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26/04/2021 | domtotal.com

Elizabeth, a última imperatriz


Elizabeth II, rainha do Reino Unido, da Austrália, do Canadá e de mais treze países, completou 95 anos de vida no passado 21 de Abril, tendo assim o mais longo reinado da história do império que já não o é, mas que só o irá saber, com o seu falecimento.

A Rainha Elizabeth II toma seu assento para o funeral do Príncipe Philip da Grã-Bretanha, Duque de Edimburgo, na Capela de St George no Castelo de Windsor em Windsor, a oeste de Londres, em 17 de abril de 2021
A Rainha Elizabeth II toma seu assento para o funeral do Príncipe Philip da Grã-Bretanha, Duque de Edimburgo, na Capela de St George no Castelo de Windsor em Windsor, a oeste de Londres, em 17 de abril de 2021 (Jonathan Brady/AFP)

José Couto Nogueira*

Até à data, a rainha Vitória, que reinou 63 anos (de 1838 a 1901) durante o auge do Império Britânico, onde o "sol nunca se punha", era o símbolo máximo do modelo imperial europeu. Elizabeth, completamente diferente, bateu o recorde: já é monarca desde 1953, ou seja, há 68 anos. Mas as diferenças não são só de personalidade; ou longevidade. Vitória presidiu à ascensão e hegemonia do império, enquanto Elizabeth reinou durante a sua decadência e dissolução. No entanto, ambas assumiram muito bem o seu papel, o que foi certamente mais difícil para Elizabeth, que assistiu a mudanças abissais na ordem mundial e na vida privada da família real.

Não deixa de ser interessante que Elizabeth Alexandra Maria não estivesse destinada a ser rainha; quando nasceu, em 1929, era terceira na linha de sucessão. O monarca reinante era seu avô, George V, e o seu legítimo sucessor o futuro Edward VIII, seu tio. Mas Edward governou por pouco tempo, abdicando do trono para se casar com uma americana divorciada, Wallis Simpson, uma coisa nunca vista. Assim, o pai de Elizabeth e irmão mais novo de Eduardo tornou-se o rei George VI, passando automaticamente Elizabeth a herdeira do trono. Em 1937 conheceu o príncipe Philip, de ascendência dinamarquesa e grega que, entretanto, se nacionalizou inglês por ter participado na 2ª Guerra Mundial como oficial da marinha britânica. Em 1947 ficaram noivos, o que causou um certo desconforto na casa real, uma vez que ele não era nascido inglês e tinha parentes nazistas. Por mais estranho que hoje isso nos possa parecer, a Grã Bretanha desses tempos era ultraconservadora, cheia de pruridos nacionalistas e morais, e não se refizera ainda do "escândalo Simpson" (Edward e Wallis eram tidos como simpatizantes de Hitler; diz-se que, se a Inglaterra fosse invadida, seria ele o escolhido pelo ditador nazista como rei-fantoche. Pelo sim, pelo não, Churchill mandou o casal para as Bahamas durante a 2ª Guerra Mundial).

Assim, antes do casamento, Philip renunciou aos seus títulos gregos e dinamarqueses, converteu-se à Igreja Anglicana e passou a chamar-se comandante Philip Mountbatten, o sobrenome inglês da mãe. Com o casamento, em novembro de 1947, ganhou o título de duque de Edimburgo e o tratamento de Alteza Real. É curioso notar que os primos alemães de Philip bem como o ex-rei Edward VIII, não foram convidados para a cerimônia.

Os reis ingleses, como sabemos, não têm qualquer poder, desde que Charles I se desentendeu com o parlamento e foi decapitado, em 1649. O seu filho, Charles II (casado com a princesa portuguesa Catarina de Bragança), subiu ao trono em 1660 com a condição de reinar e não governar (Deve ser daí que vem a expressão portuguesa "deves estar a reinar".) Mas o rei, ou rainha, representa institucionalmente o país, com um papel cerimonial importante. Para os ingleses, representa o poder, que na prática reside no parlamento e, por extensão, no primeiro ministro. Quando o rei faz o chamado Discurso da Coroa, definindo a política inglesa, usa a expressão "o nosso governo decidiu que...". O governo responde perante o parlamento e apenas comunica ao rei o que foi decido, sem que este possa sequer emitir opinião pública. Basta dizer, a título de exemplo, que não se conhece nenhum comentário de Elizabeth II sobre o Brexit; nem contra, nem a favor, nem antes pelo contrário.

