Religião

03/05/2021 | domtotal.com

Como renovar uma igreja sem iniciar uma guerra litúrgica pelo design

Tensões paroquiais e até políticas podem afetar o processo de reforma do templo

Segundo Viggo, o templo 'Deve ser um espaço edificante, elevado'
Segundo Viggo, o templo 'Deve ser um espaço edificante, elevado' (Lachlan Gowen/Unsplash)

Nicholas D. Sawicki*
America

Todos nós já ouvimos histórias de reformas. Você já ouviu aquelas compartilhadas em voz baixa sobre os carvões fumegantes de um turíbulo na sacristia antes da missa; também as escutou em sussurros em um café no salão paroquial. São histórias de reformas de altares neogóticos sendo destruídos e substituídos por uma laje modernista. Um tabernáculo sendo retirado do centro da igreja paroquial e relegado a uma capela secundária. Outras histórias são de órgãos, vitrais e confessionários levados para a lata de lixo da história em favor de plataformas de grupos folclóricos, arte abstrata e "espaços de reconciliação".

Claro, cada um desses cenários seria incompleto sem o desdém dos paroquianos envolvidos, que sentem que sua igreja paroquial, onde foram batizados, confirmados, casados e onde enterraram seus entes queridos, foi roubada deles.

Mas isso é verdade? Ou essas histórias são simplesmente reclamos de insatisfação da minoria na paróquia, que foi ouvida no processo de construção ou reforma, mas não ganhou a votação?

Para saber mais sobre o estado do design litúrgico e se realmente existem ou não "guerras de design" na Igreja Católica, a América Magazine falou com Viggo e Martin Rambusch. Viggo Rambusch liderou a Rambusch Decorating Co. por quase 30 anos, mas esteve diretamente envolvido no negócio da família (fundada por seu avô, Frode Rambusch, em 1898) desde o início, como aprendiz em 1947 e ainda prestando consultoria de vez em quando em projetos Rambusch. Martin Rambusch, junto com seu irmão gêmeo Edwin, é a quarta geração de Rambusches liderando a empresa. Martin é o presidente e dirige o departamento de artesanato; Edwin lidera o departamento de iluminação.

A empresa Rambusch é líder em design secular e litúrgico há quase 125 anos, com encomendas que incluem o Waldorf Astoria Hotel, o Empire State Building, o Roxy Theatre, camuflagem para bases americanas na Segunda Guerra Mundial e, mais recentemente, o mosaico da cúpula do Santuário Nacional da Imaculada Conceição, onde se celebrou a missa de canonização de São Junípero Serra, a sede das Nações Unidas e a reforma da tocha original da Estátua da Liberdade.

Além de seu trabalho nas artes, a família Rambusch tem um relacionamento de longa data com a America. Por quase um século, os editores receberam os Rambusches como apoiadores e amigos deste ministério. Mais notavelmente, John LaFarge, S.J., que serviu na equipe desta revista por 37 anos (e foi editor-chefe de 1944 a 1948), também foi capelão da Liga Católica Escandinava de Santo Ansgar de Nova York por 35 anos. A Liga de Santo Ansgar foi fundada e administrada durante um século pela família Rambusch, com o objetivo de apoiar a Igreja Católica na Escandinávia.

Além disso, após a morte do padre LaFarge em 1963, a família Rambusch foi contratada para criar um conjunto de janelas em homenagem à vida e obra de LaFarge. As janelas foram instaladas na America House na 56th Street em Manhattan em 1964 sob a supervisão de Viggo Rambusch, que também supervisionou sua reforma subsequente e a transferência para a nova sede da America Media na Sixth Avenue em 2017.

A vocação de um arquiteto litúrgico

"A vocação em si é desafiadora", disse Viggo Rambusch. Para Viggo, o papel do arquiteto litúrgico é o de conselheiro, ouvinte fervoroso e aquele que está focado em valorizar a liturgia enquanto equilibra as necessidades da comunidade.

"O arquiteto deve se submeter", disse Viggo. "Em um novo edifício, o arquiteto deve se submeter ou submeter seu projeto às necessidades primárias e ao papel da liturgia de ajustar o ambiente interno para atender a essas necessidades. O profissional deve ser empático e compreender as cerimônias litúrgicas."

Martin concordou: "O papel que nos pedem é fluido. Recentemente, em alguns casos, temos agido mais como um grupo de apoio emocional, refletindo também sobre velhos problemas antes de prosseguirmos com o novo projeto."

"Mas quando isso acontece, fica bem claro que há algo inflamado e você precisa chegar a um terreno bom e limpo", disse Martin. "Isso leva mais tempo do que o esperado, mas uma vez feito, é muito apreciado."

"Nos últimos 1.200 anos", continuou Viggo, "os estilos arquitetônicos mudaram, mas basicamente a essência de nossa liturgia não mudou. É uma oportunidade para boas celebrações eclesiásticas em todos os estilos. Gótico, românico, rococó, revival grego, etc. – todos eles poderiam oferecer uma boa oportunidade para a celebração litúrgica".

Marcas de um bom design

Existem elementos-chave que Viggo e Martin gostariam de ver incorporados em qualquer processo de design. Para Viggo, muito do que constitui um bom espaço litúrgico pode se resumir em uma palavra: nobre.

"Deve ser um espaço edificante, elevado", disse Viggo. "Materiais de boa qualidade, permanentes e que tenham nobreza. A planta baixa deve reconhecer as áreas congregacionais e de liderança e providenciar sua interação. A área de liderança, o santuário, deve ser erguida para que a congregação possa ver."

