Brasil Educação

13/05/2021 | domtotal.com

Corte e bloqueio de verbas nas universidades federais afetam bolsas e pesquisa

Sem auxílio a estudantes carentes, gestores temem evasão escolar em massa

Pesquisa da UFRJ de vacina anticovid deve ser comprometida por falta de verbas
Pesquisa da UFRJ de vacina anticovid deve ser comprometida por falta de verbas (UFRJ/Divulgação)

O corte de R$ 1 bilhão e o bloqueio de verbas para as universidades federais podem atrasar o retorno presencial das aulas, além de ameaçar pesquisas e ações de enfrentamento à covid-19. Pelo país, bolsas de auxílio a estudantes de baixa renda já estão sendo cortadas e as instituições falam em interromper até o atendimento de pacientes do coronavírus em hospitais universitários.

Em abril, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) sancionou o Orçamento, com redução de R$ 1 bilhão para as 69 universidades federais, 18% a menos na comparação com o ano passado em verbas discricionárias - usadas para pagar contas como as de luz e limpeza. Além disso, houve bloqueio de 13,8% das verbas, o que deixa R$ 4,3 bilhões para as instituições, metade do que tinham cinco anos atrás. O governo mantém relação turbulenta com as universidades, com acusações de "balbúrdia" e protestos de alunos e professores.

"É um contrassenso, estamos estupefatos", disse a reitora da Universidade Federal do Rio (UFRJ), Denise Pires de Carvalho. Na maior federal, que tem até pesquisa própria de vacina anticovid, a verba para contas básicas é de R$ 258 milhões, a mesma de 2008, quando havia pouca mais da metade do número de alunos.

Na pandemia, as federais adotaram ensino remoto para aulas teóricas e mantiveram atividades presenciais de pesquisa e cursos de Saúde. As instituições estimam ter recursos para manter atividades só até julho. Na UFRJ, ações como a testagem da população e até o atendimento a pacientes da covid no hospital universitário podem ser interrompidas, diz a reitora.

"Ficaremos com funcionamento básico. Infelizmente talvez tenhamos de fechar leitos nos hospitais, especificamente de atendimento covid. Haverá atraso no desenvolvimento de vacinas e testes moleculares talvez tenham de ser interrompidos, caso o orçamento não seja recomposto", disse Denise.

Embora a contratação de profissionais do atendimento Covid seja via Ministério da Saúde, o hospital da UFRJ, que faz mais de 1,5 mil consultas diárias, depende de contratos de limpeza, luz, insumos e remédios custeados com a verba cortada. Já o desenvolvimento da vacina ocorre em laboratórios da universidade - a pesquisa é paga por outros órgãos, mas a manutenção e limpeza dos espaços depende da verba do MEC.

Mais de 7 mil alunos precisam de aulas presenciais para terminar seus cursos e a UFRJ preparava retorno. Mas, segundo Denise, os cortes inviabilizam a limpeza das salas e a testagem de alunos e professores. "Não haverá retorno presencial possível em 2021 por escolha do governo, não da universidade."

A Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), que teve redução de 20,6% nos recursos para despesas como contas de água e luz, também afirma só conseguir manter atividades até julho - e no modelo remoto. O valor, informa, não é suficiente para as adaptações aos protocolos sanitários. "O risco de paralisação total é real."

Na Federal do Paraná (UFPR), "se o dinheiro não for desbloqueado a universidade não tem condições de retornar ao ensino presencial", diz o reitor Ricardo Marcelo Fonseca. Pesquisas da Covid não sofrem impacto direto porque são custeadas por outros órgãos. Mas, diz Fonseca, há efeitos colaterais. "Se o laboratório não é limpo, a pesquisa é afetada."

A Andifes, entidade que reúne os reitores, tenta reverter no Congresso o contingenciamento e obter suplementação.

‘Passando fome’

Verbas menores na assistência estudantil também preocupam. Segundo estudo da Andifes, 27% dos alunos de graduação têm renda de até meio salário mínimo.

Na Federal de Goiás (UFG), o valor das bolsas foi reduzido para evitar deixar estudantes sem auxílio - o mesmo ocorreu na Federal da Bahia (UFBA). "Você não imagina a dor que é receber mensagens dos estudantes dizendo que estão passando fome, sem conseguir comer", disse o reitor da UFBA, João Carlos Salles. O risco é de alta da evasão de alunos.

A Federal de Minas (UFMG), que faz seu primeiro movimento de retomar atividades presenciais semana que vem, cita quadro "insustentável" e preocupação com 8,5 mil alunos apoiados por ações de inclusão. A Federal de Juiz de Fora (UFJF) reduziu o valor de bolsas de monitoria e extinguiu 869 auxílios. Em Alagoas, Ufal suspendeu bolsas de extensão.

Procurado, o MEC disse não medir esforços "nas tentativas de recomposição e/ou mitigação das reduções orçamentárias" e promover ações com o Ministério da Economia para desbloquear verbas. Na expectativa de "evolução do cenário fiscal" no segundo semestre, as "dotações poderão ser desbloqueadas e executadas", disse a pasta.

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Agência Estado/Dom Total



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