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27/04/2021 | domtotal.com

Ainda o Oscar

Uma cerimônia que não soube estar à altura do momento histórico

Frances McDormand e Chloe Zhao receberam o Oscar de Melhor Filme por 'Nomadland', que também lhes rendeu o prêmio de Melhor Atriz em Papel Principal e Direção respectivamente.
Frances McDormand e Chloe Zhao receberam o Oscar de Melhor Filme por 'Nomadland', que também lhes rendeu o prêmio de Melhor Atriz em Papel Principal e Direção respectivamente. (AFP/Chris Pizzello)

Alexis Parrot*

Uma das máximas favoritas de todo cinéfilo e chavão mais conhecido do circuito de premiações do cinema estabelece a tradição mais respeitada pelo Oscar: poder quebrar sua própria tradição. Porém, quando isso acontece de maneira gratuita, como visto na noite do último domingo, com a ordem trocada do anúncio de categorias, o espectador em nada se surpreende, fica apenas com cara de tacho.

Nada justifica terminar o show com qualquer prêmio que não seja o de melhor filme. Do contrário, institui-se um anticlímax – sai de cena a tradição e ganha o palco a decepção.  

Obedecer às regras de distanciamento social e ainda assim oferecer um espetáculo no mínimo aprazível tem sido um desafio para organizadores desta espécie de evento. Emmy, Globo de Ouro e Grammy foram experiências recentes que erraram e acertaram no afã de se comunicar com o público, emocionar e manter o suspense que o ritual exige. E foi justo o Oscar, o mais badalado entre todos os prêmios das inúmeras academias de artes estabelecidas nos EUA, o que apenas errou.   

Steven Soderbergh, diretor responsável pelo conceito e execução da cerimônia deste ano, prometeu que assistiríamos a um filme. Mas o que vimos foi algo diverso, longe da diversão e flertando com o deprimente. O cenário montado na Central Station de Los Angeles, de tão duro e artificial, afastava qualquer possibilidade de emoção.

Sentaram os concorrentes ao redor de tristes mesas vazias cuja função só se justificava ao servir de aparador para as estatuetas recebidas pelos vitoriosos – apenas evidenciando ainda mais o vácuo existencial que atinge aqueles sagrados com a derrota em solenidades do tipo.

As entrevistinhas do lado de fora da estação, com um repórter de costas gritando perguntas desnecessárias a alguns dos agraciados era de deixar no chinelo muito telejornal de emissora afiliada de cidade pequena.

As entradas ao vivo de vencedores em diferentes praças ao redor do mundo, além de não animar a torcida não ajudaram em nada a tirar o amargor inato de qualquer celebração realizada em meio à tragédia que vivemos.

Pior do que Sacha Baron Cohen em frente a um fundo falso da Baía de Sidney, só mesmo aquela fileira de poltronas vermelhas em Londres, ocupadas por alguns poucos gatos pingados. Os organizadores da autoproclamada maior festa do cinema não se deram conta da tristeza da cena. Poucas coisas conseguem ser mais melancólicas do que um cinema vazio.

A programação visual de letreiros e legendas identificando os nominados era de tamanho mau gosto que lembrava um rótulo de perfume barato ou o estilo Romero Britto de assassinar as artes plásticas. Acompanhavam as cafonas cortinas de veludo azul com prendedores de corda dourada e pingentes de franja – mas aí, nada de novo; a cafonice sempre foi uma das tradições da cerimônia do Oscar.

A transmissão brasileira do evento pelo canal a cabo TNT também não ajudou. Ancorada por dois tradutores tentando se passar por comentaristas e fazendo merchandising de cerveja entre um discurso de agradecimento e outro, foi deplorável e inconveniente. A favor da dupla, é importante dizer que tratam-se apenas de inocentes úteis, no máximo cúmplices; a fatura do vexame deve ser cobrada da direção do canal.  

No ano em que mais atores e atrizes não brancos concorreram à estatueta (nove entre vinte concorrentes) e uma mulher chinesa abocanhou a láurea de direção, o que deveria ter sido um importante manifesto político pela diversidade, acabou arrefecido pela tepidez sentimentaloide de uma cerimônia que não soube estar à altura do momento histórico.  

Bem fez Anthony Hopkins que foi dormir e só soube que ganhou na categoria de melhor ator no dia seguinte, sem ter que passar pelo suplício de assistir àquilo tudo – este, o seu verdadeiro prêmio.

Ficções da vida real

Recebi com gosto a consagração de Nomadland como melhor filme do Oscar 2021. A fábula de desencanto estrelada pela corajosa Frances McDormand é o novo Vinhas da ira. Ao denunciar a falência do sonho americano e do próprio capitalismo com tamanha força e poesia, torna impossível para qualquer um com um mínimo de dignidade continuar a olhar para o mundo da mesma maneira.

A beleza de sua construção como filme está na mescla entre ficção e documentário, esticando o tempo todo as possibilidades de interação entre os dois sistemas, confundindo aos nossos olhos os limites de um e outro. Mais ou menos da mesma maneira como vamos construindo cotidianamente o que chamamos de "vida real" e até mesmo a imagem que cada um faz de si próprio, autoficções de nós mesmos que somos.

Curioso é perceber que, se o Oscar enxerga excelência em um filme de ficção que abraça o documentário, o contrário não é reconhecido da mesma forma. O interessantíssimo filme chileno Agente duplo é o extremo oposto de Nomadland, um doc que se engraça para o lado da ficção.

Concorrente ao prêmio de documentário, perdeu para o sentimental filme do polvo – mais uma cartilha de autoajuda do que qualquer outra coisa. Fez par com o vencedor de curta da categoria, Collete, uma revisitação do holocausto.

Ainda hoje visto como gênero menor pelo senso comum, os membros da Academia do Oscar ajudam a disseminar esta balela: para eles, documentário só pode ser inspiração (no mau sentido) ou expiação.

Frase da semana

Do papa Francisco, em discurso na Cúpula do Clima, sobre como devemos nos comportar face à  mudança climática, um desafio a ser enfrentado no momento pós-pandemia:

"Cuidar da natureza para que a natureza cuide da gente".

*Alexis Parrot é crítico de TV, roteirista e jornalista. Escreve às terças-feiras para o DOM TOTAL.

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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