Religião

30/04/2021 | domtotal.com

Papa diz querer promover sinodalidade, não um parlamento católico

Francisco pede cuidado para não se cair 'na ilusão do funcionalismo'

17ª Assembleia Nacional da Ação Católica teria acontecido em 2020, mas precisou ser prorrogada por um ano devido à emergência sanitária da Covid-19
17ª Assembleia Nacional da Ação Católica teria acontecido em 2020, mas precisou ser prorrogada por um ano devido à emergência sanitária da Covid-19 (Ação Católica)

O pontífice recebeu em audiência nesta sexta-feira (30), no Vaticano, os membros do Conselho Nacional da Ação Católica Italiana (ACR). O discurso do papa aprofundou o nome da própria associação de leigos exortando para um contínuo trabalho de gratuidade, humildade e proximidade às pessoas, sobretudo durante a pandemia. Ao enaltecer a importância da experiência sinodal na Itália, Francisco alertou sobre armadilhas que seduzem as associações, como o funcionalismo e a tentação de se fazer um "parlamento católico" – que não é sinodalidade.

O papa Francisco, através de um telegrama, já havia feito a sua saudação a delegados e assistentes regionais e diocesanos da Ação Católica Italiana (ACR) em virtude da 17ª Assembleia Nacional que começou no último domingo (25), em modalidade on-line, e depois de ser prorrogada por um ano devido à emergência sanitária da Covid-19. Nesta sexta-feira (30), o pontífice recebeu na Sala Clementina, no Vaticano, um grupo de cerca de 80 pessoas do Conselho Nacional e da presidência da associação de leigos.

O discurso do pontífice aprofundou as palavras que compõem o próprio nome da ACR: ação, católica e italiana, em particular, no período atual marcado pela pandemia.

"Ação" do Senhor e com o Espírito, sem armadilhas

Ao começar a reflexão sobre "ação", o papa propõe repensar o que significa essa palavra, mas, sobretudo, por quem é realizada a ação. O Evangelho assegura, explica ele, que "o agir pertence ao Senhor", o que não significa nos livrar da responsabilidade, "mas nos traz de volta à nossa identidade como discípulos-missionários". Além disso, recorda Francisco, não se deve "nunca perder de vista o fato de que é o Espírito a fonte da missão: a sua presença é causa – e não efeito – da missão", e ter muito cuidado para não cair "na ilusão do funcionalismo": porque programas e organogramas são úteis, mas o que faz avançar o Reino de Deus é Espírito:

"É triste ver quantas organizações caíram na armadilha dos organogramas: tudo perfeito, todas as instituições perfeitas, todo o dinheiro necessário, tudo perfeito... Mas me diga: a fé, onde está? O Espírito, onde está? 'Não, estamos procurando ele juntos, sim, de acordo com o organograma que estamos fazendo'. Tenham cuidado com o funcionalismo. Cuidado para não cair na escravidão dos organogramas, das coisas perfeitas, bem ... O Evangelho é desordem porque o Espírito, quando chega, faz tanto barulho que a ação dos apóstolos parece a ação de bêbados. Assim diziam: 'são bêbados!' A docilidade ao Espírito é revolucionária, porque Jesus Cristo é revolucionário, porque a encarnação é revolucionária, porque a ressurreição é revolucionária. A mensagem de vocês também deve ter essa característica revolucionária".

Dessa forma, os próprios percursos de formação da Ação Católica devem escutar e acolher o Evangelho, com uma forte ligação entre o que se escuta e o que se vive, principalmente, neste período de pandemia que impôs "a cada um de nós de enfrentar o inesperado". O papa aconselha "acolher o inesperado, em vez de ignorá-lo ou rejeitá-lo", com as características que devem permear o serviço da associação de leigos, como: a humildade e mansidão, através de uma "presença fiel, generosa e responsável"; mas, antes de tudo, com a gratuidade.

"O impulso missionário não se coloca na lógica da conquista, mas naquela da doação. A gratuidade, fruto maduro do dom de si, pede a vocês que se dediquem às suas comunidades locais, assumindo a responsabilidade do anúncio; pede que vocês escutem os seus territórios, sentindo as suas necessidades, entrelaçando relações fraternas. A história da Associação é feita de muitos 'santos da porta ao lado', muitos!, e é uma história que deve continuar: a santidade é uma herança a ser preservada e uma vocação a ser acolhida."

"Católica" como a proximidade

Ao abordar a palavra "católica" que qualifica a identidade da associação, o papa explica que "a missão da Igreja não tem limites". Assim como aconteceu com os discípulos, a tarefa da Ação Católica também deve ser de estar "com todos e para todos" (cf. Evangelii Gaudium, 273), acrescenta Francisco – e justamente porque vocês são uma associação de leigos, "uma riqueza para a catolicidade da Igreja".

Além disso, "a experiência associativa de vocês é 'católica' porque envolve crianças, jovens, adultos, idosos, estudantes, trabalhadores: uma experiência do povo", um "caráter popular" que não pode ser perdido e prejudicado pela indiferença e pela frieza, destaca o papa. De fato, em toda a Itália, eles são convidados a viver e testemunhar o Evangelho no dia a dia, "em família, no trabalho, na escola, no serviço eclesial, no empenho político, cultural e social", como lembrou o presidente nacional da Ação Católica, professor Matteo Truffelli, ao saudar Francisco na audiência.

"A palavra 'católica' pode, portanto, ser traduzida pela expressão 'estar próximo', porque é universal, 'estar próximo', mas de todos. O tempo da pandemia, que exigiu e continua exigindo que aceitemos formas de distanciamento, tornou ainda mais evidente o valor da proximidade fraterna: entre pessoas, entre as gerações, entre os territórios. Ser uma associação é precisamente uma forma de expressar esse desejo de viver e de acreditar juntos".

"Italiana": a experiência sinodal com a presença do Espírito

Francisco finaliza o discurso ao Conselho Nacional da Ação Católica refletindo sobre o termo 'italiana', uma oportunidade para "ajudar a comunidade eclesial da Itália a ser fermento de diálogo na sociedade", afinal, "uma Igreja do diálogo é uma Igreja sinodal" que precisa ser "encarnada", recorda o papa. E quando se fala em sinodalidade, não significa "fazer um parlamento" só para discutir problemas através acordos para soluções pastorais: "isso é um belo parlamento católico", mas não é sinodalidade, alerta o papa, porque falta a presença do Espírito para se tornar uma experiência sinodal: "a oração, o silêncio, o discernimento de tudo o que partilhamos".

"Nesse sentido, a Associação constitui um 'academia' de sinodalidade, e essa atitude de vocês tem sido e pode continuar a ser um recurso importante para a Igreja italiana, que se questiona sobre como amadurecer este estilo em todos os níveis. [...] Fazer sínodo não é se olhar para o espelho, nem mesmo para a diocese ou para a Conferência Episcopal, não, não é isso. É caminhar juntos com o Senhor e em direção ao povo, sob a orientação do Espírito Santo".


Vatican News



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