Religião

30/04/2021 | domtotal.com

Amigo evangélico do papa revela o que está por trás do 'ecumenismo bergogliano'

Pastor e biblista argentino Marcelo Figueroa elenca as bases da proposta ecumênica de Francisco e como ambos têm trabalhado, juntos, pela unidade dos cristãos

Papa Francisco e Pastor Marcelo Figueroa em encontro na Casa Santa Marta, no Vaticano.
Papa Francisco e Pastor Marcelo Figueroa em encontro na Casa Santa Marta, no Vaticano. (Diário Versión Final)

Mirticeli Medeiros*

O pastor presbiteriano Marcelo Figueroa é amigo do papa Francisco de longa data. Tudo começou há cerca de 20 anos, quando o então arcebispo de Buenos Aires, Jorge Mario Bergoglio, topou o desafio de promover e atuar em prol do ecumenismo na sua arquidiocese. Tudo se deu através de conversas sobre a Bíblia, encontros e momentos de oração, nos quais membros de várias confissões cristãs focaram naquilo que os une, não no que os separa. Figueroa, que é um biblista renomado na Argentina, e participou ativamente dessas iniciativas em vista do diálogo, atualmente é responsável pela edição argentina do L’Osservatore Romano, o jornal oficioso da Santa Sé. É difícil imaginar, fora do governo de Francisco, que uma das edições do periódico mais importante do catolicismo uma dia pudesse estar nas mãos de um pastor protestante. A nomeação pontifícia, que delegou Figueroa para o cargo, aconteceu em 2017. A intenção era produzir um jornal feito na Argentina e para a Argentina, evitando que, de alguma forma, as palavras do santo padre fossem distorcidas em sua terra natal. E nada melhor que confiar essa missão a um amigo de confiança do papa, com o qual Francisco mantém contato constante. E é ele, nesta entrevista especial, quem responde para nós, com conhecimento de causa, como é o ecumenismo de Francisco, como ele se dá na América Latina e quais os desafios para se estabelecer um diálogo concreto e frutuoso entre os cristãos.

Dom Total: Todos sabemos que o senhor é um amigo pessoal do papa há muitos anos. Como o senhor define o ecumenismo Francisco a partir da sua experiência fraterna com ele?

Pastor Marcelo Figueroa: Acredito que o ecumenismo pelo olhar do papa Bergoglio é, antes de tudo, uma realidade espiritual, baseada na oração sacerdotal de Jesus (João - 17,21). De modo que o ecumenismo entre os cristãos não seja visto como uma atividade meritória das confissões, mas a aceitação humilde de uma verdade cósmica. Seu foco na força ecumênica do Concílio Vaticano II e sua trajetória pessoal têm sido as duas vias pelas quais ele tem caminhado e convidado todos a percorrer juntos o caminho da unidade na diversidade. Embora os acordos doutrinais e os encontros teológicos fecundos sejam considerados fundamentais, na visão de Francisco, a experiência a partir das bases da comunhão ecumênica é vista como a estrada desta peregrinação. Algumas vezes, ele brincou sobre a atividade dos teólogos do ecumenismo, afirmando que embora devamos deixá-los discutir essas questões numa ilha, nós, da superfície, devemos continuar caminhando. Neste sentido, ainda que possua uma formação teológica, filosófica e intelectual, Bergoglio é um pragmático. Nos tempos de Buenos Aires e, no meu caso, quando eu era diretor da Sociedade Bíblica Argentina, ele promoveu a Bíblia como livro ecumênico por excelência, uma ponte de união e caminho. Também em Buenos Aires,  as grandes reuniões de oração entre católicos carismáticos e evangélicos pentecostais, que costumavam durar dias inteiros, foram decisivas. Aquilo abriu um horizonte novo e revolucionário dentro do mundo evangélico. Até aquele momento, o ecumenismo protestante não era bem visto pelos evangélicos tradicionais, que o limitava somente aos grupos das igrejas reformadas e para fins políticos. Gostaria de enfatizar que o “ecumenismo dos direitos humanos” foi fundamental durante o processo de criação da Comissão Permanente de Direitos Humanos, que exerceu grande influência na busca por justiça em face do genocídio da ditadura militar dos anos 70. A partir de então, foi possível construir um “ecumenismo da bíblia” e, em seguida, um “ecumenismo da oração”. Bergoglio teve esta visão importantíssima e inesperada, que abriu horizontes enormes que permanecem até hoje, não somente na Argentina, mas no mundo. Por fim, no programa de televisão do qual participei com ele e com o rabino Abraham Skorka, ele defendia que o diálogo acontecesse em torno de nossas três visões sobre a Bíblia, como um ponto fundamental de união, desta vez a partir de uma dimensão inter-religiosa. O programa se chamava "Bíblia: diálogo vigente".

