Religião

20/05/2021 | domtotal.com

O Ano Inaciano e os Exercícios Espirituais

Experiência espiritual inaciana busca despertar para o serviço de restaurar todas as coisas em Cristo

O livro dos Exercícios Espirituais de Inácio de Loyola em latim
O livro dos Exercícios Espirituais de Inácio de Loyola em latim (Doug Coldwell/Wikimedia)

Thadeu da Silva Souza, SJ*

Em 20 de maio de 1521, enquanto defendia Pamplona contra a invasão de franceses, o cavaleiro Iñigo López de Oñaz y Loyola foi atingido por uma bala de canhão que, além de partir sua perna direita, deixou ferida a esquerda. Socorrido pelos próprios inimigos, ele passou os meses seguintes em convalescência no castelo de seu irmão. Por meio da experiência de leitura de livros oferecidos pela sua cunhada, a saber, obras sobre a vida de santos e o Vita Christi, de Ludolfo de Saxônia, Iñigo iniciou uma longa e laboriosa jornada de conversão. Esse percurso foi construído por caminhadas ao interior, ao aventurar-se pelos movimentos da alma ou pelas "moções" conforme a mística antiga, e por peregrinações exteriores motivadas pelo desejo de servir a Deus. Essas duas dinâmicas configuraram-se como meios para que o cavaleiro, antes dado as honras mundanas, a busca de riquezas, de fama e poder, se tornasse agora um humilde peregrino, empenhado em experimentar à Deus para descobrir ou discernir sobre a Divina Vontade, até certa altura exclamar: "Eu começaria a ver todas as coisas novas em Cristo". Ainda, nesse processo humano-espiritual que chamamos "jornada de conversão" de Inácio de Loyola, foram gestadas suas duas maiores contribuições à Igreja e ao mundo: os Exercícios Espirituais e a Companhia de Jesus.

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Pela força dos expressivos acontecimentos globais ocorridos nos últimos anos, como é o caso da pandemia de Covid-19, o mundo está passando por transformações extremamente aceleradas e complexas, que acabam por afetar negativamente a vida de toda a população mundial, mas, principalmente, a vida dos empobrecidos. Esse novo tempo do mundo interpela a Companhia de Jesus e a obriga a retornar às origens do processo de conversão de Inácio para renovar o vigor interior e discernir sobre caminhos apostólicos mais eficazes de serviço aos demais segundo a vontade de Deus. Portanto, por ocasião dos 500 anos do ocorrido em Pamplona, quisera o superior geral dos jesuítas, padre. Arturo Sosa, SJ, convocar todo o corpo apostólico da Companhia de Jesus, bem como todos os homens e mulheres que compartilham da espiritualidade inaciana, para celebrar mundialmente o Ano Inaciano, a fim de que todos descubram "novo entusiasmo interior e apostólico, uma nova vida e novos caminhos para seguir o Senhor".

Para tanto, em sua carta convocatória, o superior geral indica que "Santo Inácio não é o centro deste Ano Inaciano, mas é o meio através do qual necessitamos ir a Cristo. Cristo deve estar sempre no centro". De fato, o evento da "bala de canhão" tem relevância na conversão de Inácio de Loyola na medida em que é meio para o início de uma jornada marcada várias vezes pela experiência do peregrino com Jesus Cristo. Iluminado por elas, o peregrino discernia e escolhia os meios mais divinos e eficazes de serviço aos demais. Os Exercícios Espirituais nasceram dessas experiências de Inácio com Cristo e de seu modo de discernir a partir delas e contém uma série de indicações escritas por ele, para que experiências semelhantes sejam alcançadas por outras pessoas. Portanto, o objetivo do Ano Inaciano pressupõe o aprofundamento dos Exercícios Espirituais. A seguir apresentaremos brevemente alguns pontos do itinerário humano-espiritual dos exercícios inacianos, escritos a partir do testemunho de experiências vividas por muitas pessoas ou exercitantes. Dada a variedade de experiências, adotamos apenas um contorno lógico. Nenhuma reflexão, por melhor que se pretenda, consegue abarcar o modo com que Deus fala às suas criaturas, como outrora à Inácio de Loyola. 

