Religião

07/05/2021 | domtotal.com

Dança litúrgica

A dança na Igreja atualiza o mistério de nossa Salvação nos corpos

Coreografia na basílica de Aparecida
Coreografia na basílica de Aparecida (Thiago Leon)

Felipe de Assunção Soriano, SJ*

A dança em muitas culturas possui estatuto próprio, pois ela é compreendida como uma realidade particular que vai além das relações sociais sem se reduzir ao mero costume. Em muitos povos essa realidade é tão intrínseca que somos obrigados a reconhecer que a dança tem status social semelhante a "língua" como característica de um povo quando ousa expressar uma diversidade de impressões, vivências e sensações. Na maioria dessas culturas é por meio da dança que se exprimem os vínculos interpessoais, sociais e, muitas vezes, por causa da sua plasticidade, sua abertura ao Sagrado.

Há quem possa estranhar que na Igreja seja possível falar em dança litúrgica, mas é por causa dessa sua natureza particular que, além da música vocal e instrumental, a dança logo encontrou lugar nos documentos eclesiais. No caso do Brasil, desde a primeira hora de nossa evangelização, a dança aparece no teatro anchietano como estratégia para o "diálogo da fé"1. Contudo, é o próprio José de Anchieta quem melhor exprime o lugar particular que a dança ocupa em sua praxe não reduzindo-a ao instrumental ou lúdico, pois, mais do que comunicação não verbal, a dança é ação, e como tal, linguagem para expressar o Inefável.

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Essa natureza comunicante da dança que tem lugar na liturgia não é uma realidade original das terras de missão, mas também herança das tradições europeias trazidas ao Brasil2. Na correspondência da Companhia de Jesus há considerável número de referências a danças religiosas de tradição ibérica nas festas litúrgicas realizadas no Brasil (CARDIM, 1980, p. 287). O próprio José de Anchieta faz referências a essas danças confessando uma progressiva evolução em sua prática que vai abandonando uma concepção meramente lúdica3. Como vemos no Auto da Assunção (1590), as danças passam do final do espetáculo (prática lúdica) para o centro em seu fazer catequético, pois ela se soma ao conteúdo da fé que se escreve com o corpo, com a mente e o coração atingindo a vida como um todo (CARDOSO, 1977, p. 253).

A dança aparece aí de forma tão próxima da fé que deveria chamar a nossa atenção o fato de no Brasil a música popular e religiosa quase sempre dar nome à dança, sendo comum fazer pensar que a dança é quem demanda a música e não o contrário. O povo brasileiro tem fortes raízes indígenas e africanas e, por isso, é também um povo dançante que usa do seu "corpo brincante" como expressão litúrgica, ou melhor, como mergulho no mistério (PAULA, 2013, p.48). Isso se dá porque a liturgia é antes de tudo uma ação, e como tal, mais do que comunicação verbal, usa a linguagem sensorial para expressar por meio do corpo a ressonância do Espírito de Deus que habita a criação.

Nas escrituras, a dança também se faz presente no percurso histórico que faz o povo como expressão do júbilo, louvor, adoração e ação de graça. Assim encontramos no relato da travessia do mar vermelho, quando Mirian canta e dança acompanhada por outras mulheres a força do seu Deus libertador (Ex 15,20-21). Há uma quantidade considerável de citações onde encontramos danças em ocasião de vitória militar (I Sm 18,6; 21, 11; 29, 5; Jz 11,34). Como Javé Sabaoth é, de fato, o Senhor dos exércitos, não há melhor gesto de louvor e adoração do que celebrar com dança suas vitórias.

Também o rei Davi, acompanhado por música festiva, saltou de júbilo usando de expressões corporais para manifestar a alegria do seu coração ao transladar a Arca de Deus ao seu repouso (2 Sm 6,14-16). A dança que Davi faz uso é algo do seu interior, pois o conduz para dentro do mistério de Deus em louvor e adoração.  Tal referência aparece duas vezes nas escrituras dizendo que toda Israel dançava com Davi (1 Sm 18,6; 21,11; 2 Sm 6,16) e que ele mesmo dançou (1 Cr 15, 29). Em linha geral, como em Israel a música civil tem forte inclinação religiosa é comum encontrar referências às práticas folclóricas de dança onde encontramos indicação a instrumentos de percussão (Jz 11,34).