Dom total: O senhor disse uma vez, em um artigo publicado pela revista jesuíta La Civiltà Cattolica, que o magistério atual contrapõe o "ecumenismo do ódio", que consiste na união entre o fundamentalismo evangélico e o integralismo católico. O próprio Brasil tem sido palco desse fenômeno. Sendo assim, essa "união nociva", na sua visão, é o maior desafio hoje para os cristãos que trabalham em prol da unidade?

Pastor Marcelo Figueroa: A problemática levantada há quase quatro anos, juntamente com o Padre Antonio Spadaro s.j., sobre "Fundamentalismo evangélico e fundamentalismo católico: um ecumenismo diferente", foi fruto de uma série de diálogos compartilhados pessoalmente e, posteriormente, por mensagens trocadas entre os dois. A intensificação dos fundamentalismos religiosos - e, no nosso caso, entre os cristãos -, nos era apresentado como algo preocupante e víamos a necessidade de tratá-los como hipótese de trabalho e de reflexão. Nunca imaginaríamos que a reflexão se tornaria dramaticamente tão profética! Nesse fenômeno há pelo menos dois oxímoros que, à primeira vista, traduzem o contrário do ecumenismo impulsionado por Francisco. Em primeiro lugar, os fundamentalismos desprezam o diálogo, temem as diferenças e se fecham em si mesmos diante de visões divergentes. Costumamos dizer que um fundamentalista é alguém que antepõe o acessório frente ao principal e concentra o olhar sobre uma única coisa e só quer falar daquilo. Os fundamentalismos, à diferença das visões espirituais de fé que constroem pontes, preferem fechar-se em si mesmos, entre os muros de suas próprias “verdades”. Ao considerarem-se “donos da verdade” e não “devedores de uma Verdade superior”, eles produzem visões reducionistas que, lamentavelmente, costumam se transformar em prato cheio para visões políticas autoritárias. Este fenômeno se reproduziu em quase todo o continente americano, de norte a sul. Além disso, contemporaneamente entre grupos católicos e evangélicos. E agora entramos no segundo oxímoro. Ambos os setores cristãos eram, até então, opositores ferrenhos do ecumenismo, tido como heresia ou traição de seus inalteráveis dogmas cristãos. No entanto, eles se uniram em torno de questões como dominianismo, ecologia, união entre pessoas do mesmo sexo, visões neocapitalistas em guerra contra supostos ataques neocomunistas, etc. Da mesma forma, o ecumenismo e o diálogo inter-religioso, impulsionados por Francisco, representavam, para muitos desses grupos, uma ameaça de avanço em direção a um novo universalismo religioso, uma ordem mundial herética e um socialismo populista e pobrista. Este ecumenismo é ideologicamente circunstancial e, portanto, distante de qualquer olhar espiritual, espacial ou escatológico. Alguns o denominam “matrimônio por conveniência”, mas que a política via como fator fundamental para o restabelecimento de regimes políticos exclusivos, xenófobos e neo-capitalistas. É clara aqui a diferença em relação à visão de expansão, espiritualidade e abertura que foi descrita anteriormente. Eles não representam em si uma ameaça a nós que trabalhamos na unidade baseada no amor de Cristo e na inclusão. É justamente o contrário. De qualquer maneira, essas explosões de ecumenismo de ódio tendem a confundir e prejudicar os cristãos sensíveis que buscam olhares transcendentes e esperançosos diante de um mundo injusto e desigual.

Dom total: Francisco disse, em várias ocasiões, que devemos trabalhar na perspectiva de uma "diversidade reconciliada". Esse é o segredo para se alcançar a tão sonhada unidade, pastor?