Os Exercícios Espirituais colaboram com um processo de imersão da pessoa na própria interioridade, isto é, eles desencadeiam um movimento de descida do exercitante em seu espaço interior mais íntimo onde reinam o Eterno e Infinito Bem, Verdade e Amor. Portanto, a pessoa inteira é mobilizada para ocupar esse espaço onde Deus habita em nós. Existe em nosso íntimo uma espécie de lugar para a própria Trindade, não apenas como pensamento ou ideia a seu respeito. Sobre esta realidade interior, São Tomás de Aquino afirmar que "pela graça santificante, toda Trindade passa a morar na alma" – per gratiam gratum facientem tota Trinatis inhabitat mentem (STI, Q43, A5). De modo semelhante, Santo Agostinho fala sobre sua experiência com Deus afirmando "tu estavas mais dentro de mim do que a minha parte mais íntima" – intimior intimo meo intimior meipso (Confissões, III, 6, 11). A liturgia antiga traduziu esse espaço no belo refrão: "Ubi caritas et amor, Deus ibi est" – Onde reinam a caridade e o amor Deus aí está.

A partir desse espaço humano-divino, a pessoa é convidada a tomar consciência de seus próprios dons. Por exemplo, alguns se realizam como artistas ou intelectuais, pesquisadores ou professores, agricultores ou jardineiros, outros no serviço à justiça, no desenvolvimento científico e tecnológico. Desse modo, se experimenta que todos os dons procedem dos atributos divinos do Bem, da Verdade e do Amor, ou seja, que todos eles encontram sua potência em Deus e se tornam ato na vida por meio do cuidado e do trabalho de muitas outras pessoas, como familiares, amigos, professores etc. Assim, se manifesta na existência do exercitante, o Deus que nunca deixou de criar o ser humano por meio de dons. Santo Inácio, na oração do Princípio e Fundamento, a primeira dos Exercícios Espirituais, escreve, logo na primeira frase, que "O ser humano é criado para louvar, reverenciar e servir a Deus Nosso Senhor e mediante isto salvar sua alma" [EE 23]. Sobre essa frase, observe o leitor que "O ser humano é criado...", com o verbo no presente. Portanto, Deus não apenas criou o ser humano, mas continua a cria-lo ininterruptamente – creatio continua. Ele sustenta a existência das criaturas através dos séculos em todos os lugares.

Nesse sentido, o trabalho criador de Deus acontece em colaboração com o ser humano. Nos Exercícios Espirituais inacianos, o exercitante toma consciência de que o Criador quis precisar do ser humano para dar continuidade e sustentar a criação, de modo que a pessoa se une mais a Deus na medida em que se coloca a trabalhar com o Criador por meio de seus próprios dons. A pessoa trabalha com Deus quando faz com que os atributos divinos do Bem, da Verdade e do Amor, que estão como "escondidos" no outro sejam levados a realidade que tendem, ou seja, quando faz com que esses atributos sejam transformados em dons que dão vida aos demais. Conforme Santo Inácio, no livreto dos Exercícios, "o amor é comunicação de ambas as partes. Isto é, quem ama dá e comunica o que tem ou pode a quem ama. Por sua vez, quem é amado dá e comunica ao que ama. De modo que, se um tem ciência, ou honras ou riquezas, dá ao que não as tem. E assim mutuamente" [EE 231]. Por isso, na dinâmica dos Exercícios Espirituais, apesar da imersão na própria interioridade, o exercitante assume não apenas a sua existência, mas também a responsabilidade para com o sustento da existência de outros. 

O pecado surge quando o ser humano rompe sua relação de trabalho com Deus e, consequentemente, com sua responsabilidade para com a vida do outro. Aflora-se uma tendência contrária à intenção primeira da vocação universal à vida que se efetiva na realização de seus próprios dons e, ao mesmo tempo, na ajuda aos outros em sua realização integral. A própria criatura inicia um processo de criação autocentrada ou egóica. O que outrora estava por ser criado, agora pretende ser como Deus. Nesse sentido, o padre João Batista Libânio, SJ, em seu livro Ética do cotidiano, afirma que, no nível do pecado "regemos a orquestra da vida segundo a partitura de nossos interesses, desejos e sonhos. Moldamos a realidade à nossa imagem e semelhança. Entramos no palácio dos espelhos em que nossa própria figura se multiplica ao infinito. Tudo começa e termina em nós mesmos. Reina o indivíduo sobre a pessoa, o próprio sobre o alheio" (p.118). O indivíduo se torna ídolo de si mesmo e se sacrifica para sustentar sua própria imagem. Para afastar cada vez mais os outros, com medo de que percebam sua "insuficiência", ele passa a transmitir o ódio e a morte. O pecador não colabora com Deus na criação, mas na proliferação do mal, na destruição e na morte de si e dos outros.

