Religião

20/05/2021 | domtotal.com

Nos 500 anos da conversão de seu fundador, jesuítas celebram Ano Inaciano

A explosão de uma bala de canhão estremeceu o mundo

Papa Francisco visita os delegados da Congregação Geral 36 dos jesuítas
Papa Francisco visita os delegados da Congregação Geral 36 dos jesuítas (GC36 Communications)

Gilmar Pereira*

Santo Inácio não era militar; os jesuítas ainda existem; sua compreensão da relação jesuítas-indígenas provavelmente está defasada historicamente; a ordem não guarda nenhum segredo que só eles sabem; o apelido de "papa negro" para o superior geral da Companhia de Jesus não tem nada de obscuro ou oculto; o carisma inaciano não se reduz à missão educacional. Espero não ter esquecido os principais clichês quando se fala dos jesuítas. Ah! E se você for muito igrejeiro, mais católico que o papa, saiba que eles não estão querendo acabar com a Igreja.

Tudo começa com uma bala de canhão em 20 de maio de 1521, cujo estilhaço atinge a perna de Iñigo de Loyola, um nobre cavaleiro (portanto, não militar), durante o cerco de Pamplona. Antônio Anderson Rabelo Costa SJ, no texto Afinal, quem é Inácio de Loyola?, detalha melhor essa história. Mas o fato é que esse é o ponto de partida de sua conversão. Estamos numa época que ainda não havia internet para a distração, nem morfina para aliviar as dores atrozes das cirurgias às quais o jovem basco precisou passar – ou quis, já que a segunda se deu por razões estéticas (o osso sobrando não lhe permitia calçar as botas justas e elegantes de cano alto, o que urgia quebrar novamente a perna recém recuperada, sofrendo ainda mais). Livros piedosos lhe foram dados na convalescência, ao invés dos romances de cavalaria que alimentavam seus sonhos de conquista que agora naufragavam.

Foi deste modo que esse fracasso (ao menos assim aparentava) se tornou, para aquele jovem, caminho de descoberta da vida interior e da pessoa de Jesus Cristo. Durante sua recuperação, começou a cultivar um novo olhar, cuja claridade maior se dá num momento paradigmático às margens do rio Cardoner, quando, após um processo profundamente ascético, passa a ver novas todas as coisas em Cristo. Uma mudança que se expressa, posteriormente, até na adoção do nome Ignacio, por ser mais universal, sinal de um coração que queria incendiar o mundo inteiro com o mesmo ardor a que se tinha inflamado, um fogo que ascende outros fogos. E por ver de maneira nova, buscou mostrar essa novidade a outros, que mais adiante a ele se juntaram, formando um grupamento de servidores da missão de Cristo, uma sociedade cujo trabalho seria apostólico, a Companhia de Jesus. Carlos César Barbosa SJ escreve explanando melhor esse aspecto da Companhia de Jesus como legado inaciano em seu artigo.

O que querem Inácio e a Companhia de Jesus? Ver fulgurar no mundo a luz do Cristo que contemplam na experiência da oração, querem ver brilhar a maior glória de Deus. Entretanto, como diz Santo Irineu, "a glória de Deus é o ser humano vivo". Por isso os jesuítas buscarão tudo aquilo que manifesta mais vida, que a promova em abundância. Essa plenificação humana em Cristo se chama salvação e é ela que é buscada como missão quando enveredam na educação, nas ciências, nas artes, no trabalho social etc. Em tudo buscam a promoção da vida humana, a maior glória de Deus, mas fazendo no espírito de Jesus, isto é, amando e servindo. Por isso a missão dos jesuítas pode ser qualquer uma, só não poderá ser uma qualquer. Há sempre algo a mais, seu agir é marcado pelo magis.

É justamente aí que mora o perigo inaciano, mais explosivo que aquela bala de canhão. Os jesuítas não são diferenciados por uma prática que só eles fazem, por uma missão específica, veste ou oração. Também não serão homogêneos, como quem busca aplicar uma mesma medida para o mundo inteiro. O magis que almejam varia conforme as circunstâncias, tempos e lugares, o que lhes exige constante discernimento. Rompem, assim, com a esfera da lei e entram na da graça. Por isso seu método de oração, os Exercícios Espirituais, ajuda-lhes a encontrar a vontade de Deus em todas as coisas, tornando sua missão extremamente livre em relação aos formalismos ou regras culturalmente estabelecidas e fazendo-a profundamente criativa. Thadeu da Silva Souza SJ aprofunda a dimensão dessa metodologia de oração no texto O Ano Inaciano e os Exercícios Espirituais. A liberdade criativa inaciana não é mero invencionismo ou ruptura com a Tradição, mas sua atualização dinâmica, um reconhecer perene da novidade do Cristo.

Isso deixa muita gente confusa, porque não dá para entender fácil essa experiência e esse olhar sem vivenciá-la. Dizem que se você perguntar algo a dois jesuítas, voltará com pelo menos três opiniões e uma vasta bibliografia para aprofundar o tema – e formular você próprio a sua visão. Isso passa por coisa simples desde seu modo de vestir. Qual é o hábito ou roupa dos jesuítas? A do clero honesto do lugar onde estão. Então poderão vestir-se como mandarins na China ou iogues na Índia; com batina ou camiseta e calça jeans. Tudo isso é contingente, só Cristo é essencial. Na comemoração dos 500 anos da conversão de Inácio, a Companhia quer difundir de maneira ainda mais vívida o seu modo de proceder, através de um ano repleto de atividades sob o lema "Ver novas todas as coisas em Cristo".

Neste 20 de maio começa o Ano Inaciano, que envolverá não só jesuítas, mas também os colaboradores leigos, congregações de inspiração inaciana e as instituições jesuítas. No Brasil, vários colégios, museus, universidades, paróquias, centros sociais e de pesquisa, plataformas de comunicação e muito mais se unem nesse apelo de rememorar a origem de tudo isso e cultivar a conversão do olhar. Depois daquela bala de canhão, deu-se início uma caminhada de quase meio milênio que começara com um peregrino que era louco por Jesus Cristo. Acesse: http://www.anoinacioano.org.br/

*Gilmar Pereira é doutorando em Mídia e Cotidiano e está em formação como psicanalista. Mestre em Comunicação e Semiótica, bacharel e licenciado em Filosofia, bacharel em Teologia, também possui formação em Fotografia. É responsável pela editoria de Religião do portal Dom Total, onde também é colunista. Atua como palestrante, com grande experiência no campo religioso, tem ministrado diversos minicursos nas áreas de Filosofia, Teologia e Comunicação. Possui experiência como professor de Filosofia e Sociologia e como mestre de cerimônia. Leciona oratória na Dom Helder Escola de Direito.



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