"Você também deve planejar o arranjo para procissões, para a pregação, para diferentes tamanhos de grupos e interações comunitárias. Detalhes como a iluminação, o piso e os acabamentos devem ser atendidos. A colocação e as linhas de visão devem ser enfatizados também", continuou Viggo.

Claro, existem casos em que a renovação de uma igreja pode levar a duras críticas.

"Todos nós já vimos edifícios neogóticos de pedra com um altar moderno em forma de cubo porque não queriam seguir o projeto original", observou Martin. "Oitenta por cento do tempo as pessoas dizem que querem seguir o vocabulário do edifício. Meu dever é estar o mais informado possível em relação às tendências, à arquitetura apropriada do edifício, devo me manter atualizado sobre a educação e ser uma pessoa informada para ajudar as pessoas que não estão normalmente prestando atenção a essas coisas, para que fiquem cientes do que está acontecendo."

"Se você vai colocar um contraste ou tensão no prédio", continuou Martin, "você está encaminhado para o resultado A, mas também pode acabar com o B. Ao passo que se você seguir o estilo de construção, você vai acabar com uma nota de letra sólida."

Renovação colaborativa

Apesar das histórias de terror, Viggo e Martin enfatizam a natureza colaborativa da renovação das paróquias. Viggo observa que o primeiro passo para construir um esforço colaborativo é reconhecer as diferenças entre as comunidades com as quais você está trabalhando. Os projetos têm de ser abordados "caso a caso, e a paróquia se exprime pela dimensão, pelo financiamento, pelas necessidades, pela localização. O prédio reflete essas características e a personalidade da comunidade", disse Viggo. "Uma comunidade mexicana em Guadalajara é uma congregação muito diferente de uma comunidade escocesa em Glasgow."

"Sentimos que a melhor maneira de chegar a esse lugar é facilitando a comunidade para criar uma meta verbal e visual, e então nosso desafio é ajudá-los a atingir essa meta", disse Martin. "Isso permite que as pessoas participem, para ninguém acabar dizendo que alguma coisa foi roubada. Em nossa opinião, é um processo participativo. Não é um projeto litúrgico ditatorial."

"Você deve se ajustar a essa situação particular", disse Viggo. "Você não pode simplesmente entrar e dizer: 'Isso é o que vamos fazer. Aqui está o que eu fiz antes, vou fazer de novo. 'Você tem que parar e ouvir o grupo, e então você pode ter sucesso".

"É uma coisa saudável, acredito, que as comunidades considerem renovar seu interior uma vez a cada geração. Acho que cada geração considera logicamente consertar, reacender, reavivar... Eu diria que é natural que cada comunidade se renove periodicamente. E, como a liturgia mudou, isso afeta enormemente o santuário", disse Viggo.

Tensão nas paróquias

Hoje, porém, tem havido uma tensão crescente em torno das mudanças nas comunidades paroquiais. "Infelizmente", disse Martin, "a paisagem litúrgica está em sincronia com a nossa paisagem política – há separação em ambas as extremidades do espectro. É preciso haver uma liderança clara e consistente e um diálogo honesto e legítimo".

"Ouvi falar de casos", acrescentou Viggo, "mas tive a sorte de não participar desses eventos. Eu nunca fiz parte de um projeto em uma comunidade fragmentada durante meu esforço. Eu fui abençoado".

Martin apresentou um cenário de exemplo de algo que tem visto cada vez mais nos últimos anos: um padre pediu a 15 pessoas para fazerem parte de um comitê para a renovação de uma paróquia. Tudo o que pediu foi que pudessem confirmar no final do processo: "Vocês foram informados do procedimento, foram incluídos no processo e sabiam do que estava acontecendo e, por isso, tenho seu apoio para o projeto". Depois de alguns meses, um dos membros do comitê diz que está insatisfeito e que não está sendo ouvido e, por isso, sai do comitê. O que realmente estava acontecendo era que estavam sendo vencidos na votação.

"Se as pessoas não aceitam a liderança, não há capacidade de liderar. Em vez de dizer: 'Perdi o voto, mas minha voz foi ouvida', as pessoas ficam dizendo: 'Não; vou jogar tudo fora', e isso confunde as pessoas quando você está tentando ser transparente", observou Martin.

Para Viggo e Martin, o desafio hoje, mesmo em uma época polarizada, é reenfatizar o básico: reverência e renovação.

"O desafio", disse Viggo, "é manter as cerimônias litúrgicas reverentes e significativas, e não permitir que suas ações se tornem corriqueiras, banais ou medíocres. O desafio é mantê-las elevadas".

"Acho que um dos maiores desafios", concluiu Martin, "é garantir que a liderança não perca a oportunidade não só de renovação física do edifício, mas também de renovação emocional e a possibilidade de refletir sobre onde estão indo como comunidade".

Apesar dos desafios culturais, a política paroquial ou os efeitos da polarização, vincular-se às comunidades de fé em um determinado lugar e tempo, escutar suas necessidades de atenção à própria liturgia e à própria comunidade, que participa dela, serão sempre as principais preocupações da arquitetura litúrgica hoje.

Publicado originalmente por America


Tradução: Ramón Lara

*Nick Sawicki é assistente especial do editor-chefe da America Media. Siga-o em: @NicholasSawick1



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