Coronavírus

06/05/2021 | domtotal.com

Superlotação em hospitais nas Américas expõe desigualdades dos países pobres

Na semana passada, 40% das mortes por Covid-19 no mundo ocorreram na região, onde mais países do que nunca registram balanços superiores aos mil casos diários

A América Latina e o Caribe somam mais de 934 mil dos mortos e quase 30 milhões de contágios
A América Latina e o Caribe somam mais de 934 mil dos mortos e quase 30 milhões de contágios (Sílvio Ávila/AFP)

Os hospitais das Américas estão enchendo "perigosamente" de doentes, alertou nesta quarta-feira (5) a Organização Pan-americana da Saúde (Opas) sobre a pandemia de Covid, que continua expondo a desigualdade entre países no acesso às vacinas, cujas patentes os Estados Unidos defenderam liberar.

"Os hospitais da região estão perigosamente cheios", advertiu Carissa Etienne, diretora da Opas, escritório regional da Organização Mundial da Saúde (OMS), durante coletiva virtual.

Na semana passada, 40% das mortes por Covid-19 no mundo ocorreram na região, onde mais países do que nunca registram balanços superiores aos mil casos diários, segundo Etienne.

A diretora da Opas destacou que a região fez um trabalho notável para expandir a capacidade hospitalar no ano passado e que países como Colômbia, Panamá e República Dominicana dobraram a capacidade de leitos em unidades de terapia intensiva. Outros países como Chile e Peru triplicaram esse tipo de cota, enquanto México e Honduras conseguiram quase quadruplicar essa capacidade.

A Opas realizou um estudo em 16 países e estabeleceu que, em março de 2020, havia um total de 61.406 leitos em unidades de terapia intensiva, com uma ocupação média de 61% nessas alas hospitalares. Já em abril deste ano, o total havia aumentado para 121 mil, com 80% dessas novas vagas ocupadas.

"Isso é uma média, alguns países tiveram uma taxa de ocupação de mais de 95% nessas unidades", alertou Etienne, que lamentou que apesar do que foi aprendido com o vírus em 2020, "os esforços de controle não são tão rígidos e a prevenção não é tão eficiente".

A médica à frente da Opas explicou que esses leitos exigem funcionários especializados e os pacientes dessas unidades precisam de atendimento 24 horas por dia. "Isso pode não ser sustentável ao longo do tempo", ressaltou, referindo-se ao cansaço acumulado do pessoal da saúde.

E embora durante grande parte da pandemia a maioria dos pacientes hospitalizados fosse de pessoas idosas com doenças pré-existentes, Etienne advertiu que as hospitalizações e as mortes de adultos jovens estão aumentando à medida que a pandemia de Covid-19 acelera na região.

A América Latina e o Caribe somam mais de 934 mil dos mortos e quase 30 milhões de contágios, segundo dados da AFP.

EUA apoia liberação de patentes

O abismo se aprofunda entre os países ricos, onde as campanhas de vacinação permitem uma suspensão progressiva das restrições, e os mais pobres.

Diante dessa situação, o governo americano anunciou nessa quarta seu apoio a uma suspensão global das proteções das patentes para as vacinas contra a Covid-19 a fim de acelerar a produção e a distribuição no mundo.

Embora os direitos de propriedade intelectual sejam importantes para as empresas, Washington "apoia a isenção destas proteções para as vacinas contra a Covid-19", disse a representante comercial dos Estados Unidos, Katherine Tai, em um comunicado.

"Trata-se de uma crise sanitária mundial e as circunstâncias extraordinárias da pandemia da Covid-19 exigem medidas extraordinárias", acrescentou. A funcionária disse que Washington participa "ativamente" das negociações realizadas na Organização Mundial do Comércio (OMC) para conseguir esta isenção.

"Cumprimento os Estados Unidos por esta decisão histórica", tuitou o diretor da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, que pediu para avançar "todos juntos rapidamente, em solidariedade, para aproveitar o engenho e o compromisso dos cientistas que produziram as vacinas contra a Covid-19, que salvam vidas".

Acesso desigual

Em um sinal da desigualdade no acesso às vacinas, o Canadá aprovou nessa quarta o uso do imunizante da Pfizer-BioNTech a partir dos 12 anos, tornando-se o primeiro país a autorizá-la para pessoas tão jovens, e os Estados Unidos se dispõem a seguir este caminho na próxima semana.

Mais de 1,2 bilhão de doses foram aplicadas em todo o mundo, mas menos de 1% foi injetada nos países menos desenvolvidos.

Depois que a OMS pediu solidariedade ao G7, os membros deste grupo (Estados Unidos, Japão, Canadá, Alemanha, França, Reino Unido e Itália) abordaram durante uma reunião em Londres a distribuição das vacinas.

Em seu comunicado, o G7 permitiu apoiar economicamente o programa de distribuição Covax "para permitir um abastecimento rápido e justo" das vacinas, embora não tenham anunciado ajuda adicional aos países pobres.

Segunda onda na Índia

A Índia é um dos países que pedem a suspensão temporária das patentes das vacinas à frente de outros, como a França, que defendem fazer doações aos países mais desfavorecidos.

O gigante asiático registrou 3.780 mortos e 382 mil casos de Covid-19 em 24 horas, em plena segunda onda da pandemia. O coronavírus matou mais de 22 mil pessoas no país e deixou cerca de 20,3 milhões de doentes, um balanço que muitos consideram abaixo da realidade.

Esta situação é atribuída em particular às reuniões religiosas, como a enorme peregrinação hindu Kumbh Mela, que atraiu milhões de pessoas, e os comícios políticos autorizados nos últimos meses, assim como a inação do governo de Narendra Modi.

Os hospitais estão lotados e faltam abastecimento de oxigênio, medicamentos e leitos, apesar da afluência de ajuda internacional.

A Índia anunciou nessa quarta-feira US$ 6,7 bilhões em créditos para financiar os fabricantes de vacinas, os hospitais e as empresas do setor sanitário.

O Paquistão acompanha com preocupação o que acontece no país vizinho. Milhares de muçulmanos participaram ontem de uma procissão religiosa em Lahore, desrespeitando as medidas de distanciamento social.

A pandemia matou mais de 3,2 milhões de pessoas em todo o mundo desde que o escritório chinês da OMS informou sobre o surto de Covid-19 em dezembro de 2019, segundo contagem da AFP, realizado com base em dados oficiais.


AFP/Dom Total



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