Como sabemos, o rei Davi dançou "diante do Senhor", mas, mesmo lançando as bases do culto litúrgico em Israel, não introduziu instrumentos de percussão ou dança no serviço do Templo (I Cr 23,2 -26,32). Tal ressalva se deve ao caráter peculiar que a dança possuía entre os povos pagãos. Contudo, os salmos exemplificam como Davi compreende o lugar próprio das danças em sua tradição, como expressão última no seu hinário de louvor e adoração a Deus: "Louvem o seu nome com danças; cantem-lhe o seu louvor com tamborim e harpa" (Sl 149,3) e "Louvai-o com o tamborim e com dança, louvai-o com instrumentos de cordas e com órgãos" (Sl 150,4).

A dança aqui não é meramente sequências de passos ou movimentos de corpos, não é meramente uma técnica afinada, perfeita. A dança aqui vai além do corpo, ela vem de dentro, do interior, da alma e, sobretudo, de uma relação onde cabeça, corpo e coração se harmonizam em louvor, serviço e adoração ao Senhor. A dança na Igreja, diferentemente da dança no meio secular não é o fim por si, mas um meio, um instrumento pelo qual dispomos a bondade do Senhor para que em nossos corpos – Templos do Espírito Santo – atualize-se o mistério de nossa Salvação.

Essa relação profunda foi muito bem captada pelo documento 43 da CNBB oferecendo-nos amplas razões, sobretudo históricas e culturais para falar da dança na liturgia, uma vez que "nosso corpo, sensível e dócil ao movimento, é uma fonte inesgotável de expressão. Por isso, na liturgia têm importância os gestos, as posturas, as caminhadas e a dança" (Animação da vida litúrgica no Brasil, 1989, § 83, 207, 241 e 297). Interessante ainda sobre a dança litúrgica o Estudo 79 da CNBB que afirma a relação criadora de harmonia entre o espírito e o corpo, entre a pessoa e a comunidade, entre o visível e o invisível (A música litúrgica no Brasil, 1999, § 306-219).

Hoje, torna-se mais frequente em nossas comunidades eclesiais a existência de equipes de dança infantil ou ministério de dança litúrgica. Destaca-se a experiência da Paróquia de N. Senhora do Rosário de Pompéia no bairro da Mustardinha, Recife - PE e as oficinas litúrgicas desenvolvidas pelo padre jesuíta Jacques Trudel conseguindo desenvolver a dança litúrgica, catalogar passos, confeccionar vestes e inúmeras outras expressões a partir das vivências da Igreja local. Como diz São Francisco de Assis: "Pregai o evangelho o tempo todo. Se necessário use palavras". Evangelizar sem necessariamente usar palavras é, como canta o salmo, "sustentar com arte a louvação" com a vida, com o corpo e com a alma (Sl 32,33).

Notas

1 – O padre "Pediu licença para ir ao terreiro, com pretesto de ver aquelas suas músicas e danças: e como essa gente se preza muito de que os Abarés (nome que chamam aos Padres) lhe gabem seus bailes..." (VASCONCELOS, 1869, P. 36).

2 – Essas danças ibéricas no Brasil colonial eram práticas recorrentes na aldeia de Piratininga, em 25 de janeiro de 1585 se lê: "Fomos em procissão até a igreja com uma dança de homens de espadas, e outra dos meninos da escola" (CARDIM, 1980, p. 287).

3 – Informes sobre a Província do Brasil: "Em uma [aldeia] lhes ensinam a cantar e tem seu coro de canto e flautas para suas festas, e fazem suas danças à portuguesa com tamboris e violas, com muita graça, como se fossem meninos portugueses, e quando fazem estas danças põem uns diademas na cabeça de penas de pássaros de várias cores..." (ANCHIETA, 1933, p. 416).

Referências:

ANCHIETA. José de. Cartas e informes. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933.

CARDIM, Fernão. Tratado da terra e gentes do Brasil. Rio de Janeiro: J. Leite e CIA., 1925.

CARDOSO, Armando. Teatro de Anchieta. São Paulo: Loyola, 1977.

Documento da CNBB. Animação da vida litúrgica no Brasil, São Paulo: Paulinas,  1989.

Estudo da CNBB. A música litúrgica no Brasil, São Paulo: Paulinas, 1999.

http://eluacriativa.com.br/portalarte/2018/07/16/danca-na-liturgia/

https://www.a12.com/redacaoa12/musica/a-danca-liturgica

PAULA, Jorge. Maracatu do Ceará: contribuições para o estudo de sua configuração. Dissertação de Mestrado. UFBA, 2013.

VASCONCELOS, Simão. Crônicas da Companhia de Jesus. Lisboa: Em casa do editor A. J. Fernandes Lopes, 1977 (1869).

*Padre Jesuíta e Mestre em Teologia pela Universidade Católica de Pernambuco – UNICAP. Pesquisador no teatro anchietano e sua mariologia tupi. felipeassj@yahoo.com.br



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