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04/05/2021 | domtotal.com

'Maffia'

Política, às vezes, parece mesmo coisa do diabo

Com tudo isto meus amigos, acabo de crer uma coisa e o público holandês também: esses partidos não são sérios e só fazem campanhas com acusações ao candidato que eles consideram o mais forte e o possível vencedor das eleições
Com tudo isto meus amigos, acabo de crer uma coisa e o público holandês também: esses partidos não são sérios e só fazem campanhas com acusações ao candidato que eles consideram o mais forte e o possível vencedor das eleições (Monirul Bhuiyan/AFP)

Lev Chaim*

Foi este o título da coluna do jornalista Sylvian Ephimenco para o jornal holandês Trouw de sábado, dia 1º de maio. Sim, máfia em holandês escreve-se com dois f e o deixei como estava porque está bem compreensível. Foi uma descrição excelente do atual comportamento do parlamento holandês, quando ele disse "que a covardia e a hipocrisia se convergem numa histórica crise política, dentro desta casa parlamentar".

Mas, antes, temos que relembrar alguns fatos. Devido às irregularidades no imposto de renda, centenas de pessoas inocentes foram punidas por contas feitas de forma errada. Isto, muitas vezes, arrasou a vida de famílias inteiras. Agora, o assunto foi posto em discussão política após dois parlamentares, um do partido socialista e outro do partido democrata cristão, se unirem e investigarem o assunto e descobrirem que essas pessoas, na verdade, não haviam cometido fraudes. Foi um erro da burocracia da própria cultura interna do imposto de renda holandês.

Com essa culpa nas costas, após uma longa investigação parlamentar, o gabinete de coalizão de quatro partidos (VVD, D66, CDA e CU) pediu demissão e se transformou num gabinete temporário, para dar continuidade à política do dia a dia. Além disso, novas eleições parlamentares foram convocadas. 

Por incrível que pareça, toda a oposição, em peso, fez campanha apenas em cima das faltas do governo e principalmente contra o primeiro-ministro Mark Rutte. Nenhum partido de oposição se deu ao trabalho de apresentar soluções para a crise que derrubou o governo, mas ofereceram apenas críticas ao governo e aos seus membros. Resultado: os partidos da coalização venceram novamente as eleições com grande diferença, principalmente o primeiro-ministro, Mark Rutte. Resultado: essa antiga coalização vitoriosa deu início à formação do novo governo.

Em vez de tentar colaborar na formação de um novo governo, de fornecer ideias para reparar os danos que causaram a demissão do antigo governo, os parlamentares da extrema-direita (PVV e FvD) e os socialistas se juntaram numa aliança falsa, para derrubar esta tentativa de se formar um novo governo, e tentar de novo novas eleições. Um verdadeiro desrespeito aos eleitores holandeses que acabaram de voltar das urnas. O povo havia feito a sua escolha e eles, com culpas e acusações de todos os tipos, tentam denegrir os parlamentares que teriam que formar esse novo governo que, na verdade, seria praticamente o mesmo de antes da demissão coletiva.

O parlamentar Azarkan, do partido Denk, partiu para o ataque chamando a democracia holandesa de uma farsa, de uma monarquia banana, com traços de ditadura. Azarkan nasceu no Marrocos e está na Holanda há 42 anos, onde pode entrar sem problemas devido a lei de reunificação de famílias, como escreveu o colunista do Trouw, Ephimenco. Não contente ainda com tudo isto, ele colocou no site do seu partido fotos dos ministros, que tentam formar um novo governo de coalizão, acompanhadas da música do filme O poderoso chefão, como se o primeiro-ministro demitido pudesse ser comparado com o mafioso, Don Corleone.

Por outro lado, o líder do populista da extrema-direita, Geert Wilders, que detesta muçulmanos, estrangeiros, em combinação com o ex-marroquino do partido Denk, Azarkan, normalmente inimigos mortais no parlamento, inicia um festival de acusações contra o primeiro-ministro demitido, Mark Rutte, de usar práticas mafiosas e corruptas. E como lembrou o colunista Ephimenco, justamente esse Wilders, que vem de uma das cidades da Holanda e de uma província com o maior número de casos de corrupção. Essa diarreia de acusações, sem pé e sem cabeça, acabou por unir dois partidos inimigos no parlamento, apenas para pedir a demissão de Mark Rutte na formação do novo governo, sem o menor respeito para com os eleitores.

Com tudo isto meus amigos, acabo de crer uma coisa e o público holandês também: esses partidos não são sérios e só fazem campanhas com acusações ao candidato que eles consideram o mais forte e o possível vencedor das eleições, tal qual já havia ocorrido antes. Eles não apresentam programas e nem sugestões em como resolver os problemas da nação, mas ficam apenas nessa falsa convergência de interesses. Eu, como brasileiro, percebo claramente que esses parlamentares da oposição holandesa não têm a mínima ideia do que seja mesmo "máfia ou corrupção", tal qual aconteceu no Brasil, durante os governos anteriores ao do presidente Bolsonaro.

Os parlamentares repetem, muitas vezes, o que diz a mídia tradicional do Brasil sem se aprofundar no assunto. No caso da pandemia do corona, vejam vocês, eles disseram que foi o Bolsonaro que menosprezou a crise da pandemia e por isso, acabou causando um grande número de mortes no país. Mas eles não viram um vídeo, justamente antes do carnaval brasileiro, em que o presidente Bolsonaro queria emitir uma proibição geral, para a realização do carnaval no Brasil, justamente por causa da pandemia, que vinha assolando o mundo e era perigosa.

Não. O governo Dória de São Paulo, que já deveria ter pego muita grana para elaborar o carnaval, disse que este vírus causava apenas uma "gripezinha". E a Globo, que tinha a intenção de transmitir o carnaval sem qualquer tipo de concorrência, também veio com a mesma história da gripezinha e até divulgou o professor Dráuzio Varela falando a mesma coisa. Depois do carnaval, quando tudo foi para o brejo, eles negam que falaram isto e colocam a culpa de tudo em cima de Bolsonaro. E a corrupção no Brasil corre a bilhões e bilhões de reais, coisas que os políticos holandeses não têm ideia.

Por essas e por outras, é que fiquei bastante contente com a coluna deste último domingo do jornal holandês Trouw, do jornalista Sylvain Ephimenco, sobre a hipocrisia política da Holanda, unida à covardia, convergindo numa encruzilhada histórica do parlamento holandês, mostrando apenas interesses políticos e nada mais, sem a menor responsabilidade para com os eleitores que os elegeram. E são esses dois mesmos partidos que o tempo todo trocam insultos com adjetivos como: propagador do ódio, a quinta coluna (referindo-se ao exército de Hitler), racista, ditador, Denk é a filial do ditador turco na Holanda e por aí vai. 

Imaginem vocês, a união do Partido Denk e do partido populista da extrema-direita, PVV, tem apenas um objetivo: derrubar o primeiro-ministro Mark Rutte, do partido mais votado nessas últimas eleições parlamentares holandesas. Política, às vezes, parece mesmo coisa do diabo. Tal qual assistamos agora no Brasil, o corrupto e vigarista de anos, o Renan Calheiros, presidindo a CPI da pandemia, criada pelo corrupto do Supremo, apenas para derrubar o Bolsonaro do poder. Por tanto, caros leitores, a política é suja e temos que deletar essa sujeira em consideração aos cidadãos de bem.

*Lev Chaim é jornalista, colunista, publicista da FalaBrasil e trabalhou mais de 20 anos para a Radio Internacional da Holanda, país onde mora até hoje. Ele escreve todas as terças-feiras, para o Dom Total

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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