Religião

14/05/2021 | domtotal.com

Uma Igreja servidora: reverberações da instituição do ministério de catequistas

Catequese como ministério é verdadeiro serviço batismal do e para o povo de Deus

A catequese é um dos pilares da vida da Igreja
A catequese é um dos pilares da vida da Igreja (Unsplash/Priscilla Du Preez)

Felipe Magalhães Francisco*

As tentações de poder e status estiveram presentes nas comunidades cristãs desde o início. O Evangelho de Marcos é um dos que sinalizam esse ambiente, no qual, dentre os discípulos de Jesus, havia alguma disputa por colocações mais prestigiosas. O evangelista, para responder à sua comunidade - e à nossa, hoje! - quem é Jesus, insiste no fato de que ele é um servidor. Como Cristo e Filho de Deus, o que já é sinalizado desde o primeiro versículo do evangelho, Jesus é apresentado como aquele que veio para o serviço, sobretudo dos empobrecidos e empobrecidas, ao contrário daquilo que faziam os poderosos e opressores (cf. Marcos 10,35-45).

A comunidade cristã primitiva, fazendo-se e sendo constituída pela memória de Jesus Ressuscitado, procurou trilhar um caminho que a fizesse romper com essas tentações de poder. Há dois pilares eclesiais que sustentam a compreensão cristã da vida na comunidade e no mundo: o primeiro, o amor que coloca todos e todas, sem distinção, no lugar de irmãos e irmãs; o segundo, a renúncia ao status, que levava os cristãos e cristãs a se diminuírem, a fim de erguer e elevar os humilhados. Esses dois pilares são fundamentais para a compreensão da eclesiologia do cristianismo nascente, isto é, o entendimento do que é a Igreja primitiva: ela é servidora e só deve existir na perspectiva do serviço missionário e evangelizador do Reino de Deus.

As tentações de poder, no entanto, sempre estiveram presentes na vida dos cristãos e cristãs. A história está aí, contada, e cheia de provas disso. A prevenção para que nos mantenhamos afastados dessas tentações e o antídoto para as ocasiões em que somos envenenados por elas é a vocação servidora de todos os batizados e batizadas: "[...] se alguém quer ser grande dentre vós, seja vosso servo, e se alguém quer ser o primeiro entre vós, seja o escravo de todos" (Marcos 10,43-44). O Concílio Vaticano II deu passos importantes para o resgate de uma eclesiologia que pressupõe a ministerialidade, isto é, a dimensão de serviço à qual todos os batizados e batizadas são, por força de sua incorporação a Cristo, impelidos e comprometidos. O papa Francisco, depois de longo inverno que tentou frear a aplicação do Concílio, traz novos e importantes acenos.

Papa Francisco e a retomada do Concílio Vaticano II e de sua eclesiologia

A eleição de Jorge Mario Bergoglio, desde o fim do mundo para o centro da unidade da fé, como bispo Roma, tem sido uma grande oportunidade de retomada do Concílio Vaticano II e de sua eclesiologia. Temas como sinodalidade, colegialidade e ministerialidade voltaram com força significativa à pauta pastoral do catolicismo. Ao mesmo tempo em que Francisco busca orientar a Igreja Católica para um caminho de fidelidade evangélica numa pastoral pertinente ao século 21, ele atua para a reforma da instituição, revelando uma compreensão de Igreja bem sustentada biblicamente e afirmada pelo último Concílio.

Autorreferencialidade e clericalismo - como expressões de um poder anti-evangélico - são males que devem ser combatidos, entre outras coisas, com uma efetiva vivência da ministerialidade assumida por todos os batizados e batizadas, como serviço evangélico para o anúncio e realização do Reino de Deus. O papa argentino combate esses dois males de forma bastante contundente em seus escritos, discursos e catequeses; e não para por aí: efetivamente, ele atua para a superação, do ponto de vista institucional, dessas mazelas. É o que percebemos quando incentiva a sinodalidade, tal como foi para a região da Amazônia; a nomeação de mulheres para postos de decisão e trabalhos chaves; a ampliação da instituição dos ministérios do laitorato e do acolitato para mulheres; e, agora, a instituição da catequese como ministério.

