Brasil Política

18/05/2021 | domtotal.com

Bolsonaro só sinalizou comprar vacina da Pfizer em fevereiro, diz Ernesto Araújo

Informação do ex-ministro confirma depoimento dado pelo gerente da farmacêutica

Ex-ministro falou por 7 horas na CPI da Covid
Ex-ministro falou por 7 horas na CPI da Covid (Leopoldo Silva/Agência Senado)

Depois de se contradizer em relação às demandas do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) na pandemia, o ex-chanceler Ernesto Araújo disse nesta terça-feira (18), em depoimento à CPI da Covid, que nas reuniões ministeriais dais quais participou a compra de vacinas não era discutida especificamente. A exceção foi o encontro que ocorreu em fevereiro ou março deste ano, quando se teria debatido o contato de Bolsonaro com a Pfizer.

"Com exceção em março ou fim de fevereiro onde se decidiu que o presidente faria contato com presidente da Pfizer para obtenção da vacina da Pfizer. Foi reunião onde o presidente disse 'sim, quero falar com o presidente da Pfizer'", relatou Araújo, que depôs por sete horas.

Os senadores Alessandro Vieira (Cidadania-SE) e Randolfe Rodrigues (Rede-AP) destacaram a demora do assunto vir à tona nas reuniões ministeriais, lembrando que a farmacêutica enviou carta a Bolsonaro em setembro do ano passado falando de uma oferta feita ao Ministério da Saúde que continuava sem resposta.

"Em diferentes reuniões ministeriais, surgiu o tema da covid. O presidente falava das preocupações com a pandemia, diferentes aspectos, inclusive aspecto econômico, de saúde, vacinas, mas orientações específicas para atuação do Itamaraty, negociações, vinham do Ministério da Saúde", disse Araújo.

O ex-chanceler ainda rejeitou o entendimento de que agressões feitas pelo presidente Jair Bolsonaro a outras nações teriam prejudicado as relações externas do Brasil. A questão foi colocada pelo senador Alessandro Vieira. Para Araújo, os prejuízos à imagem do País no exterior são resultado de interpretações internas "equivocadas" que procuram "criar imagem de ameaça à democracia no Brasil".

"Também de que haveria política de afrontamento aos direitos humanos, que é falso, e que haveria uma política deliberada de destruição ambiental. Isso com base em interpretações equivocadas que conduziram a um problema de imagem no exterior, e não falas do presidente da República", completou Araújo, segundo quem a pandemia tem sido usada em alguns casos como pretexto para que se ataque as liberdades no Brasil e no mundo.

Vieira também questionou o ex-chanceler sobre uma afirmação feita em janeiro deste ano, de que "a biopolítica do 'fique em casa' talvez esteja ajudando o narcotráfico". "Estou falando do pretexto da pandemia para determinadas atitudes do controle social. Pudemos observar, aconteceu em alguns lugares do Brasil, durante a pandemia houve aumento de criminalidade. Pretexto do uso da pandemia para cercear determinadas atividades de combate ao crime, me parece que isso esteve presente", respondeu Araújo, que esteve à frente do Ministério das Relações Exteriores até março deste ano.

Responsabilidade da Saúde

Apesar da defesa das ações do governo federal durante a pandemia da Covid-19, o testemunho do ex-ministro das Relações Exteriores foi marcado pelo apontamento repetidas vezes, de que as ações do Itamaraty estiveram vinculadas às orientações do Ministério da Saúde. Na avaliação de membros da comissão, as falas devem complicar a situação do ex-ministro Eduardo Pazuello cujo depoimento ao órgão está previsto para esta quarta-feira (19).

Entre os pontos levantados por Araújo e que devem servir de base para os questionamentos a Pazuello está a letargia do governo brasileiro em conseguir acesso a insumos para conter a grave crise sanitária registrada em Manaus (AM) no início deste ano.

Araújo também descartou que durante sua gestão no ministério tenha havido dificuldades nas negociações com a China em razão de qualquer hostilidade dirigida ao país oriental. O ex-ministro das Relações Exteriores também negou que os atrasos para importação de insumos ao Brasil vindos da China aconteçam por razões políticas. No início do mês, o presidente Jair Bolsonaro insinuou que o coronavírus tenha surgido como parte de uma "guerra química".

Araújo voltou a defender o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) com relação à discussão entre o parlamentar e o embaixador da China no Brasil, Yang Wanming, afirmando que o embaixador chinês teria cometido uma grande ofensa diplomática ao compartilhar uma publicação dizendo "a família Bolsonaro é o veneno deste país".

Kátia Abreu

Oex-chanceler também se negou - a pedido de senadores que participaram da oitiva - a pedir desculpas à senadora Kátia Abreu (PP-TO) por tê-la acusado de atuar a favor de suposto lobby chinês pelo 5G. Katia, que durante pouco mais de 20 minutos de fala fez diversas críticas a gestão de Araújo no Ministério das Relações Exteriores.

A senadora o acusou, inclusive, de ter uma memória seletiva: "Não se lembra de nada do que importa, mas se lembra de questões mínimas e supérfluas e até mesmo não verdadeiras", disse ela ao ex-ministro.

Ernesto negou a existência de uma conselho paralelo ao Ministério da Saúde que orientasse o presidente Bolsonaro com as ações referentes a gestão da crise sanitária no País, e afirmou que a não informou Bolsonaro sobre a carta enviada pela Pfizer ao governo por pressupor que o presidente já tivesse conhecimento da documento.

Em seu testemunho, Araújo também afirmou que a Casa Branca procurou "discretamente" as representações brasileiras em Washington (EUA) para a "alocação de doses excedentes" de vacinas contra a Covid-19. O motivo da discrição, segundo Araújo era para evitar "uma discussão mundial" sobre os países que poderiam receber ou não os imunizantes.


Agência Estado/DomTotal



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