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04/05/2021 | domtotal.com

Afinal, o que é o Big Brother?

Boninho finalmente entendeu a essência do programa

Entre brigas e muitas risadas, Gil do Vigor foi destaque desta edição
Entre brigas e muitas risadas, Gil do Vigor foi destaque desta edição Foto (Reprodução TV Globo)
Juliette é a candidata favorita ao R$1,5 milhão
Juliette é a candidata favorita ao R$1,5 milhão Foto (Reprodução TV Globo)

Alexis Parrot*

Hoje à noite, Juliette será coroada como grande vencedora do Big Brother, após cem episódios e mais de três meses de confinamento na autoproclamada "casa mais vigiada do Brasil".

Ironicamente, confinados todos estamos (ou deveríamos estar) - em função do coronavírus. A espera pela vacina e o respeito às medidas sanitárias e de distanciamento têm sido a maior prova de resistência pela qual já passamos. Ao final desta temporada não nos aguarda um prêmio em dinheiro, mas a esperança de que possamos sobreviver.

Prometida como o "Big dos bigs", a vigésima primeira edição do programa marcou sua maioridade com alguns trunfos, principalmente às custas de um dos melhores elencos já reunidos em sua história. A presença maciça de negros e negras entre os concorrentes trouxe uma representatividade sempre cobrada e até então não atendida pela Globo, que sempre reservou um segundo plano condescendente para a diversidade em sua programação.

E, além de tudo, houve Gil do Vigor. Sua injustíssima eliminação na reta final não será suficiente para apagar de nossa memória o carisma e a verdade de um brother que se negou a virar personagem ou estereótipo.

No extremo oposto do ringue, sinto informar que nem com dez temporadas de docusséries Karol Conká conseguirá reverter o tombo que tomou - por sua própria obra e graça, há que se dizer.

Se havia dúvidas sobre a longevidade do reality, estas estão completamente dissipadas. Para 2022, podemos contar com mais certeza que haverá BBB do que carnaval ou procissões na Semana Santa. Mas afinal, qual é o apelo do programa? O que sustenta sua audiência? E por que voltamos a assisti-lo com tanta força?

Para entender melhor o fenômeno, a pergunta que se deve fazer talvez não seja "o que é o BBB", mas "sobre o que é o BBB".

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De experimento sociológico iniciado na TV holandesa, o formato ganhou o mundo para se tornar uma outra coisa, muito além do que podia imaginar a produtora Endemol Shine, sua criadora. Brincando com o voyeurismo do público, o programa foi pioneiro para o bem e para o mal, tanto pela experimentação da linguagem televisiva quanto pela criação instantânea de subcelebridades.

A versão brasileira, teve um inicio inesquecível em 2002, com a primeira prova de resistência.

Se você pensou em algo como as superproduções que foram vistas este ano, com cenários gigantescos destacando a marca de um patrocinador, esqueça. Os 12 concorrentes deveriam simplesmente se amontoar dentro de um carro e quem conseguisse permanecer ali por mais tempo faturava a liderança e o automóvel.

Após um zoom out da câmera, ficamos assistindo àquela imagem fixa dos participantes dentro do carro, com o áudio ligado, por longos minutos que pareceram séculos - para só então a marca da Endemol e da Globo ganharem a tela, encerrando a transmissão da noite.

Da mesma forma, também marcaram época as entradas na madrugada, durante a programação, mostrando os participantes apenas dormindo. Os tempos mortos finalmente entravam no ar, subvertendo toda a lógica professada pela TV, principalmente após os frenéticos anos 1980 e 1990. Infelizmente, este tipo de rasgo de invenção deixou de ser o foco da direção do programa há bastante tempo.

Após sucessivas (e não raro frustradas) tentativas de revitalização de um formato desgastado ao longo dos anos, finalmente Boninho e sua equipe de Boniminions e dummies parecem ter acertado a mão. A nova abordagem que, desde o último ano, trouxe para o programa influenciadores sociais e artistas misturados aos ilustres desconhecidos de praxe, foi uma cartada certeira para recuperar o engajamento da audiência.

Ao contrário de Roberto Justus, que viu naufragar iniciativa semelhante na última temporada do seu Aprendiz, o rebento de Boni entendeu finalmente qual era a essência do programa sob sua responsabilidade: a busca pela fama.

Seríamos todos nós suscetíveis ao desejo de alguma forma de estrelato e por isso nos identificamos com os brothers e sisters enclausurados no Projac?

Se na origem não era isso, não importa mais, porque se tornou na prática um trampolim efetivo para um certo tipo de reconhecimento popular, antecipando em mais de uma década o que as redes sociais trouxeram. Hoje, um meio se alimenta do outro em recíproco exercício parasitário. Quem sai do BBB ganha seguidores, assim como quem possui seguidores agora tem chance de entrar.

Não são as estalecas que vão medir a fama ou a popularidade. No mundo pós-BBB, o que comanda é o merchan e a monetização. A maior parte dos que entram sabe que não tem a menor chance de ganhar o milhão e meio, mas isso é o de menos. Outras portas podem ser abertas e outras fontes de renda estão ali para serem conquistadas.

A carreira artística nem é o que mais desejam essas almas que se dispõem a se jogar na roleta do Big Brother. Nesta área, pouquíssimos tiveram êxito e as grandes exceções são Grazi Massafera e Sabrina Sato. Iris Stefanelli poderia se juntar ao cordão, se considerarmos uma posição no TV Fama da Rede TV! como conquista. No mesmo naipe inclui-se Diego Alemão e até Rafa Kalimann, titular de um programa recém estreado sem pé nem cabeça, sustentado por risadas enlatadas e sorrisos amarelos.

Enquanto a grande maioria vai se virando mesmo é com os cachês de presença VIP em festas e eventos, o problema surge quando passam a engrossar as fileiras de instagramers, youtubers e tiktokeiros. Dão opiniões sobre tudo, distribuem conselhos sobre o que não entendem e vendem produtos que não usariam.

Flavia Viana caiu em uma dessas armadilhas ao aceitar a encomenda (paga) do Ministério da Saúde. Defendeu o tal "tratamento precoce" contra a Covid difundido por Bolsonaro em um dia, para no outro gravar um vídeo chorando e pedindo desculpas pela irresponsabilidade.

Ou Thelma, a médica vencedora da edição de 2020, quando publicou imagens no Insta em uma ilha da Costa Verde fluminense, aglomerada com as amigas famosas comemorando o réveillon como quem dá uma banana para a Covid.

O destino do típico ex-BBB parece ser mesmo o Insta, uma mídia superficial o suficiente para abraçar as subcelebridades de plantão. Tanto lá quanto no programa, seria bom não esquecer Gil do Vigor e levar seu exemplo como regra de ouro: mais tchaqui-tchaqui e menos cachorrada, por favor.

*Alexis Parrot é crítico de TV, roteirista e jornalista. Escreve às terças-feiras para o Dom Total

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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