Religião

07/05/2021 | domtotal.com

Vem! Dança!

O corpo só sabe em movimento, em dança

Na dança arranca-se o peso do corpo, pesando sobre o próprio corpo
Na dança arranca-se o peso do corpo, pesando sobre o próprio corpo (Unsplash/Ahmad Odeh)

Rodrigo Ladeira*

Um corpo reflexivo e pensante está constantemente dançando o seu devir.
(Jean-Luc Nancy)

O corpo é quem somos. É uma espécie de "desejo" que ainda não se sabe. Inconsciente de si, o "corpo-que-sou" tem dia que se anima. Arruma casa, ouve música, vê TV, fala... Tem dia que despenca. Se mistura com indelicadezas e não há santo que o reanime. O corpo é, ao mesmo tempo, dádiva e maldição. Estranho e conhecido. Negado, solicitado, maltratado, inconsistente. Imposto, silenciado, escravizado, hiperpositivado. Modificado, sexuado, "embarrigado", avantajado...

No ano passado, logo depois da festa da carne, do carnaval, chegava um não esperado e indesejado invisível corpo. O bailarino nefasto nos chamou para dançar por contato, aglomeração, aerossóis..., modificou todas as coisas. Há quem diga que as coisas precisam mesmo mudar para serem elas mesmas.

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Tentativa, erro e acerto, o que nos resta é "engolfar" – fazer com que a embarcação singre para o alto-mar – o corpo-peso em/na casa. Esse lugar afastado da costa. Essa "rave" que solicita corpos para a "baderna". Aparentemente desalentador, é no vazio do mar alto, da casa-mesmice, que aparece novidade. Não nos tiraram de nós. Não estamos aprisionados. Já estávamos! Corpo é privação cujo escape só é possível quando recolhido. Só aí, na aparente mesmice do isolamento, é possível aceder ao corpo como princípio, como alfa, como um, como movimento apesar do parado, nudez. É na casa, lugar de saída e retorno, que retiramos o peso dos corpos.

Estranho tentar entender que nessa miséria de confinamento, – deixando em suspeição toda gralha dos podres poderes, resolvível em uma ou duas doses de vacina – ouvi (palavra que reclama o princípio da salvação) a música que move e libera meu corpo. O baile do cotidiano. A dança que me faz ficar em pé. Não há corpo sem ruído, sem barulho, sem música. O corpo só sabe em movimento, em dança. Aliás, todo mundo tem um vizinho cantor de janela de pandemia ou que, com sua caixa de som, convoque os corpos para a dança. Na dança arranca-se o peso do corpo, pesando sobre o próprio corpo.

A páscoa que estamos vivendo nos ajuda a pensar no corpo do Mestre de todas as danças. Daquele que, tendo seu corpo-sem-peso, se dá sem se prender. Apesar da ausência de testemunho explícito da relação de Jesus, esse corpo-entregue, com a música, podemos abstrair a ideia de que seu corpo era todo ele movimento, bailado, dança. Será que é à toa que seu primeiro "serviço" redentor tenha sido numa festa de casamento?

Gosto de pensar que Jesus deveria ser um bom pé-de-valsa. Transformou a água em vinho nas bodas de Caná para a festa não acabar. Tivesse faltado música, transformaria os desafinados em cantores, tudo para que os corpos não se quedassem paralisados. Também, no fim (que é sempre começo), acolheu a música do Calvário. Encontrou-se com o canto de Verônica, que dançou sua voz para reanimar seu corpo. Depois de morto e sepultado, seu corpo reapareceu para acender outros corpos. Os de Emaús. De Madalena. Dos apóstolos no cenáculo. Isto é o meu corpo, dado para que outros corpos dancem.

Apesar do desfile de corpos adoecidos e interrompidos que estamos acompanhando desfilar na mídia, sigamos, corpo em dança, dois-pra-lá e dois-pra-cá, na busca da "batida" perfeita. É tempo de salvação. É hora de dançar!

*Rodrigo Ladeira é Mestre em Teologia Sistemática pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE) / BH-MG e coordenador de ensino da IPEMED / AFYA em SP.



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