Religião

14/05/2021 | domtotal.com

Reconhecimento tardio

A iniciativa de Francisco de instituir o exercício dos catequistas como um ministério se mostra uma faca de dois gumes

Iniciativa de Francisco será inócua se não vier acompanhada de apurada formação dos catequistas, incentivo financeiro para o exercício da catequese e compreensão ampliada do ministério catequético para além da preparação para a recepção dos sacramentos
Iniciativa de Francisco será inócua se não vier acompanhada de apurada formação dos catequistas, incentivo financeiro para o exercício da catequese e compreensão ampliada do ministério catequético para além da preparação para a recepção dos sacramentos (Vatican News)

Solange Maria do Carmo*

Contra a centralização dos ministérios nas mãos dos presbíteros temos bem mais que o argumento que Jesus de Nazaré e seus apóstolos eram leigos e não receberam o sacramento da ordem. Um pouco de conhecimento bíblico e uma boa eclesiologia são suficientes para desmontar o modelo piramidal de Igreja que hoje ainda vigora, apesar de todos os avanços. E essa não é uma afirmação de esquerdistas, marxistas, comunistas e coisa e tal. O próprio Código de Direito Canônico, de 1983, nos cânones 331; 333,3; 1404; 1372, atesta que a Igreja tem organização monárquica.

O conhecimento bíblico ajuda a perceber que, nas origens, coexistiram vários modelos de organização eclesial, com grande diversidade ministerial: anciãos ou presbíteros e diáconos, bispos e diáconos, mestres e doutores; pastores e profetas etc. Tudo isso sem falar no feminino: lideranças em cuja casa se reuniam as comunidades, como Maria mãe de João Marcos (At 12,12); discípulas como Maria Madalena (Lc 8,1-3), confundida com a mulher adúltera de Jo 8,1-11; diaconisas como Febe (Rm 16,1), profetizas como as filhas de Felipe (At 21,9) etc. a quem os ministérios hoje são negados simplesmente pelo fato de serem mulheres.

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Uma boa eclesiologia faz ver que esse modelo piramidal, de uma Igreja hierarquicamente perfeita, não se ajusta ao tempo atual e muito menos se coaduna com o pensamento do Vaticano II, que privilegia a imagem eclesial Povo de Deus. Além dessas imagens de Igreja, outras possibilidades vêm ganhando espaço como o reconhecimento da Igreja como Templo do Espírito, que não recusa certa organização inclusive a instituição de ministérios, mas que certamente se mostra mais leve sob a ação do Espírito.

A redução dos múltiplos ministérios em um único modelo piramidal e monárquico, estabelecido a partir dos três graus do ministério ordenado – diáconos, presbíteros e epíscopos –, empobreceu a Igreja e favoreceu o aparecimento de um iceberg cuja ponta visível é o clericalismo, hoje tão combatido pelo papa. Chamado por Francisco de "câncer que está aleijando o mundo católico", o clericalismo vem sendo enfrentado com grandes gestos e pequenas decisões do bispo de Roma. 

Francisco é o papa dos gestos proféticos e escandalosos: na sua primeira manifestação pública, curvou-se para receber as bênçãos do povo; depois, dispensou indumentárias que poderiam simbolizar poder e distingui-lo como um monarca; passou a comer com os funcionários e tem sido um verdadeiro lavador de pés dos pobres mostrando que, no seguimento de Jesus, poder é serviço.

Além de gestos significativos, o papa dos pobres tem tomado pequenas decisões que fazem os católicos esperançarem. Iniciativas como retomar os estudos sobre o diaconato das mulheres, que fora interrompido no século 5º, e recuperar a discussão sobre a ordenação de homens casados, excluídos do ministério ordenado depois do Sínodo de Elvira (295-302), são alguns vagalumes em meio à névoa machista e clerical que se instalou na Igreja.

Sua mais recente iniciativa foi instituir o ministério dos catequistas pelo motu proprio Antiquum ministerium. A decisão causou isso e reboliço. Houve entusiasmo da parte de uns, como se essa decisão implicasse em grandes mudanças, enquanto outros passaram a resmungar pelos cantos, descontentes com o sumo pontífice, que parece "querer acabar com a Igreja", dizem eles.

