Religião

14/05/2021 | domtotal.com

O múnus de ensinar da catequese como ecoar da fé

Quando a catequese se orienta mais para os sacramentos que para o seguimento de Jesus, muitas pessoas acabam abandonando a comunidade

Ser catequista não é uma profissão, um serviço na comunidade de fé, mas uma vocação, porque envolve a vida
Ser catequista não é uma profissão, um serviço na comunidade de fé, mas uma vocação, porque envolve a vida (Unsplash/Gabriella Clare Marino)

Rodrigo Ferreira da Costa*

Fazer discípulos (as) do Reino. Compartilhar a outrem "o que vimos e ouvimos" (cf. 1 Jo 1, 1-3). Anunciar a toda criatura a experiência de fé vivida junto ao Mestre. Colocar-se como companheiro (a) de jornada na longa peregrinação da fé. Evangelizar... Eis a tarefa principal da Igreja. Como dizia São Paulo: "ai de mim se eu não anunciar o evangelho" (1 Cor 8,15). Isso porque "os cristãos não nascem, se fazem" (Tertuliano). Quando a Igreja, portanto, dedica suas forças em atividades diversas e se esquece da evangelização, Ela, na verdade, está traindo a sua missão primeira recebida do seu Mestre. Como afirma a Documento de Aparecida, "isso constitui grande desafio que questiona a fundo a maneira como estamos educando na fé e como estamos alimentando a experiência cristã; desafio que devemos encarar com decisão, coragem e criatividade, visto que em muitas partes a iniciação cristã tem sido pobre e fragmentada. Ou educamos na fé, colocando as pessoas realmente em contato com Jesus Cristo e convidando-as para segui-lo, ou não cumpriremos nossa missão evangelizadora" (DAp. n. 287).

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Que a catequese deva ser a prioridade permanente da Igreja não há dúvidas. Há que se perguntar, porém, o como fazer: quais meios, linguagens, métodos utilizar para que o processo de transmissão da fé não se transforme numa "imposição" de verdades e doutrinas desconectadas da experiência vital dos homens e mulheres de cada época. Como se trata de apresentar o caminho da fé por meio do anúncio do querigma e de acompanhar o processo de crescimento e amadurecimento da pessoa no seu fazer-se cristão, pode-se confundir facilmente a catequese com uma espécie de "escolarização". Porém, a fé cristã não é uma ideologia. Jesus Cristo não é uma teoria que se aprende nos livros. A Igreja não é uma mera instituição com regras e doutrinas. O catequista não é um professor da fé, mas alguém que guarda e alimenta a memória do Deus vivo e encarnado e, com o testemunho e o anúncio, sabe despertá-la nos outros.

Sendo a catequese a urgência primeira da Igreja, precisamos nos libertar de alguns equívocos que ao longo dos anos parecem sondar a nossa catequese. O primeiro é o de pensar a catequese como um "cursinho" de preparação imediata para os sacramentos. Quando a catequese se orienta mais para os sacramentos que para o seguimento de Jesus, muitas pessoas acabam abandonando a comunidade logo após receberem os sacramentos, porque não fizeram a experiência pessoal com Jesus. Outro grande equívoco é o de transformar a catequese numa espécie de "escolarização" ou "doutrinação" da fé, na qual se apresenta uma "teoria" sobre Deus, suas verdades e decretos, mas não mostra o rosto misericordioso de Jesus e o seu projeto de Reino de Deus. Como nos recorda o Diretório para a Catequese, "evangelizar não significa prioritariamente 'levar uma doutrina'; significa sim fazer presente e anunciar Jesus Cristo" (DC, 2020, n. 29).

Outro desafio da catequese é a tentação de "terceirizar" a evangelização aos ministros ordenados ou a alguns membros da comunidade. Como nos recorda o papa Francisco, "cada um dos batizados, independentemente da própria função na Igreja e do grau de instrução da sua fé é um sujeito ativo de evangelização, e seria inapropriado pensar num esquema de evangelização realizado por agentes qualificados enquanto o resto do povo fiel seria apenas receptor das suas ações" (EG, n. 120). Somos todos catequistas!

