Religião

27/04/2021 | domtotal.com

Futuro bispo do Sudão do Sul é baleado nas pernas em ataque à sua residência

Trabalho com etnia rival à predominante de sua diocese teria motivado violência como forma de ameaça

Padre Christian Carlassare no hospital
Padre Christian Carlassare no hospital (Avvenire/Reprodução)

O bispo-eleito de Rumbek, Sudão do Sul, padre Christian Carlassare, foi ferido a tiro, na madrugada desta segunda-feira (entre 25 e 26 de abril), por dois homens armados que o atacaram com três balas nas duas pernas e fugiram.

Carlassare é missionário Comboniano e foi nomeado bispo de Rumbek a 8 de março e sua sagração episcopal está marcada para 23 de maio, domingo de Pentecostes, conforme anuncia o site dos missionários Combonianos.

O padre Andrea Osman, do clero de Rumbek, disse à fundação Ajuda à Igreja que Sofre África (AIS-África) que dois homens armados atacaram o bispo-eleito "com três balas nas duas pernas e fugiram", mas "não se conhece o motivo do ataque".

Segundo a agência de notícias Fides, ele também teria sido espancado. Embora as possíveis razões para o ataque ainda seja desconhecidas, as investigações excluíram a possibilidade de um roubo que deu errado, pois nada foi levado. Até o momento 24 pessoas foram detidas como suspeitas.

A área de Rumbek foi dilacerada durante anos por conflitos tribais que podem ser a origem do ataque aos religiosos. Os primeiros relatos apontam que "o ataque foi aparentemente planejado" com o intuito de o assustar "para não ser consagrado bispo". O presidente do Sudão do Sul, Salva Kiir, pediu às autoridades locais uma investigação rápida do ataque que levou à captura dos criminosos que feriram o padre Christian. "As autoridades não permitirão que a ação de alguns criminosos condicione os planos da Igreja", disse Salva Kiir.

Os primeiros a ajudarem o sacerdote foram os agentes de saúde da organização Médicos pela África Cuamm, uma ONG católica italiana. "O complexo da Cuamm fica perto da casa do padre Christian Carlassare e os voluntários ouviram os tiros e correram, imediatamente, encontrando o dom Christian ferido nas pernas por alguns tiros e ajudaram-no e levaram-no ao hospital da cidade no Sudão do Sul", diz o órgão de comunicação social Avvenire.

Em seguida Carlassare foi transferido de avião para Juba e depois a Nairóbi, no Quênia, onde recebeu transfusão de sangue. O padre Louis Okot, superior provincial dos Combonianos no Sudão, disse que o bispo eleito "está fora de perigo".

Carlassare tem 43 anos, trabalha no Sudão do Sul desde 2005, dedicando-se "à evangelização do povo nuer, inimigo declarado da etnia dinka, maioritária em Rumbek", onde chegou à 16 de abril depois de ser nomeado pelo papa em 8 de março deste ano.

Consciente e ainda covalescente, o missionário telefonou diretamente à família para os informar e ao responsável dos Combonianos na Itália. "Eu perdôo quem atirou em mim", foram as primeiras palavras de Carlassare, que convidou à oração: "Reze não tanto por mim, mas pelo povo de Rumbek que sofre mais do que eu".

O papa ora por Christian Carlassare, disse o diretor da Sala de Imprensa do Vaticano, Matteo Bruni, que relatou a preocupação de Francisco com o missionário comboniano que se tornou-se, aos 43 anos, o "mais jovem bispo italiano no mundo da jovem diocese de Rumbek".

 Pe. Christian Carlassare com a sua comunidade em Rumbek  Pe. Christian Carlassare com a sua comunidade em Rumbek

Sudão do Sul

Kinga Schierstaedt, responsável pelos projetos da Fundação AIS para este país africano, explica que o Sudão do Sul é um país "cada vez mais vulnerável" ao fim de anos de conflito armado.

Sinal disso, explica esta responsável, nos pedidos que a Igreja local faz chegar aos escritórios centrais da AIS é referido que as populações "sofrem de insegurança alimentar e epidemias, não só o coronavírus mas também de cólera".

O Sudão do Sul, explica Schierstaedt, "enfrenta desafios intransponíveis atribuídos a conflitos civis, catástrofes naturais recorrentes, como inundações e colapso económico". "Presentemente vive-se a estação das chuvas, as inundações e [as pragas de] gafanhotos pioraram ainda mais as condições de vida de milhões de sul-sudaneses", acrescenta.

Os motivos do ataque ao missionário italiano ainda estão a ser investigados, mas a animosidade entre os nuer e os dinka – as duas principais etnias – que tem estado na base dos conflitos neste país, pode ser uma das possíveis razões para o ataque. Na região de Rumbek predomina o povo dinka mas o novo bispo desta diocese tem estado envolvido desde há alguns anos, essencialmente em projetos de evangelização ligados à etnia rival.

No entanto, como recorda Kinga Schierstaedt, a Igreja tem desempenhado um papel importante na coesão do tecido social do Sudão do Sul. "Apesar dos desafios, a Igreja tem sido proativa em estabelecer pontes entre grupos étnicos, promovendo o desenvolvimento socioeconómico e prestando assistência humanitária à população que sofre".

A nomeação do missionário italiano, diz ainda a responsável de projetos da Fundação AIS, "trouxe muita esperança à diocese". "Os sacerdotes, religiosos e leigos de Rumbek têm muitos sonhos e planos. Temos de os apoiar [agora] mais do que nunca para não se sentirem sozinhos".


Dom Total/AIS/Ecclesia/Religión Digital/Vatican News



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