A iniciativa de Francisco de reconhecer o trabalho pastoral dos catequistas como um ministério vem tarde. São milhares de anos em que se mantiveram praticamente no anonimato, sem qualquer reconhecimento dos ministros ordenados e da comunidade eclesial. Fora raras exceções, o trabalho da catequese não goza do apoio necessário dos párocos. Primeiro são chamados para o serviço de catequizar num toque de caixa, com um convite mal feito e apelativo nas missas dominicais. Depois, sem material e sem acompanhamento formativo, os catequistas – qual cegos em tiroteio – correm para lá e para cá, sob granadas de reclamações de pais, padrinhos e outros cristãos, cujo consumismo sacramental lhes dá o direito de exigir que seus filhos sejam batizados, recebam a primeira eucaristia e sejam crismados. Chegamos ao cúmulo de o catequista pagar para trabalhar. Porque a paróquia tem dinheiro para comprar bons carros e boas casas mas não para investir no trabalho evangelizador, os catequistas tiram do próprio bolso o necessário para fazer a catequese acontecer. Compram lápis, cartolinas, lápis de cor, fitas adesivas, velas, flores e tantos outros materiais para dinamizar com atividades lúdicas e orantes os encontros catequéticos. Quando pleiteiam uma formação específica, logo escutam do ministro ordenado o mantra conhecido: "Podem trazer quem quiserem para dar curso para vocês, mas não temos dinheiro para bancar a formação". Sedentos de conhecimento e de espiritualidade, os catequistas se mobilizam fazendo bazar, rifas e bingos para arrecadar fundos que possibilitem realizar encontros, estudos, momentos de oração e festa. Triste realidade!

Além de causar polêmica, a iniciativa de Francisco de instituir o exercício dos catequistas como um ministério se mostra uma faca de dois gumes. Por um lado, é com alegria que a maioria dos catequistas recebe o reconhecimento de sua ação apostólica da parte do bispo de Roma. Além disso, fica claramente dita por Francisco sua preocupação com a tarefa evangelizadora da Igreja, o que ajuda a enfraquecer a pastoral sacramentalista e favorece uma pastoral mais missionária. Tudo isso traz esperança e faz arder os corações daqueles que não medem esforços para anunciar o evangelho.

Por outro lado, a iniciativa do papa causa preocupação a alguns. A instituição do ministério dos catequistas seria uma descentralização do ministério ordenado ou uma clericalização dos leigos? A mesma pergunta já foi feita acerca do diaconato permanente, atribuído a homens casados. E a resposta não é simples. Conhecendo bem os trâmites internos da instituição-igreja, não duvidamos que o tiro saia pela culatra e que a boa intenção do papa se torne não só ineficaz como perigosa. Se é intolerável a centralização de poder nas mãos dos presbíteros, também nefasta é a formação do chamado super-leigo, aquele cristão que se acha mais sábio e mais atuante que todos os outros servidores do Reino.

Essas figuras não são incomuns nas paróquias. Aqui e ali elas dão as caras. Recordo-me de certa vez que fui a uma paróquia dar um curso para os catequistas. Lá pelas tantas, um jovenzinho de 18 anos sacou um Catecismo da Igreja Católica da cintura e me ameaçou de excomunhão, sob a suspeita de falar heresia e espalhar um cisma. Meus quarenta anos de serviço à Igreja, sendo dez anos de estudos teológicos, quinze anos de docência no curso de teologia em duas ótimas instituições, mais uma coleção de catequese com dez livros publicados por editora reconhecida e uma porção de artigos escritos sobre catequese, tudo isso não valia nada diante da pseudo-ortodoxia do catequista recém-chegado. Sentindo-se um super-leigo mais católico que o papa, achou-se no direito de me enfrentar e de questionar minha formação. Receio que a instituição do ministério do catequista venha a dar "asas a essas cobras", avalizando a ignorância dos bem intencionados e despreparados catequistas para o serviço da Igreja.

Somos gratos ao papa Francisco por essa iniciativa, mas ela será inócua se não vier acompanhada de apurada formação dos catequistas, do incentivo financeiro para o exercício da catequese e da compreensão ampliada do ministério catequético para além da preparação para a recepção dos sacramentos. Estaríamos clericalizando os catequistas ao conferir-lhes um ministério sem o investimento teológico necessário para que desempenhem bem sua função. E a emenda pode ficar pior que o soneto. Esperamos que não. Torcemos para que a instituição desse ministério traga aos catequistas o reconhecimento do que realmente são: discípulos e missionários de Cristo.

Por fim, nunca é muito lembrar nossos pais na fé. Recordo dom Luciano Mendes, com quem tive a graça de conviver na arquidiocese de Mariana. Certa vez, em assembleia diocesana, os leigos insistiam, contra a oposição de uns presbíteros, que deveria ser "legislada" a formação laical, de modo que nenhum pároco pudesse se esquivar desse compromisso. Em meio ao impasse, mais sábio que Salomão, o bispo dos pobres disse: "Meus filhos, acalmem-se. Vão e façam a formação! A Igreja é velha e pesada, difícil de aceitar mudanças. Então, a história ensina: primeiro o povo vive; depois a instituição, resignada, legisla". É o caso da instituição do ministério dos catequistas: Francisco, com o motu próprio, apenas legisla o que já existe. Ainda que tardio o reconhecimento, a gente se alegra.

*Solange Maria do Carmo, graduada, mestre e doutora em Teologia pela FAJE. professora do ISTA e da PUC Minas.



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