Religião

06/05/2021 | domtotal.com

Sinodalidade e primado papal: questões sobre a Igreja Católica hoje e o próximo papa

Perspectiva sinodal é o maior contributo do papado de Francisco

Papa Francisco conduz audiência geral na biblioteca do Palácio Apostólico no Vaticano em 28 de abril
Papa Francisco conduz audiência geral na biblioteca do Palácio Apostólico no Vaticano em 28 de abril (CNS / Vaticano Media)

Massimo Faggioli*
NCR

"Há um caminho curto que é longo e um caminho longo que é curto".

Na terceira temporada da série "Shtisel" da Netflix, um eminente rabino ultraortodoxo que dirige uma yeshiva em Jerusalém oferece aquele conselho sábio a um estudante reconhecido que está lidando com uma decisão de vida ou morte.

Os caminhos curtos tendem a se tornar atalhos que levam a lugar nenhum, enquanto a sabedoria sugere que você reserve um tempo para tomar uma decisão.

"Um longo caminho que é curto" é de fato uma boa maneira de explicar a virtude da sinodalidade, a maior aposta que o papa Francisco fez pela Igreja Católica hoje.

Cinco anos e meio depois de ter entregado o que pode ser chamado de sua carta magna sobre a sinodalidade no Sínodo dos Bispos de 2015, o impulso persistente do papa em favor de uma Igreja sinodal está tendo efeitos.

Em diferentes áreas do mundo católico, eventos eclesiais de natureza sinodal estão acontecendo ou sendo preparados.

Um movimento sinodal que requer tempo e presença

Temos o histórico Conselho Plenário da Austrália, que realizará sua primeira reunião em outubro. E também o "caminho sinodal" já em andamento na Alemanha.

Atualmente, estão sendo feitos os preparativos para um sínodo nacional na Irlanda e, depois de muita insistência do papa, a Igreja na Itália está finalmente começando os planos para seu próprio sínodo.

Os editores da revista America, administrada pelos jesuítas, acabam de defender o conselho plenário da Igreja Católica nos Estados Unidos.

Em outro nível, os bispos latino-americanos lançaram sua própria assembleia eclesial, a primeira Assembleia Eclesial da América Latina e do Caribe.

Este movimento sinodal está se desenrolando em um momento de grande incerteza devido à pandemia do coronavírus. A sinodalidade, que significa que o povo da Igreja "caminha junto", exige que se reúnam em assembleias.

Algumas dessas assembleias (por exemplo, na Alemanha e na Austrália) foram adiadas ou diferidas, e é provável que aconteça novamente em outros lugares.

E é possível que a próxima assembleia ordinária do Sínodo dos Bispos, prevista para outubro de 2022 e baseada no tema: "Por uma Igreja sinodal: comunhão, participação e missão", também acabe sendo adiada.

Não é certo se os participantes de países pobres, onde o ritmo de vacinação é muito mais lento, poderão se reunir localmente para a fase de preparação ou que seus representantes possam viajar a Roma.

As dimensões teológicas e institucionais da sinodalidade

Pandemia à parte, adiar a assembleia sobre a sinodalidade pode ser uma coisa boa. Isso significaria mais tempo para sua preparação.

Até agora, a maior parte da discussão em torno da sinodalidade se concentrou em seus aspectos pastorais.

Mas um dossiê de dois artigos publicado pelos teólogos Serena Noceti, Rafael Luciani e Hervé Legrand na última edição da revista italiana Il Regno, aponta que há dimensões teológicas e institucionais da sinodalidade que precisam de atenção.

Um aspecto particular que terá de ser abordado é o papel do primado papal na sinodalidade, tanto no nível universal quanto no nível nacional e local.

Esta é uma questão fundamental que terá consequências práticas importantes.

Em um de seus primeiros e mais importantes discursos sobre o modelo de liderança episcopal, em setembro de 2013, Francisco falou sobre a figura do bispo nestes termos:

"Presença pastoral significa caminhar com o Povo de Deus: caminhar à frente, indicando o rumo, apontando a vereda; caminhar no meio, para o fortalecer na unidade; caminhar atrás, tanto para que ninguém permaneça atrás como, sobretudo, para seguir a intuição que o Povo de Deus tem para encontrar novas sendas. O Bispo que vive no meio dos seus fiéis mantém os ouvidos abertos para escutar 'o que o Espírito diz às Igrejas' (Ap 2, 7) e a 'voz das ovelhas', também através daqueles organismos diocesanos que têm a tarefa de aconselhar o bispo, promovendo um diálogo leal e construtivo".

Qual é o papel da liderança episcopal no caminho sinodal junto com o povo de Deus? Andando na frente deles, andando no meio deles ou andando atrás deles?

