Religião

13/05/2021 | domtotal.com

Monges se dividem depois do golpe de Estado no Mianmar

Diferente da revolução de 2007, um ala ultranacionalista defende junta militar por medo de suposta islamização

Monges budistas durante protesto contra o golpe militar em Yangon, Mianmar, em 24 de fevereiro de 2021
Monges budistas durante protesto contra o golpe militar em Yangon, Mianmar, em 24 de fevereiro de 2021 (./AFP)

Onde estão os monges? O poderoso clero budista, que ficou na linha de frente da revolta popular de 2007 em Mianmar, agora está dividido a respeito do movimento contra o golpe de Estado e a violenta repressão dos militares.

Alguns religiosos estão dispostos a "renunciar a (sua) preciosa vida monástica para participar na revolução", como Shwe Ohh Sayardaw, que fugiu do mosteiro na região de Yangon e está escondido desde então em comunidades religiosas de todo o país.

Outros, ultranacionalistas, denunciam a política "maléfica" da ex-governante Aung San Suu Kyi e consideram o exército o "protetor da nação e da religião".

De Mandalay, a capital religiosa, até os vilarejos mais remotos, centenas de monges participam nas manifestações quase diárias desde o golpe de 1º de fevereiro.

Mas, ao contrário da "revolução do açafrão" de 2007 contra a anterior junta militar, batizada assim em homenagem à cor dos trajes dos religiosos, desta vez os monges não invadiram as ruas e nenhum deles tomou a dianteira dos protestos.

Isto não impede que as forças de segurança monitorem de perto um grande número de mosteiros. "Eles inclusive atiram dentro de vários edifícios", conta o ex-monge Gambira, um dos líderes da "revolução do açafrão", que retornou à vida civil.

Além disso, uma dezena de monges estão detidos, segundo a Associação de Assistência aos Presos Políticos (AAPP).

Em 2007, a repressão do exército foi brutal contra os religiosos. "Muitos foram assassinados ou estão desaparecidos, outros, detidos por vários anos, estão em más condições físicas. Muitos fugiram para o exterior", explica Gambira, refugiado na Austrália depois de ter sido condenado a 68 anos de prisão e de passar quase cinco em detenção.

Hoje, o movimento está desorganizado e com muitas divergências.

Alguns monges acusam Aung San Suu Kyi de ter iniciado um processo para limitar o budismo no país, ao tentar reduzir o financiamento estatal para as universidades monásticas.

A violência entre budistas e muçulmanos rohingyas, que provocou um êxodo destes últimos para Bangladesh em 2017, exacerba as divisões.

Uma organização monástica de "defesa da raça e da religião" (Ma Ba Tha) surgiu em 2014 para lutar contra uma suposta islamização de Mianmar, país que tem menos de 5% de muçulmanos.

Proibida e depois rebatizada, a organização é liderada por monges extremistas próximos ao exército e que defendem o golpe de Estado.

Se Mianmar tivesse mantido Aung San Suu Kyi no poder, o país "teria observado uma extinção das religião e das especificidades étnicas" em seu conjunto, afirmou um de seus membros influentes, o monge Parmaukkha, condenado a três meses de prisão em 2017 por incitação do ódio contra os rohingyas.

"Os birmaneses que são conscientes dos riscos protegem o atual governo (militar) e não vão protestar", completa.

Desde o golpe de Estado, o novo regime corteja o clero e reabriu os pagodes fechados há vários meses por causa da Covid-19.

O chefe da junta militar, o general Min Aung Hlaing, e outros altos funcionários também intensificaram as visitas e doações a importantes monastérios.

Irritados com os abusos das forças de segurança, vários monges se uniram ao movimento de desobediência civil.

O código de vida monástico proíbe aos quase 300 mil monges de votar ou participar em manifestações políticas.


AFP



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