sacerdote Guaraci Maximiano dos Santos, quando afirma que:

a bricolagem cristã-africana, acontecida sobre a égide da Igreja Católica, inicialmente legitimava a escravidão como forma de salvar a alma dos negros trazidos da África. Proibiram-se as práticas religiosas, o uso dos dialetos e dos saberes diversos como o culto à natureza, que os africanos traziam. E foi como enfreamento disso que o sincretismo se constitui. Os negros "convertidos" passaram a utilizar o conhecimento cristão adquirido na convivência com seus escravizadores para estabelecer analogias e superpor os santos católicos às divindades africanas, associando as características de ambos (SANTOS, 2015, p. 47).

Portanto, não há dúvidas que existe uma assimilação entre São Jorge e Ogum/Nkosi em razão das qualidades guerreiras e de proteção inerentes aos mesmos; Um não equivale ao outro e nem se substituem: eles se assemelham em razão das suas qualidades. Mas se a identificação de um como sendo o outro afeta e toca profundamente o ser humano, não é mais significativo deixar de lado a condição política e desvelar a condição humana?

Referências

BARROS, Elisabete Umbelino de.  Línguas e Linguagens nos Candomblés de Nação Angola. São Paulo: Universidade de São Paulo. 2007. Disponível em:https://teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8139/tde-27112009-102203/ptbr.php. Acesso em 10 abr 2021.

ENGEMANN, Carlos. De laços e nós. Rio de Janeiro: Apicuri, 2008.

KARASCH, Mary C. A vida dos escravos no Rio de Janeiro (1808-1850). São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

OXFORD. Dicionário Online de Português. Reino Unido, Oxford, 2021. Disponível em: https://languages.oup.com/google-dictionary-pt/ Acesso em: 10 abr 2021.

POSSIDÔNIO, Eduardo. Entre Ngangas e manipansos: A religiosidade centro-africana nas freguesias urbanas do Rio de Janeiro de fins do Oitocentos (1870-1900). Rio de Janeiro, 2015. Dissertação de mestrado. Disponível em: https://cultna.files.wordpress.com/2015/08/dissertac3a7c3a3o-possidonio.pdf. Acesso em 10 abr 2021.

SANCHIS, P. As religiões dos brasileiros. Horizonte – Revista de Estudos de Teologia e Ciências da Religião, v. 1, n. 2, p. 28-43, 1 ago. 1997.

SANTOS, Guaraci Maximiano dos. Umbanda, Reinado e Candomblé de Angola: uma tríade Bantu na promoção da vida responsável. Belo Horizonte, 2015. Dissertação de mestrado. Disponível em: http://periodicos.pucminas.br/index.php/horizonte/article/view/P.21755841.20153n39p1698.Acesso em 10 abr 2021.

SOUZA, Marina de Mello e. Reis negros no Brasil escravista: história da festa de coroação de Rei Congo. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2002.

THORNTON, John K. Religião e vida cerimonial no Congo e áreas Umbundo, de 1500 a 1700. In: HEYWOOD, Linda M. Diáspora negra no Brasil. São Paulo: Contexto, 2010.

VARAZZE, Jacopo de. Legenda Áurea: vida de santos. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

*Guaraci Maximiano dos Santos. Doutorando em Ciências da Religião pela PUC-Minas/FAPEMIG. Membro do grupo de pesquisa REPLUDI – Religião Pluralismo e Diálogo Inter-religioso (PPG-CR/PUC-Minas). Coordenador da Comissão de Psicologia, Laicidade, Espiritualidade, Religião e Outros Saberes Tradicionais da Conselho Regional de Psicologia (CLEROT) seção Minas Gerais. Glaydson de Oliveira Souza. Mestrando em Ciências da Religião pela PUC Minas. Bolsista CAPES. Membro da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Membro do Grupo de Pesquisa REDECLID ?" Religião, Educação, Ecologia, Libertação e Diálogo, da PUC Minas.



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