Cultura

03/05/2021 | domtotal.com

Aí veio a Covid

São vários os amigos que perdemos nos últimos tempos, todos nós, pelo mesmo mal

Manifestação em memória aos mais de 400 mil brasileiros mortos pela Covid-19, aconteceu em frente ao Congresso Nacional no dia 30/04, cobrando responsabilidade dos governantes frente ao combate da pandemia no Brasil.
Manifestação em memória aos mais de 400 mil brasileiros mortos pela Covid-19, aconteceu em frente ao Congresso Nacional no dia 30/04, cobrando responsabilidade dos governantes frente ao combate da pandemia no Brasil. (Roque de Sá/Agência Senado)

Afonso Barroso*

Sabia tudo de jardinagem e, especialmente, de flores. Plantava-as, cultivava-as o ano inteiro, cuidando delas com carinho de pai. Eu o conheci no sítio de um amigo, que o contratara para cuidar dos jardins, e que jardins! Com tantas flores, o sítio virara um jardim do Éden, um paraíso terrestre. Esse bom jardineiro sabia distinguir uma flor-de-maio de um manacá da serra, amava rosas e crisântemos, orquídeas, dálias, margaridas. Mostrava orgulhoso as buganvílias e as alamandas que subiam pelas paredes do muro em volta do sítio. Eu gostava de conversar com ele quando ia lá. Ele certa vez me perguntou, mas falando a si mesmo, o que seria do mundo se não fossem as flores. Pois eis que um dia veio a Covid-19 e o levou. Sem velório, sem flores.

Outro personagem por quem eu tinha grande apreço era o garçom do botequim que frequentávamos aos sábados de manhã, eu e o Badu, meu mais dileto amigo. Era feio esse garçom. Tão feio que lhe demos o nome de Feio mesmo. Vamos ao Feio? E íamos. Mas era um feioso extremamente simpático, engraçado, espirituoso ao ponto de apagar a própria feiura com suas tiradas inteligentes e bem-humoradas. Certa vez ele errou, e em vez de pasteis, nos trouxe quibes. Tentou de todas as formas, mas não conseguiu estabelecer uma semelhança entre quibe e pastel. Até que num sábado fatal nós chegamos ao botequim e ele não estava lá. Pois eis que um dia veio a Covid e o levou.

Meu barbeiro, que exigia ser chamado de cabeleireiro, era um baiano falante. Enquanto roçava-me os cabelos, a máquina ou a tesoura, contava casos do tempo em que roçava de verdade, a foice, os matos da roça onde nascera e crescera até aos 18 anos no sertão da Bahia. Veio para Belo Horizonte, fez o curso de cabeleireiro no Senac, ficou bom no ofício e trabalhou em diversas barbearias. Casou-se, teve filhos e netos. Na última vez que fui à barbearia não o encontrei. E nunca mais vou encontrá-lo. Pois eis que um dia veio a Covid e o levou.

Um chofer de táxi foi outro bom amigo que não esqueço. Era um mineiro acariocado, que trabalhara no Banco do Brasil, morou no Rio muitos anos, casou-se com uma mineira sua conterrânea do Triângulo Mineiro. Aposentado, veio para Belo Horizonte com a mulher e dois filhos. Aqui, tornou-se chofer de táxi para ocupar o tempo com alguma atividade. Fazia para mim preço de Uber, para não perder o freguês e os papos que batíamos ao longo das viagens curtas, mas cheias de histórias. Liguei um dia para contratar uma pequena corrida, e quem atendeu foi a mulher dele. Com a voz triste das viúvas, informou que ele não estava em casa e não mais estaria, pois eis que um dia veio a Covid e o levou.

São vários os amigos que perdemos nos últimos tempos, jardineiros, barbeiros, garçons, taxistas. Todos nós estamos vivendo essa realidade de um mal que chegou como castigo divino, à semelhança dos que a Bíblia nos conta. Terá Deus desistido da humanidade que criou com tanto esmero e que lhe dá tanto desgosto? Prefiro achar que não.  Mas que está feia a coisa, isso está. Melhor arrependermo-nos dos nossos pecados.

*Afonso Barroso é jornalista, redator publicitário e editor

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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