Religião

26/04/2021 | domtotal.com

Encíclica ecológica do papa vira música

Compositora converte sua experiência com a 'Laudato si' em apelo à ação através da música

Linda Chase, compositora e flautista, escreveu um oratório baseado na encíclica ambiental do Papa Francisco 'Laudato si', sobre o cuidado de nosso lar comum
Linda Chase, compositora e flautista, escreveu um oratório baseado na encíclica ambiental do Papa Francisco 'Laudato si', sobre o cuidado de nosso lar comum (Copyright Susan Wilson)

Barbara Fraser*
NCR

Quando Linda Chase leu pela primeira vez a encíclica ambiental do papa Francisco Laudato si', sobre o cuidado da Casa Comum", ficou impressionada com a frase: "Caminhemos cantando; que as nossas lutas e a nossa preocupação por este planeta não nos tirem a alegria da esperança" (nº 244).

Agora, a compositora e flautista, que mora em Arlington, Massachusetts, transformou essa frase em uma canção, expressando sua alegria e esperança em uma oração baseada nas palavras do pontífice.

"Estou interpretando a Laudato si' como uma chamada à ação por meio da música", disse Chase ao EarthBeat.

Do papel ao piano

O ímpeto inicial veio do teólogo Harvey Cox, cujas reflexões a inspiraram a escrever seu primeiro hino, The city is burning.

"Cox estava falando sobre a ação do Espírito e como o espírito de Deus é frequentemente retratado como uma coisa pacífica e quieta, mas quando o Espírito realmente nos sacode, precisamos fazer algo", disse. "Eu sinto essa ideia muito fortemente na minha vocação, lutar pela justiça na Terra e cuidar do nosso planeta".

"Fiquei maravilhada. Foi tão lindo", disse Chase, que leciona no Berklee College of Music e no New England Conservatory, em Boston.

A compositora lia o texto várias vezes e pensava constantemente como melhorar. Depois ia para o piano e gradualmente a peça surgia – seu trabalho musical mais ambicioso até agora.

"Sobre o cuidado de nossa casa comum: um cântico inspirado na Laudato si'" é cantado por 16 vozes acompanhadas por uma pequena orquestra de câmara. A obra – influenciada pela música clássica dos séculos 20 e 21, música antiga, gospel e jazz – consiste em 18 movimentos, incluindo 10 canções que podem ser cantadas por coros ou grupos comunitários.

A pandemia derrubou os planos de gravação, mas alguns colegas ajudaram com gravações a distância de três das canções – O Criador fala na língua das árvores, Oração por nossa casa comum e A alegria da esperança.

Chase está procurando uma editora agora e espera uma estreia no outono (do hemisfério norte) próximo, embora muito dependa da pandemia. A compositora prevê apresentações de cerca de 75 minutos seguidas de discussões com o público sobre as preocupações de suas comunidades.

Muitos artistas têm encontrado inspiração em Laudato si' desde que foi escrita. O compositor australiano-canadense Julian Darius Revie combinou a harmonia musical, com plantas e material reciclado em sua Capela viva, instalada no Jardim Botânico de Roma. E o festival Música da Criação será realizado no Dia Mundial da Biodiversidade, em 22 de maio, como parte da Semana Laudato si''.

A própria encíclica remonta a São Francisco de Assis, o santo padroeiro da ecologia, cujos cânticos de louvor à criação foram musicados.

Chase espera que sua oração inspirada na Laudato si' possa ser "um convite ao diálogo".

"Às vezes as pessoas querem fazer algo, mas não sabem o que fazer", disse, "e acredito que a música pode abrir o coração e convidar a um verdadeiro diálogo".

Música inspirada em um ano incomum, desde a primeira nota no papel até a apresentação, o hino foi moldado por um ano inusitado.

"De várias maneiras, os desafios deste ano enriqueceram minha capacidade de fazer música com aquilo que eu sinto profundamente", disse a compositora sobre os meses dominados pelo Covid-19 e os protestos contra o racismo sistêmico.

"Meus dois filhos estão na casa e foram aos protestos do Black Lives Matter em Boston. Eu estava trabalhando no movimento quando o papa diz: 'Não somos Deus'. Isso foi realmente poderoso", disse Chase ao EarthBeat.

"Ser uma artista é simplesmente pegar o que vemos e transformá-lo em arte", acrescentou. "O que eu vejo ou sinto, isso se torna som."

Embora a teoria e a técnica da música sejam essenciais, para um compositor, grande parte da arte reside em "apenas estar profundamente imerso na obra e ouvir para onde a música quer ir, e permitir que ela circule sem forçá-la a ir a lugar nenhum. E ter tempo para fazer isso. E voltar novamente e novamente e novamente e novamente até que esteja certo", disse a artista.

Com The city is burning e Laudato si', Chase refinou sua compreensão dos textos em conversas com Cox, um paroquiano da Old Cambridge Baptist Church em Cambridge, Massachusetts.

Às vezes, a discussão de uma única passagem da encíclica levava à adição de outro movimento inteiro. "Isso é o que acontece quando você trabalha com teólogos", disse.