Pastor Marcelo Figueroa: Creio que o conceito de Bergoglio, agora Francisco, sobre “diversidade reconciliada” é muito profundo. Sem querer repetir o que foi aprofundado nos pontos anteriores, acho que vale a pena analisar cada palavra separadamente antes de formarmos a frase. O conceito de "diversidade" é fundamental para a compreensão do ecumenismo. Manter a identidade eclesial, sustentar com humildade nossas verdades doutrinais, aprofundar e descobrir novas espiritualidades particulares são fundamentais para o encontro com outras confissões. E só quem o faz está em condições de realizar um ecumenismo fecundo e enriquecedor. A uniformidade, o engano do “todos somos a mesma coisa” e o relativismo religioso são contrários ao verdadeiro ecumenismo. O ecumenismo concreto se constrói na diversidade, ao passo que, se o “liquidificarmos” em uma falsa tentativa de reaproximação, produziremos um falso ecumenismo insípido e infrutífero. Por outro lado, o conceito de “reconciliada” tem muito a ver com a dimensão espiritual e cósmica detalhada no início [da entrevista]. Se reconcilia, respeitando e tratando as diferenças como valores, e ao mesmo tempo trabalhando e aprofundando os elementos em comum. Esses princípios cristãos em comum são precisamente os que nos constroem enquanto comunidade e nos reconciliam com nós mesmos e nossas raízes cristãs. Não sei se é uma receita, mas é um conceito sobre o qual devemos continuar trabalhando e aprofundando. A partir disso conseguiremos, em nosso kairós terrestre, não provavelmente a comunhão nem a união plena sacramental e muito menos estrutural ou religiosa, mas caminhos de unidade. A unidade e a reconciliação final são a esperança de um futuro do reino de Deus escatológico.

Dom Total: O papa fala do "ecumenismo do pobre", quando os cristãos se unem para ajudar quem mais precisa. Depois, ele fala do "ecumenismo da missão", quando os seguidores de Cristo assumem, juntos, a tarefa de anunciar Jesus Cristo. Esse é o 'manual' que Francisco nos propõe. O senhor não acha que a pandemia, com todas as suas dificuldades, não seria uma oportunidade para colocar em prática essa 'receita'? O senhor já vê alguns cristãos caminhando nessa direção?

Pastor Marcelo Figueroa: Acredito que o ecumenismo de Francisco tem vários nomes. Porém, antes de elencá-los, é necessário recordar seu olhar poliédrico: “O modelo é o poliedro, que reflete a confluência de todas as partes que nele mantêm a sua originalidade (Evangelii Gaudium, 236)”. Já falamos do ecumenismo da bíblia e do ecumenismo da oração. Podemos agregar a isso o “ecumenismo da diplomacia superadora”, tomando como base seu encontro com as igrejas ortodoxas e mais precisamente o seu encontro com o Patriarca Kirill, em Cuba. O “ecumenismo da ecologia integral”, citando mais uma vez a comunidade ortodoxa, se manifesta na referência inicial sobre a contribuição do patriarca ecumênico de Constantinopla, Bartolomeu I, na Laudato Si. Temos o “ecumenismo dos imigrantes e refugiados”, basta lermos com atenção o acordo entre a Comunidade Santo Egídio e a Igreja Evangélica Valdense, que cria os corredores humanitários [para a acolhida de refugiados]. O ecumenismo da caridade, fruto do documento de Lund (Suécia), firmado pela Igreja Luterana e pela Caritas. O “ecumenismo de sangue”, citado com frequência por Francisco, dando ênfase ao fato de que o assassinato de cristãos em alguns países não distingue denominações - e continuamos fechados inutilmente nelas. Poderíamos continuar dando nome e lados a este poliedro ecumênico encabeçado por Francisco. Em relação ao “ecumenismo dos pobres”, creio que devemos considerar duas dimensões. Em primeiro lugar, a luz teológica do olhar teológico de Bergoglio, que é enraizado na teologia popular de Guardini e Ferre. Aqui, o elemento povo é uma chave hermenêutica não somente a partir da sua leitura dos Evangelhos, mas de sua vivência ecumênica com outras confissões cristãs. O outro conceito, o de “ecumenismo missionário”, dialoga com o anterior. É importante direcionar o olhar missionário interconfessional no âmbito de uma igreja que não compete por ovelhas e que anuncia que sua missão evangelizadora se dá por atração e não por proselitismo. Claro, eu acredito que nestes tempos de pandemia, desesperança e vulnerabilidade, essas visões da missão ecumênica para com os vulneráveis são fundamentais. Vejo com esperança, que muitos de nós que temos colaborado nessa direção, somos agora impelidos a aprofundar isso, e que outros têm se aproximado com entusiasmo e verdadeiro espírito misericordioso, deixando de lado os acessórios, enquanto obstáculos, para focar no principal.

*Mirticeli Medeiros é jornalista e mestre em História da Igreja pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma. Desde 2009, cobre o Vaticano para meios de comunicação no Brasil e na Itália e é colunista do Dom Total, onde publica às sextas-feiras

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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