A catequese como ministério

No último dia onze, Francisco tornou pública a carta apostólica Antiquum ministerium, sob forma de motu proprio, na qual deixa claro, desde a primeira frase, que se trata de um reconhecimento oficial de um exercício ministerial que remonta aos primórdios da comunidade cristã. A catequese é um dos pilares da vida da Igreja: é o ecoar da fé, que educa os fiéis em seu processo permanente de iniciação à vida cristã. A instituição ministerial - que é uma formalização litúrgica de um exercício de serviço eclesial - é, e deve ser, bem mais que formalidade ritualista e legal; e, sem dúvidas, não deixar que se torne isso é um dos maiores desafios que as dioceses e paróquias enfrentarão, na recepção do motu proprio.

A instituição de um ministério abre horizontes pastorais bastante importantes. Destacamos um, com sua consequência: a perenidade do serviço, tende a trazer mais qualidade para seu exercício, espera-se. Catequistas instituídos em sua função ministerial são compreendidos não como um serviço de mandato, como uma ação pastoral momentânea, mas uma vocação legitimada pela comunidade. Isso implica que, para serem instituídos como ministros, as e os catequistas precisam de uma formação sólida e permanente. O investimento na formação de catequistas como ministros e ministras ganha contornos de investimento no médio e no longo prazos: forma-se um(a) catequista para toda a vida comunitária. A perenidade do ministério não deve, no entanto, ser motivo para comodismo pastoral e formativo; muito pelo contrário. Além disso, a instituição de um ministério não deve, jamais, ser caminho para a clericalização de leigos e leigas, mas trazer condições de qualificação para o exercício da vocação bastimal.

Diz o papa: "Este ministério possui uma forte valência vocacional, que requer o devido discernimento por parte do bispo e se evidencia com o rito de instituição. De fato, é um serviço estável prestado à Igreja local de acordo com as exigências pastorais identificadas pelo ordinário do lugar, mas desempenhado de maneira laical como exige a própria natureza do ministério. Convém que, ao ministério instituído de catequista, sejam chamados homens e mulheres de fé profunda e maturidade humana, que tenham uma participação ativa na vida da comunidade cristã, sejam capazes de acolhimento, generosidade e vida de comunhão fraterna, recebam a devida formação bíblica, teológica, pastoral e pedagógica, para ser solícitos comunicadores da verdade da fé, e tenham já maturado uma prévia experiência de catequese (cf. Conc. Ecum. Vat. II, Decr. Christus Dominus, 14; CIC cân. 231 §1; CCEO cân. 409 §1). [...]" (n. 8).

No Dom Especial da semana, fazemos ecoar a iniciativa do papa Francisco, refletindo sobre a catequese como ministério, isto é, como verdadeiro serviço batismal do e para o povo de Deus, bem como apontamos alguns riscos que uma má recepção do motu proprio pode trazer. Iniciamos, aqui, uma importante conversa que precisa ser estendida teológica e pastoralmente, tal como se depreende dos três artigos que compõem nosso Especial. No primeiro artigo, O múnus de ensinar da catequese como ecoar da fé, Rodrigo Ferreira da Costa resgata o sentido mais profundo da catequese, destacando-a como vocação de serviço ao Reino de Deus. Neuza Silveira de Souza reflete sobre quatro importantes pontos, no artigo O ministério da catequista: o mandato dos discípulos e discípulas, feito por Jesus, a fim de que evangelizassem; a catequese na missão evangelizadora da Igreja; o ministério da Palavra, como indispensável ao ministério dos sacramentos; e, por fim, quem é a(o) catequista. Conclui a reflexão, Solange Maria do Carmo, com o artigo Reconhecimento tardio, no qual, de forma teologicamente crítica, aponta pontos positivos e os riscos pastorais da instituição da catequese como ministério.

Boa leitura!

*Felipe Magalhães Francisco é teólogo e professor. Coordena os especiais de religião deste portal. É co-autor do livro Teologia no século 21: novos contextos e fronteiras (Saber Criativo, 2020). E-mail: felipe.mfrancisco.teologia@gmail.com.



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