Ao discutir Laudato si', "o tema que Harvey Cox me ajudou entender é que Deus é Deus da criação e da libertação", disse Chase, citando a passagem em Laudato si' em que Francisco escreve: "Na Bíblia, o Deus que liberta e salva é o mesmo que criou o universo, e estes dois modos de agir divino estão íntima e inseparavelmente ligados" (nº 73).

Chase fez o possível, musicou a versão em inglês do texto original, embora tenha mudado algumas palavras para ajustar a rima ou o ritmo.

Uma mochila com uma flauta

Embora a artista não se identifique com uma denominação religiosa em particular, "eu me identifico com o cristianismo baseado na justiça social e encontro isso em diferentes lugares, incluindo o catolicismo", apontou Chase.

Por um tempo, tocou flauta nas missas na All Hallows Catholic Church em La Jolla, Califórnia. Chase chama isso de "um momento realmente formativo para mim, porque sempre me senti atraída por um culto que não encontrava na igreja protestante, na qual fui criada".

O amor de Chase pela natureza foi nutrido por acampamentos de infância com sua família e pelo montanhismo e escalada que praticou quando era jovem. Mas quando chegou a hora de escolher entre um diploma em estudos ambientais ou música, "ficou muito claro – eu queria ir para a música. Mas sempre levei minha mochila e flauta e sempre senti essa conexão."

A música é um passeio no bosque e a oração converge para ela. "Se estou escrevendo música, tocando música, ouvindo música, há essa conexão com algo além, se sentimos que é Deus, ou uma sensação de eternidade, ou se é apenas algo que não podemos explicar."

Mas, embora passar um tempo sozinha em uma floresta ou à beira de um oceano seja uma fonte espiritual, nem a espiritualidade nem a música estão completas sem uma comunidade, disse. Para Chase, a espiritualidade encontra sua expressão na justiça social, enquanto a música deve ser tocada com outras pessoas ou para outras pessoas. E as duas estão interligadas.

"Deus está me pedindo, como fiel, para ser uma guardiã da Terra, então se isso faz parte de quem sou, também faz parte do que é minha música", disse. "E se faz parte de quem eu sou amar ouvir as notas, então isso fará parte do que a minha música é."

Compondo desde a criação

Sua exploração da justiça ambiental por meio da música a deixou cara a cara com a grandeza da história humana no planeta. Ela estava fazendo residência no Japão em 2011, quando o reator nuclear em Fukushima derreteu após um terremoto e uma onda gigantesca. Durante uma residência subsequente no Grand Canyon, Chase explorou o legado da mineração de urânio em terras indígenas.

"O papa diz: 'Não somos Deus' e temos que ser responsáveis por este belo lugar que nos foi dado", disse Chase. "E aquele acidente enorme e terrível [em Fukushima] foi culpa dos humanos. Não foi por causa do terremoto; foi porque Fukushima foi construída sobre uma falha terrestre".

A experiência aprofundou seu compromisso em fazer músicas que lembrassem as pessoas da relação que os humanos têm com o mundo natural – "Este é o ar que respiramos, esta é a comida que comemos e a água que bebemos, e precisamos cuidar disso."

Ela desenvolveu esses temas por meio de seus estudos de doutorado no Prescott College, no Arizona, onde se formou em educação sustentável com ênfase em ecomusicologia. Esse campo, disse a compositora, explora as interconexões entre música, cultura e natureza e "então dá um passo adiante para considerar as interseções de sons não humanos".

Chase faz parte de um grupo de músicos que se autodenominam compositores de música paisagística, cujo trabalho é inspirado em determinados lugares ou espécies.

"Talvez seja uma inspiração sobre a sensação de ouvir um rouxinol, ou talvez seja uma ideia sobre o som do rouxinol", disse. Um improvisador, talvez um músico de clarinete, pode imitar o canto do pássaro em uma tentativa de comunicação entre as espécies.

Isso também leva à reflexão sobre como os sons produzidos pelo homem afetam outras espécies, "por exemplo, pássaros que saem de lugares por causa da poluição sonora ou baleias que não conseguem encontrar espaços de ar limpo. Devemos ouvir a Terra".

Esse é um exercício que faz com seus alunos, levando-os para a floresta para se sintonizarem com os sons do mundo natural. Também é algo que ela mesma faz. Chase se lembra de ter parado perto de um lago em um dia ventoso de inverno, vários anos atrás, onde pedaços quebrados de gelo quicando em ondas na costa estavam batendo e se misturando com um som como sinos de vento.

Essas experiências, diz a artista, "aprofundam minha capacidade de amar o planeta e a criação de Deus, e minha gratidão por estar viva, meu agradecimento por cada momento, minha admiração pela beleza".

Publicado originalmente em NCR


Tradução: Ramón Lara

*Barbara Fraser é editora de clima do NCR. O endereço de e-mail dela é bfraser@ncronline.org. Siga-a no Twitter em @Barbara_Fraser.



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