Brasil Política

06/05/2021 | domtotal.com

Diretor do Butantan afirma que declarações de Bolsonaro podem atrasar entregas da China

No Senado, chanceler declara que não há problema político que atrapalhe produção de vacina

No Senado, o ministro Carlos Alberto de Franco França afirma que diplomacia da saúde está funcionando
No Senado, o ministro Carlos Alberto de Franco França afirma que diplomacia da saúde está funcionando (Leopoldo Silva/Agência Senado)

O diretor do Instituto Butantan, Dimas Covas, afirmou que as reiteradas críticas do governo brasileiro à China afetam a chegada de insumos para a fabricação da principal vacina usada pelo Brasil contra a Covid-19, após novas declarações do presidente Jair Bolsonaro. "Obviamente essas declarações têm impacto e estamos à mercê dessa situação", disse Covas, referindo-se ao possível impacto dos comentários de Bolsonaro.

Ao anunciar que o Instituto Butantan vai entregar ao Ministério da Saúde, na próxima semana mais 3 milhões de vacinas da Coronavac, Dimas Covas previu a entrega de mais 5 milhões de doses do imunizante referentes ao IFA de 3 mil litros entregues pela Sinovac. Ainda, daqui 15 dias, devem ser autorizadas a liberação de mais 2 milhões de doses.

No entanto, após essa data, o diretor afirmou que não há mais matéria para a produção da vacina, e responsabilizou o governo Bolsonaro pela possível falta. "Então pode faltar? Pode faltar. E aí nós temos que debitar isso principalmente ao nosso governo federal que tem remado contra", declarou. "Embora a embaixada da China no Brasil venha dizer que não há esse tipo de problema, a nossa sensação de quem está na ponta é que existe dificuldade", disse Covas.

Dimas Covas afirmou que, neste momento, há negociações com a China para embarque de matéria-prima correspondente de 6 mil a 8 mil litros do IFA, mas que há sinalização de redução desse volume para 2 mil litros. "Isso nos preocupa muito porque dependemos da chegada da matéria-prima o quanto antes para regularizarmos a entrega para o Ministério da Saúde. E todas essas idas e vindas do governo federal é claro que tem um impacto no ritmo de liberação", pontuou. Segundo ele, a entrega do imunizante está acontecendo, mas em uma quantidade menor do que poderia acontecer. "Tanto o Butantan quanto a Sinovac têm capacidade de processar maior número de vacinas, essa é a grande questão".

Na CPI da Covid, também no Senado, o senador Tasso Jereissati (PSDB-CE) reagiu às recentes falas do presidente contra a China, e afirmou que irá fazer o requerimento para que um responsável da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) compareça ao colegiado para explicar as declarações do presidente. "Ontem, o presidente fez uma das declarações mais graves e sérias que eu já vi um presidente da República no Brasil fazer, de que a pandemia poderia fazer parte de uma guerra química provinda da sua origem, evidentemente ele não fala o nome, mas da China. Isso é muito grave. Se nós estamos vivendo uma guerra química é uma das piores situações mundiais desde a Segunda Guerra Mundial se não, nós estamos fazendo uma injúria contra o nosso maior fornecedor de vacinas neste momento", afirmou o senador.

O governador, João Doria (PSDB), também reagiu às manifestações feitas contra China dizendo que as "sucessivas" declarações contra o país geram um "profundo mal-estar na chancelaria e na diplomacia chinesa". Segundo o governador paulista, "é inacreditável que diante de uma circunstância onde precisamos salvar vidas, proteger vidas, e termos mais vacinas, tenhamos alguém criticando a China, que é o grande fornecedor de insumos para a vacina".

Contradições

A avaliação de Covas, Doria, Jereissati e outros integrantes da CPI contradizem as declarações do ministro das Relações Exteriores, Carlos Alberto de Franco França, em sessão na Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional do Senado. Durante a conversa com senadores, França afirmou que as relações com todos os demais países do mundo seguem de forma positiva. "Não há hoje nenhum problema político que permeie ou atrapalhe a nossa produção da vacina aqui", declarou.

O chanceler enfatizou que o Brasil tem tido grande contribuição da China em relação ao ingrediente farmacêutico ativo (IFA) e que conversou com o embaixador da China no país mais cedo, relatando que o IFA previsto para ser entregue neste mês de maio está a caminho. "Temos trabalhado na direção de garantir a matéria-prima", disse aos parlamentares. "A China é muito importante para nós, mas quero enfatizar que também somos para eles. E não há porque deixar de sermos", acrescentou.

O senador Veneziano Vital do Rêgo (MDB-PB) questionou como será a atuação do chanceler tendo em vista que o presidente Bolsonaro, e outros que o acompanham, fez "outras declarações infelizes" sobre um grande parceiro comercial e que deu alento ao Brasil no caso da vacinação, se referindo à China.

França salientou a chegada, no fim de semana, de 4 milhões de doses de vacinas provenientes do consórcio internacional Covax Facility. "É o primeiro resultado satisfatório numa corrida contra o tempo", disse. Para França, a chegada dessas doses é fruto do trabalho do Itamaraty na busca de vacinas para os brasileiros dentro da estratégia "diplomacia da saúde" junto com a atuação das comissões de relações exteriores da Câmara e do Senado.

A presidente da comissão, a senadora Katia Abreu (Progressistas/TO) criticou o que chamou de "desvios ideológicos", "excessos" e "incidentes diplomáticos" que transformaram negativamente a imagem do Brasil no exterior. "Quero garantir que equívocos como estes não sejam cometidos", disse a parlamentar acrescentando, na sequência, que gostaria que "erros e desvios" que possam comprometer renda e empregos do país sejam evitados.

Patentes

Carlos Alberto de Franco França repetiu que o maior gargalo na obtenção das vacinas contra a Covid-19 em todo o mundo é a capacidade de produção das empresas farmacêuticas. Sobre a discussão a respeito da quebra de patentes no âmbito da Organização Mundial do Comércio (OMC), reafirmou que, até o momento, pelo menos, a posição do Brasil não se alterou sobre o tema. O Brasil seguiu a postura do governo de Donald Trump e foi contra a quebra de patentes, que foi alterada na quarta-feira pelo governo de Joe Biden. No entanto, França admitiu que a posição brasileira não é exatamente fixa e imutável. "Temos sempre o direito de mudar de opinião. Não tenho amor a nenhuma dessas posições", disse ele diante da Comissão de Relações Exteriores do Senado.


Agência Estado/AFP/Dom Total



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