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09/05/2021 | domtotal.com

Sobe para 28 o número de mortos na operação policial no Jacarezinho

Nomes das vítimas mortas em tiroteio na favela do Rio de Janeiro só foram divulgados dois dias depois. Ação já é considerada como a mais letal na história da cidade

Moradores protestam após operação policial contra supostos traficantes de drogas na favela do Jacarezinho, no Rio de Janeiro
Moradores protestam após operação policial contra supostos traficantes de drogas na favela do Jacarezinho, no Rio de Janeiro (Mauro Pimentel/AFP)

Aumentou para 28 o número de mortos na operação policial em uma favela do Rio de Janeiro, que gerou protestos e uma enxurrada de críticas nessa sexta-feira (7), além de um pedido da ONU para que sejam investigadas denúncias de execuções sumárias.

Inicialmente, 25 mortes foram relatadas, incluindo um policial. No entanto, a Polícia Civil atualizou o número para 28 na tarde de sexta-feira. Somente no sábado (8), dois dias após a operação sangrenta na favela do Jacarezinho, que a Polícia Civil divulgou o nome das vítimas, exceto a do policial. 

Veja a lista das 27 pessoas mortas na operação, cujos nomes ainda não tinham sido informados:

  1. Jonathan Araújo da Silva
  2. Jonas do Carmo Santos
  3. Márcio da Silva Bezerra
  4. Carlos Ivan Avelino da Costa Junior
  5. Rômulo Oliveira Lúcio
  6. Francisco Fábio Dias Araújo Chaves
  7. Cleyton da Silva Freitas de Lima
  8. Natan Oliveira de Almeida
  9. Maurício Ferreira da Silva
  10. Ray Barreiros de Araújo
  11. Guilherme de Aquino Simões
  12. Pedro Donato de Sant'ana
  13. Luiz Augusto Oliveira de Farias
  14. Isaac Pinheiro de Oliveira
  15. Richard Gabriel da Silva Ferreira
  16. Omar Pereira da Silva
  17. Marlon Santana de Araújo
  18. Bruno Brasil
  19. Pablo Araújo de Mello
  20. John Jefferson Mendes Rufino da Silva
  21. Wagner Luiz Magalhães Fagundes
  22. Matheus Gomes dos Santos
  23. Rodrigo Paula de Barros
  24. Toni da Conceição
  25. Diogo Barbosa Gomes
  26. Caio da Silva Figueiredo
  27. Evandro da Silva Santos

A ação gerou protestos ao longo dessa sexta-feira. "Parem de nos matar!", dizia uma faixa em frente a uma passeata de centenas de pessoas que saíram da favela do Jacarezinho, onde ocorreu a tragédia na quinta-feira, até uma delegacia. "Isso foi um dos atos mais bárbaros da história da polícia", disse o estudante Roger Denis, que participou da protesto. "A gente está pedindo justiça por uma chacina injustificável".

Segundo grupos de direitos humanos, a operação policial foi a mais letal da história da cidade, acostumada, no entanto, a ataques violentos por parte das forças de segurança em comunidades pobres com população predominantemente negra.

A Polícia Civil argumentou que a incursão no Jacarezinho tinha o objetivo de desmantelar uma quadrilha que recrutava crianças e adolescentes para o tráfico de drogas, roubos, sequestros e assassinatos. A ação transformou a área em um cenário de guerra, com cadáveres espalhados e grandes poças de sangue nas ruas estreitas, disseram testemunhas.

A polícia afirma que as vítimas eram "criminosos", mas até agora não identificou os corpos nem explicou as circunstâncias nas quais os agentes abriram fogo, ao mesmo tempo que crescem as denúncias de abuso de poder.

O porta-voz do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Rupert Colville, declarou-se "profundamente chocado" e pediu por uma investigação "independente, completa e imparcial".

"Lembramos às autoridades brasileiras que o uso da força só deve ser aplicado quando for estritamente necessário", disse em nota divulgada em Genebra. "A força letal deve ser usada como o última recurso", disse ele.

O juiz do Supremo Tribunal Federal Edson Fachin ordenou aos promotores do Rio de Janeiro que investiguem dois vídeos que circulam nas redes sociais, que parecem mostrar policiais cometendo assassinatos de forma indiscriminada. "Os fatos relatados parecem extremamente graves. Em um vídeo, há indícios de atos que, em tese, poderiam configurar execução arbitrária", escreveu Fachin.

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'Foi execução'

A polícia afirma que respeitou os protocolos e que atirou para se defender. Foram exibidas grandes quantidades de drogas e armas apreendidas durante a operação. Mas depoimentos de vizinhos, familiares e um vídeo que circula nas redes sociais levantam dúvidas a respeito.

Uma moradora do Jacarezinho contou que um jovem foi morto em sua casa, onde havia se refugiado ferido. "O menino chegou baleado e como ninguém da comunidade pode expulsar outro, ele ficou. Mas a polícia viu sangue e entrou gritando: 'Cadê ele? Cadê ele?'. Só tive o tempo de botar meus filhos pra cá atrás de mim e eles assassinaram o garoto no quarto", disse.

Outra moradora contou ao portal UOL que seu marido, Jonas do Carmo dos Santos, de 32 anos, que trabalhava na construção civil e em uma pizzaria, foi baleado pela polícia quando saía para comprar pão. Testemunhas no local disseram que ele foi inicialmente baleado na perna e tentou fugir, mas os policiais "se aproximaram e terminaram de executá-lo".

Luto

Com lágrimas e orações, os parentes de algumas das 28 pessoas mortas começaram a enterrar seus entes queridos nesse sábado (8), véspera do Dia das Mães.

"Quero justiça, peço justiça para todos, por todos, nós somos mães, eles são pais de família, então nós estamos sofrendo", declarou Edeluze, de 67 anos, ao enterrar o filho Márcio Bezerra, que deixou três filhos e dois netos. "Os policiais subiram [na comunidade] matando os meninos, isso é uma crueldade", denunciou Miriam Bezerra no túmulo do irmão.

Segundo reportagens da imprensa, outras cinco pessoas foram sepultadas neste sábado em dois cemitérios do Rio em meio a cenas de dor. Neste domingo (9), outras 13 serão enterradas.

Estratégia questionada

O presidente Jair Bolsonaro, que venceu as eleições presidenciais de 2018 com um discurso severo contra a criminalidade, fez questão de defender a ação policial. "O energúmeno poderia, além de citar os direitos dos bandidos, nos informar onde eles conseguiram porte de arma de fogo", atacou o presidente no Twitter, junto com um curto vídeo de um analista do canal CNN Brasil que comentava a operação policial. Apoiadores de Bolsonaro não demoraram a defender a polícia. 

"Tudo bandido", disse o vice-presidente Hamilton Mourão, general aposentado, referindo-se às pessoas mortas. O Rio de Janeiro é conhecido por seu histórico de violência. No ano passado, 1.245 pessoas foram mortas pela polícia no estado.

Especialistas em segurança e violência questionam por que as autoridades continuam a aplicar uma estratégia militar contra o crime organizado que, ao longo dos anos, resultou em altas taxas de mortalidade e poucos resultados.

"Depois que a polícia sai, os grupos locais não ficam enfraquecidos, os traficantes encomendam mais fuzis e amanhã grupos locais armados dessas comunidades estarão mais poderosos e mais fortes", disse Silvia Ramos, diretora do Observatório de Segurança da Universidade Cândido Mendes. "E a polícia vai ter que voltar e dar mais tiros e deixar a população mais traumatizada", acrescentou.


AFP/Agência Estado/Dom Total



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