Neste sentido, ser catequista não é uma profissão, um serviço na comunidade de fé, mas uma vocação, porque envolve a vida; o catequista leva ao encontro com Jesus, com palavras, vida e testemunho.  Como nos recorda o papa Francisco em sua Mensagem ao 2º Congresso Internacional de Catequese (22/09/2018): "o catequista não é um professor que dá uma aula. A catequese não é uma aula, mas a comunicação de uma experiência e o testemunho de uma fé que abrasa os corações, porque desperta o desejo de encontrar Cristo. Este anúncio feito de vários modos e com diferentes linguagens é sempre o 'primeiro' que o catequista é chamado a realizar! Não se deve antepor a lei, mesmo aquela moral, ao anúncio tangível do amor e da misericórdia de Deus. Do mesmo modo, não se pode presumir impor a verdade da fé, mas comunicá-la com carinho, paciência e amizade. Somente assim a catequese se torna promoção da vida cristã, apoio na formação global dos crentes e incentivo para serem discípulos missionários".

Para superarmos esses equívocos em nossa evangelização, precisamos urgentemente de uma catequese que esteja orientada para o seguimento de Jesus e para a vida cristã. Uma catequese empenhada em fazer discípulos (as) missionários (as) de Jesus (cf. Mt 28, 19-20), num processo dinâmico de configuração com Jesus que ajude o (a) catequizando (a) a adquirir o modus vivendi (o modo de viver) de Cristo e a assumir com alegria e gratuidade a missão da Igreja. "Uma proposta catequética que não sabe se harmonizar com as demais ações da pastoral corre o risco de se apresentar com uma teoria certamente correta, mas pouco relevante para a vida, se esforçando assim para efetivamente manifestar a bondade do Evangelho para as pessoas do nosso tempo" (DC, 2020, n. 303).

O papa Francisco em sua exortação apostólica Evangelii Gaudium (n.165) fala de algumas características do anúncio do evangelho que hoje são necessárias em toda parte: "que exprima o amor salvífico de Deus como prévio à obrigação moral e religiosa; que não imponha a verdade mas faça apelo à liberdade, que seja pautado pela alegria, o estímulo, a vitalidade e uma integridade harmoniosa que não reduza a pregação a poucas doutrinas, por vezes mais filosóficas que evangélicas. Isso exige do evangelizador certas atitudes que ajudam a acolher melhor o anúncio: proximidade, abertura ao diálogo, paciência, acolhimento cordial que não condena". Essas características do anúncio do evangelho fazem com que a catequese esteja centrada no querigma e seja uma verdadeira iniciação mistagógica.

Isso exige catequistas mistagógicos (as), que conduzam ao mistério, que façam ecoar a fé nos ouvidos e nos corações, que sejam companheiros (as) de estrada na peregrinação da fé, que sejam capazes de escutar e acolher a realidade concreta de seus catequizandos (as)... Do contrário, formaremos mestres e doutores, mas não discípulos (as) missionários (as) de Jesus. Isso porque uma fé católica reduzida a conhecimento, a um elenco de normas e de proibições, a práticas de devoção fragmentadas, a adesões seletivas e parciais das verdades da fé, a uma participação ocasional em alguns sacramentos, à repetição de princípios doutrinais, a moralismos brandos ou crispados que não convertem a vida dos batizados, que não os leva a fazer a experiência pessoal com Jesus Cristo, ou seja, a tornar-se discípulo (a) do Mestre, não resistiria aos embates do tempo (cf. DAp. n.12). Neste sentido, o lugar da catequese não é o banco de uma escola, mas Altar da liturgia, a comunidade de fé e a vida concreta do povo de Deus. 

Que sejamos, pois, catequistas do povo: guardiões da memória da fé, anunciadores da alegria do Evangelho; testemunhas de uma Igreja terna e solidária que comunica com os seus filhos e filhas na proximidade maternal, assim como foi o grande catequista, Jesus de Nazaré.

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Catequista do Povo

L. & M. Pe. Rodrigo, SDN

Eu sou catequista do povo/ com fé e esperança, alegria e amor/ eu vou anunciar o evangelho, na vida e na lida, falar do Senhor! (bis)

A alegria da Boa Nova/com os irmãos eu quero viver//Anunciar a Palavra de Deus/, com ternura de mãe, escutar, acolher//.

Na vida de comunidade/ precisamos perseverar//viver o amor-doação/, numa Igreja em saída, vou testemunhar//.

Catequistas vamos unir/ fé e vida, trabalho, oração//, a nossa missão é urgente/ tem choro, tem cruz/, tem ressurreição//.

*Pe. Rodrigo, SDN é licenciado em Filosofia, bacharel em Teologia, com especialização em formação para Seminários e Casa de Formação. Atualmente é pároco da Paróquia de Santa Luzia – Arquidiocese de Teresina-Piauí.



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