Mas então, o pai de Elizabeth, que era um fumante inveterado – e gago, como todos ficamos a saber no filme O discurso do rei, com Colin Firth – morreu prematuramente em 1952, estavam Elizabeth e Philip em viagem oficial ao Quênia. Regressaram imediatamente e ela foi coroada em junho de 1953. Segundo a tradição, a casa real deveria ter o nome do marido, Mountbatten, mas ela decidiu manter Windsor, um sobrenome escolhido em 1917 (Anteriormente o sobrenome era alemão, Hanover, o que não combinava bem com os sentimentos anti-germânicos da 1ª Guerra Mundial). Esta decisão levou Philip a dizer, com o seu habitual humor inconveniente, "Sou o único homem na Grã-Bretanha que não pode dar o seu sobrenome aos filhos". Se soubesse com antecedência, provavelmente não lamentaria tanto, uma vez que os filhos do casal, Charles, Anne, Andrew e Edward, só viriam a dar aflições ...

Durante o seu longo reinado, Elizabeth tem assistido a mudanças universais, nacionais e familiares que deixariam qualquer pessoa desatinada. O mundo mudou muito nestes sessenta e tal anos, desde os discursos na rádio, às redes sociais, do "é proibido proibir", ao "politicamente correto". O Império Britânico, com o seu orgulho altaneiro, converteu-se num país europeu médio com problemas econômicos e sociais insanáveis – para não falar num falastrão como primeiro-ministro e grandes probabilidades de se fragmentar em quatro (Escócia, País de Gales, Irlanda e Inglaterra). E a família, os "royals", como são chamados pelos súbditos, passou por uma série de escândalos sentimentais, sexuais e sociais, turbinados sem dó por uma imprensa tabloide feroz que não existe em nenhum outro país, nem nos mais desmoralizados.

Quanto a Philip, que acaba de morrer, toda a gente o considerava um amor de pessoa, um pouco inconveniente nos seus comentários com o proletariado, mas, em geral, cumpridor do seu papel de consorte, literalmente. As más línguas e os tais tabloides sempre baixos, falam de várias amantes, como Sacha Hanilton, duquesa de Kirkwood e Penny Knatchbull, amiga da rainha, até à famosa escritora Daphne du Maurier, cujo marido trabalhava para os royals. Nada se provou e está tudo esquecido. O senhor conseguiu passar por esta vida com todo o conforto e a melhor reputação, sempre muito chique e institucional.

A questão presente é a de saber como sobreviverá Elizabeth à ausência do companheiro de décadas, que certamente lhe deu apoio nas alturas mais difíceis, como quando o filho e a nora tiveram um divórcio público e pecaminoso, ou as obrigações oficiais a obrigaram a ser visitada por Ceausescu ou a visitar Salazar. Elizabeth sempre soube ser discreta e dizer as frases certas para cada ocasião. Certamente ajudada por uma entidade muito eficiente, o Kensigton Palace, que se encarrega de todas as questões protocolares e sociais. Centenas de pessoas lá trabalham, desde os relações públicas aos gestores dos vários palácios com dezenas de salas e pessoal. Mas tem a marca dela, uma maneira de ser, materializada nas toilettes únicas – as cores gritantes servem para ser vista à distância – a malinha pendurada no braço cheia de simbolismo ou ainda o olhar firme, um pouco vago (Sobre o que conterá a malinha, há discussões intermináveis...).

Elizabeth sabe receber igualmente bem americanos como Obama, Jacklyn Kennedy – num ambiente de tensão – o impertinente Trump, régulos totalitários dos países da Commonwealth, e comunistas como Bulganin e Khrushchev. Tem um savoir faire notável, considerando o seu poder nulo e posição proeminente.

Quando Elizabeth falecer, acaba a inglesice clássica, aquela que os outros países sempre respeitaram e odiaram, simulatneamente. Charles, um poseur que usa três assistentes para escolher a roupa que usa diariamente, não tem essa postura. A monarquia não acaba, porque os ingleses não teriam onde usar o seu sentido de humor mais ácido, mas perderá o último toque imperial.

O que se vai, definitivamente, é o conceito da monarquia como um anacronismo aceitável e até divertido.

*O jornalista José Couto Nogueira, nascido em Lisboa, tem longa carreira feita dos dois lados do Atlântico. No Brasil foi chefe de redação da Vogue, redator da Status, colunista da Playboy e diretor da Around/AZ. Em Nova York foi correspondente do Estado de São Paulo e da Bizz. Tem três romances publicados em Portugal

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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