Discernimento, não um voto no parlamento

O que vimos da assembleia do Sínodo dos Bispos para a Região Amazônica (outubro de 2019) e suas consequências (a exortação apostólica Querida Amazônia de fevereiro de 2020) é que o papa parece compreender seu papel como árbitro da presença ou ausência de discernimento genuíno em um evento sinodal.

Assim o expressou em nota publicada em setembro de 2020 ao editor de La Civiltà Cattolica, Antonio Spadaro, SJ:

"Houve uma discussão [no Sínodo de 2019]... uma discussão rica, uma discussão bem fundada, mas sem discernimento, que não é mais do que chegar a um consenso bom e justificado ou a maiorias relativas. Devemos entender que o sínodo é mais do que um parlamento; e neste caso específico o sínodo não poderia escapar desta dinâmica. Sobre esta questão, o sínodo de 2019 foi um encontro rico, produtivo e até necessário. Mas não mais que isso. Para mim isso foi decisivo no discernimento final, quando pensei em como escrever a exortação Querida Amazônia".

Esta forma de avaliar a sinodalidade é mais típica do superior de uma comunidade religiosa que empreendeu um processo de discernimento do que a de um bispo.

Mas a Igreja Católica não é a Companhia de Jesus. O discernimento funciona, se é que funciona, em grupos espirituais muito rarefeitos. A maioria dos bispos não tem experiência ou treinamento nisso.

O mesmo pode ser dito sobre o povo de Deus, que deveria estar envolvido na sinodalidade.

Foi especialmente a partir do final dos anos 1990, também graças à encíclica Ut unum sint (1995) de João Paulo II, que começamos a falar sobre um novo papel para o papado na eclesiologia ecumênica articulada no Concílio Vaticano II (1962-65).

Um paradigma para o primado papal alterado

Em um longo artigo publicado em 2000 na revista Cristianesimo nella Storia, Peter Hünermann, professor emérito de teologia da Universidade de Tübingen, formulou o conceito do papado como um "notarius publicus".

A função constitutiva do primado, neste sentido, seria a tarefa de facilitar e manter a unidade da fé católica e da comunhão eclesial.

O ensaio de Hünermann foi um comentário sobre o motu proprio Ad tuendam fidem de João Paulo II (1998). O teólogo alemão ofereceu uma perspectiva histórica sobre o desenvolvimento do primado papal, tentando compreender as profundas mudanças na função do primado para a Igreja na modernidade.

O teólogo observou que o paradigma do Vaticano 1º do primado papal – a partir de uma perspectiva jurídica rígida – foi superado, não apenas pela perspectiva ecumênica do catolicismo, mas também pela autocompreensão do papado como "ação comunicativa".

Especialmente depois do Vaticano II, o primado papal não é realmente (ou não mais) sobre a definição da fé. Pelo contrário, trata-se de testemunhar e confirmar a fé do povo, expressa no consenso de seus representantes e à luz da Escritura e da Tradição.

Hünermann escreveu o artigo bem antes de o papado abraçar a sinodalidade, mas ainda é relevante para o debate atual.

É claro que as abordagens da questão do papel do primado dependem do tipo de sinodalidade que temos em mente.

Renovação ou mudança?

A sinodalidade é uma forma de renovar o estilo pastoral da Igreja no sistema institucional e teológico existente? Ou é um momento para abordar questões, como o papel da mulher na Igreja e no ministério, e abrir a Igreja à possibilidade de desenvolvimentos institucionais e teológicos?

Esta é uma questão essencial que terá de ser esclarecida em algum momento, mais cedo ou mais tarde.

O primado surgiu nos últimos anos como uma questão ecumênica, especialmente quando se olha para o papel que desempenha nas divergências intra-ortodoxas entre Constantinopla e Moscou. Lembre-se das tensões públicas em janeiro de 2019, quando o patriarca ecumênico Bartolomeu concedeu a autocefalia à Igreja Ortodoxa na Ucrânia.

O fantasma de um papel universal e papal para o patriarca de Constantinopla assombra algumas Igrejas Ortodoxas Orientais, mas a natureza complicada da primazia papal não deve ser esquecida tão rapidamente pelos católicos.

Agora tende a ser rejeitado como irrelevante por causa do estilo amistoso e gentil do papa Francisco. Mas se a sinodalidade deve ser ou não um aspecto-chave da Igreja no futuro do catolicismo, será uma questão que precisaremos ter em mente em algum momento, nos próximos anos, haverá outro papa.

E ele poderia ter uma forma e um estilo de interpretar a sinodalidade muito diferente do atual Bispo de Roma.

Publicado em NCR


Tradução: Ramón Lara

*Massimo Faggioli é professor de teologia e estudos religiosos na Universidade Villanova. Siga-o no Twitter: @MassimoFaggioli.



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