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02/01/2021 | domtotal.com

Tráfico de migrantes, um crime bilionário com pobres como mercadoria

Tráfico não parou nem mesmo com a política de tolerância zero de Trump

Um casal de migrantes haitianos cruza o rio Grande na tentativa de chegar aos Estados Unidos, perto de El Paso, em Ciudad Juárez, México, em 15 de abril de 2021
Um casal de migrantes haitianos cruza o rio Grande na tentativa de chegar aos Estados Unidos, perto de El Paso, em Ciudad Juárez, México, em 15 de abril de 2021 (AFP)

A atual enxurrada de imigrantes sem documentos chegando aos Estados Unidos através do México expõe não apenas um drama humanitário, mas também o tráfico de migrantes que movimenta bilhões de dólares e trata pessoas como mercadorias.

Todo ano, centenas de milhares de entradas ilegais são registradas ao longo dos 3.200 km de fronteira, de acordo com as Nações Unidas, que estimou em 6,6 bilhões de dólares os lucros anuais desses traficantes de seres humanos conhecidos como "coiotes" ou "polleros".

Assim como outras formas de crime organizado, esse costuma ser controlado por traficantes de drogas, embora o primeiro elo possa ser um vizinho dos migrantes, em sua maioria centro-americanos.

Atormentado pela pobreza, o hondurenho Juan Macías (nome alterado) pagou a uma dessas redes em março 7 mil dólares, que arrecadou com empréstimos de sua família.

"Eles trabalham por meio de organizações, são chamados de guias; e na fronteira estão os cartéis", explicou o homem de 35 anos em um abrigo em Ciudad Juárez, no México, para onde foi após ser expulso dos Estados Unidos.

Agora, endividado, ele espera algum benefício migratório do novo presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, ou tenta cruzar por seus próprios meios.

Macías conta que lidou com oito "polleros" durante a viagem da qual participaram cerca de trinta migrantes. "Você era identificado com um código quando chegava ao local: 'Sou fulano e esse é o código' (...) Não falam nada, só 'me segue'", relata.

Na tortuosa jornada, os migrantes "viram mercadoria", diz a ONU, a ponto de serem marcados com pulseiras com seus nomes e inscrições como "entregas" ou "chegadas".

Empresas criminosas

O tráfico não parou nem mesmo com a política de "tolerância zero" do ex-presidente Donald Trump, e passa por uma nova alta desde a chegada de Biden, que se ofereceu para regularizar 11 milhões de imigrantes indocumentados e interrompeu a separação de famílias.

Porém, o presidente norte-americano acaba de adiar seu plano de aumentar a cota de refugiados admitidos e manteve o limite historicamente baixo de Trump de 15 mil (3 mil para a América Latina) por enquanto, gerando críticas dos democratas.

As prisões de migrantes sem documentos nos EUA aumentaram 71% em março, chegando a mais de 172 mil, enquanto o número de menores desacompanhados dobrou para quase 19 mil. Essas pessoas chegaram após longas e perigosas viagens a pé, em containers de caminhões ou de trens.

O tráfico era originalmente controlado por mexicanos vinculados a um programa que lhes permitia trabalhar nos Estados Unidos entre 1942 e 1964.

Com o passar dos anos, foram substituídos por empresas criminosas capazes de corromper autoridades e que empregam desde "enganchadores", aqueles que ajudam a cruzar a fronteira entre o México e a Guatemala, até aqueles que carregam uma escada para atravessar a cerca para os Estados Unidos.

Em 2020, o México estava investigando várias redes. Embora a maioria seja centro-americana, há também migrantes cubanos, africanos, chineses e indianos, segundo a ONU.

E embora a segurança tenha sido reforçada, os contrabandistas estariam usando rotas diferentes das tradicionais.


AFP



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