Nessa perspectiva, no âmbito dos Exercícios Espirituais, nasce a consciência do pecado e o exercitante é convidado a, diante de Nosso Senhor e Criador, sentir dor e mágoa pelo mal que fez a si e aos outros. Contudo, no mais profundo desse momento, ele é motivado a mergulhar no Eterno e Infinito Amor que o resgata do desespero da situação de morte. São João da Cruz, ao falar sobre as causas por que passa a alma pela experiência da "noite escura" até chegar à união com Deus diz que, "o que ordinariamente sucede no meio das grandes trevas para a alma, quando este temor de Deus está perfeito, perfeito também está o amor e então faz-se a transformação da alma pelo amor" (Subida do Monte Carmelo, Livro I, Cap. III).

A transformação da alma acontece pela experiência com a misericórdia de Deus, por meio do encontro com a pessoa de Jesus Cristo, através da meditação e contemplação das Sagradas Escrituras. Em Jesus, o movimento colaborativo entre Deus e o homem na creatio continua é revelado em seu modo de acolher o pecador, redimi-lo e presenteá-lo com uma existência renovada porque novamente ligada a Deus. O abraço misericordioso de Jesus liga novamente a pessoa à relação com os outros e, portanto, com a vida que vem de Deus. Toma-se impulso uma segunda sensação: a esperança. É possível existir de outro modo, com uma renovada lógica de vida "arrancando de si, quanto possível, o amor de todas as criaturas para pôr no Criador delas..." (Constituição SJ, n.288). O grande desafio é manter-se unido cada vez mais a Deus, no seguimento de Jesus, isto é, na adoção de Seu modo de proceder. Ser para e com os outros no Amor. Nas orações se pede a graça de conhecer ao Senhor intimamente "para que eu mais o ame e o siga" (EE 104). Ao assumir a provocação de ser como Jesus, identificar-se com Ele, o exercitante é provado até a cruz, cume da conflitividade gerada pela própria missão do Filho de Deus. Na morte de Jesus Cristo, a missão de Nosso Senhor, se torna a missão daquele que fez a experiência do seu seguimento.

No itinerário dos Exercícios Espirituais, o exercitante é motivado a participar da alegria, do gozo e da glória do Ressuscitado (EE 48,221,229). A ressurreição é, ao mesmo tempo, do crucificado e de sua missão que, pela potência do Paráclito, se efetiva no trabalho dos discípulos depois do evento pascal e agora no trabalho poiético do próprio exercitante.  Os vínculos criados por Jesus para alimentar os seres humanos de vida foram mais fortes do que a morte. Quem morre fica vivo na transmissão de vida que corre nos vínculos que colaborou em construir. Pouco tempo antes do seu martírio, Santo Oscar Romero expressou com eloquência: "Se me matarem ressuscitarei na vida do meu povo". O seguimento de Jesus dá à vida um sentido que é maior do que a própria vida a saber, dar vida aos outros.

Os exercícios inacianos são concluídos no sabor das alegrias pascais. O exercitante encontra-se novamente com Deus, Nosso Criador, no espaço interior onde a Trindade habita em nós. Contudo, a relação com Deus se dá em um movimento diferente. No início dos Exercícios Espirituais, o exercitante toma consciência de que todos os dons são presentes de Deus – kenosis. No decorrer do itinerário, busca identificá-los ao modo de proceder do Filho encarnado, à sua missão, morte de cruz e ressureição – práxis. Por fim, em ação de graças, os oferece novamente a Deus para que Ele mesmo disponha deles segundo a vossa divina vontade – doxa [EE 234]. Essa experiência busca despertar o exercitante para trabalhar no divino serviço de restaurar todas as coisas em Cristo para a maior glória de Deus.

*Thadeu da Silva Souza é jesuíta, possui graduação em filosofia pelo Centro Universitário da Fundação Educacional Guaxupé (UNIFEG) e mestrado em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo (UMESP). Em 2020 desenvolveu pesquisas no programa de pós-graduação em filosofia da Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE), em Belo Horizonte. Atualmente trabalha no Colégio São Luís, em São Paulo.



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