Cultura

07/05/2021 | domtotal.com

A morte chegou cedo

Passagem prematura do ator tem sido sentida como a de um ente familiar

O ator Paulo Gustavo é um entre os 414 mil mortos pela Covid-19
O ator Paulo Gustavo é um entre os 414 mil mortos pela Covid-19 (Divulgação)

Eleonora Santa Rosa*

Alta noite, noite triste, de cansaço emocional, pessoal, dissabor e melancolia acentuados pelos badalos dos sinos da igreja ao lado.

Silêncio cavado em meio à passagem das cenas, centenas, tendo como personagem Paulo Gustavo. Há pouco, registros de homenagens tocantes e espontâneas nas ruas, nas casas, nos shoppings, palmas e assobios reverberando as expressões de afeto, solidariedade, respeito e consideração de milhões, de ponta a ponta, manifestações de solidariedade à mãe, ao marido, à irmã.

Sua passagem prematura tem sido sentida como a de um ente familiar, fraterno, querido, de casa, ao alcance de todos. Como se os 414 mil brasileiros levados pela Covid, em função da incúria de um governo daninho, negacionista, contrário à vacinação, ganhassem um rosto, uma voz, um pranto coletivo.

O falecimento de Paulo Gustavo, aos 42 anos, bateu fundo, foi sentido (e ainda o será por muito tempo) como um roubo, uma injustiça, uma interrupção abrupta, não merecida, gerando comoção e catarse em todos os segmentos da sociedade.

Na contabilidade macabra de um Brasil à deriva, infeliz e entristecido: 414 mil mortes, dentre elas, a de Paulo Gustavo; 414 mil filhos perdidos, dentre eles, Paulo Gustavo; 414 mil pessoas únicas em seus universos familiares agora ausentes, dentre elas, Paulo Gustavo; 414 mil histórias de vida interrompidas por uma doença que poderia ter sido combatida, dentre elas, a de Paulo Gustavo. 414 mil mortes que poderiam ter sido evitadas pela vacinação em massa, dentre elas, a de Paulo Gustavo; 414 mil amores perdidos, dentre eles, Paulo Gustavo.

A esse imenso cordão de pessoas sacrificadas pela pandemia, o acalanto do poeta (Fernando Pessoa), com o desejo de uma passagem em corrente de luz, harmonia e paz:

A morte chega cedo,
Pois breve é toda vida
O instante é o arremedo
De uma coisa perdida. 

O amor foi começado,
O ideal não acabou,
E quem tenha alcançado
Não sabe o que alcançou.

E a tudo isto a morte
Risca por não estar certo
No caderno da sorte
Que Deus deixou aberto.

*Eleonora Santa Rosa - Jornalista, gestora e empreendedora cultural, foi Secretária de Estado de Cultura de Minas Gerais. Ex-diretora do Centro de Estudos Históricos e Culturais da Fundação João Pinheiro, exerceu diversas funções públicas ao longo de sua trajetória de mais de 35 anos de trabalho. Recentemente, de novembro de 2017 a novembro de 2019, dirigiu o Museu de Arte do Rio - MAR. Estrategista Cultural, concebeu, coordenou e implantou diversos projetos, programas, iniciativas e equipamentos culturais de repercussão nacional. É fundadora e diretora do Santa Rosa Bureau Cultural, prestando assessoria e consultoria cultural nos mais diversos segmentos, tanto públicos como privados. Autora do livro Interstício

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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