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25/05/2021 | domtotal.com

Halston: Cidadão Kane da moda

Da excentricidade à soberba, do desbunde à dêbàcle

Cena de Halston, minissérie de cinco episódios da Netflix
Cena de Halston, minissérie de cinco episódios da Netflix Foto (Atsushi Nishijima/ Netflix)

Alexis Parrot*

Excessivo, sofisticado, brilhante, afetado, visionário, atormentado, mago do marketing e do RP, gênio do design... a lista poderia prosseguir durante dias ou semanas. Adjetivos não faltam para (tentar) definir Halston, o estilista que praticamente inventou a haute couture versão Estados Unidos e cuja vida superlativa é o mote para a minissérie recém-estreada na Netflix. 

O designer de chapéus residente da opulenta loja de departamentos novaiorquina Bergdorf Goodman virou assunto nacional após Jackie Kennedy usar uma de suas criações (um chapéu pillbox) na posse presidencial do marido JFK. Da noite para o dia o nome do jovem estilista foi catapultado ao estrelato e nunca mais abandonou as manchetes. 

A história de Halston é daquelas caras à mítica do sonho americano. O menino de origem humilde do centro-oeste dos EUA que conquista o mundo com seu talento e tino comercial é a encarnação viva da fábula do self made man, pedra de toque do imaginário capitalista e argumento inarredável daqueles que dividem o mundo entre winners e losers.

Em um dos inúmeros deliciosos diálogos da série, quando Halston é lembrado por um colarinho branco do mundo corporativo que ele é de Indiana, a resposta indignada vem imediatamente: "eu FUI de Indiana!" Perguntado certa vez sobre a infância por um repórter de televisão, respondeu secamente que o passado não o interessava. Em seguida, deu por terminada a entrevista, virou as costas e saiu.

Em outra entrevista, quando divulgava a associação de seu nome com a rede popular de lojas de departamentos JC Penney, fez um retrospecto e dividiu sua carreira em três etapas: primeiro, vestiu as milionárias; depois, as estrelas; e a partir daquele momento vestiria a América.  

Esta capacidade de se reinventar a cada novo passo e a sede de avançar constantemente talvez entreguem pistas do método que o levou ao sucesso - além de revelar uma autoconfiança inabalável. Sua trajetória não pode ser comparada a uma estrada, mas a uma escada - galgada com sofreguidão e o olhar sempre fixo no próximo degrau. Ser cada vez maior parecia ser sua compulsão.    

Para Liza Minelli, amiga da vida inteira e que se vestia apenas de Halston, suas roupas dançavam com quem as usava. Porém, o talento inegável acabou sufocado pelo ego e o perfeccionismo deu lugar aos delírios de grandeza. Foi da excentricidade à soberba; da ambição à intransigência; do desbunde à débâcle; do tormento à tragédia - com escalas turbulentas, potencializadas pelas drogas e um relacionamento abusivo.

Ainda que as cenas de flashback relativas à infância do protagonista soem algo piegas (como, invariavelmente, soam cenas desse tipo) narrativamente, a minissérie é tão impecável quanto a reprodução de arte e de época. É impressionante a fidelidade com que foram reconstruídos os ambientes pelos quais Halston circulou (como a casa do Upper East Side em Manhattan, ou o escritório espelhado na Olympic Tower).

Apesar de um ou outro acontecimento ter se deslocado dentro da cronologia original e uma malfadada excursão de prospecção de negócios à China ter sido deixada de lado, o único pecado dramático cometido pelos roteiristas é a simplificação da complexa relação entre Halston e seu último gerente corporativo, Carl Epstein.

A demonização do executivo transforma o epílogo da carreira do estilista em uma historinha maniqueísta, fabricando um embate primário entre comércio e arte. Esta dicotomia não corresponde ao modus operandi de Halston e, de certa forma, contraria seu próprio legado.

Por outro lado, assistir ao elenco em ação é como estar sentado na primeira fila das passarelas da semana da moda de Paris. Ewan McGregor, que não deixa de me impressionar a cada novo trabalho desde a primeira vez que o vi em Trainspotting, parece estar em um parque de diversões. Com material tão rico e colorido, tão distante de si, seria mesmo uma lástima não se divertir. Lástima maior ainda teria sido dar a tarefa para um ator menor, que não se entregasse de corpo e alma ao personagem. O escocês já pode guardar na estante de casa um lugar para estatuetas do Emmy e Globo de Ouro, pelo menos.  

A escolha de McGregor para o papel é mais um ponto de exclamação na tradição de realizadores norte-americanos importarem atores britânicos para interpretar grandes ícones dos EUA, quando o oposto é raro de acontecer. (Anthony Hopkins já foi Nixon, Bob Hoskins foi J. Edgar Hoover, Daniel Day Lewis foi Lincoln e Alfred Molina encarnou o Dr. Octopus na trilogia original do Homem Aranha, por exemplo. A grande exceção à regra é Meryl Streep, vivendo Margareth Tatcher em A dama de ferro.)  

De um lado a outro do Atlântico, o que permanece comum é o gosto por histórias épicas. O percurso de Halston lembra Cidadão Kane, o homem incomum que sai do nada e constrói um império apenas para descobrir que encerra a vida completamente despossuído. Personagens como eles são a prova do sonho americano, mas também de sua impossibilidade. Ecoam ainda Fausto pelo que carregam de humano, e portanto, trágico. 

Halston, a minissérie, deve ser entendida, antes de tudo, como mais uma peça do ambicioso projeto político do produtor Ryan Murphy de recontar a história dos EUA a partir do ponto de vista LGBTQ. Quer seja no plano da fantasia, com a estética gótica de American Horror History e Ratched; com o ativismo trans de Pose; na teatralização de excertos da vida de ídolos da comunidade, como Versace, Bette Davis e Joan Crawford ou por meio da elegia à diversidade de Glee.

Mas nem tudo é política. Delicadeza das delicadezas, são memoráveis as três cenas em que o estilista se encontra com a perfumista encarregada em orientá-lo na construção do perfume que levará o seu nome (Vera Farmiga em participação mais que especial).

Apesar de cercado de espelhos, é apenas nesta hora que o personagem consegue baixar a guarda e olhar para si mesmo. Como que testemunhando uma sessão de psicanálise, entendemos, junto com ele, a essência de que era feito.

Para o Kane do mundo fashion, o botão de rosa era uma orquídea.

(HALSTON - minissérie em cinco episódios disponível na Netflix)

*Alexis Parrot é crítico de TV, roteirista e jornalista. Escreve às terças-feiras para o DOM TOTAL.

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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