Brasil Política

29/05/2021 | domtotal.com

De olho em 2022, Lula já se movimenta para tentar reconquistar eleitorado de centro

Lula, que não perdeu nada do seu carisma, ainda não se declarou candidato, mas está costurando alianças com dirigentes que lhe deram as costas e adversários tradicionais

'Não tenham medo de mim. Eu sou radical porque quero chegar à raiz dos problemas neste país', ironizou Lula
'Não tenham medo de mim. Eu sou radical porque quero chegar à raiz dos problemas neste país', ironizou Lula Foto (Sergio Lima/AFP)
Homem instala outdoor em apoio ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva no Rio de Janeiro, em 29 de abril de 2021
Homem instala outdoor em apoio ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva no Rio de Janeiro, em 29 de abril de 2021 Foto (Mauro Pimentel/AFP)

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, aos 75 anos, tem uma longa lista de vitórias improváveis e poderia somar mais uma: reconquistar o centro político brasileiro para derrotar Jair Bolsonaro em 2022.

Um desafio difícil até mesmo para o líder da esquerda, que quando criança foi engraxate e chegou a ser o presidente mais popular da história do Brasil (2003-2010), antes de ser condenado por denúncias de corrupção que lhe renderam em 2018 um ano e meio de prisão.

Lula, que não perdeu nada do seu carisma, ainda não se declarou candidato, mas está costurando alianças com dirigentes que lhe deram as costas e adversários tradicionais, como seu antecessor social-democrata Fernando Henrique Cardoso (1995-2002).

Embora ainda falte muito para as eleições de outubro de 2022, as pesquisas apontam para uma definição entre o fundador do Partido dos Trabalhadores (PT) e o ex-capitão da ultradireita, de 66 anos, no segundo turno.

Isso significa que a batalha pela liderança da maior economia latino-americana seria definida pelo terço do eleitorado resistente a votar em qualquer um dos dois. E para Lula representa recuperar parte da classe média e das elites empresariais que castigaram o PT escolhendo Bolsonaro em 2018.

O ex-líder sindical, que no final dos anos 1970 liderou as greves dos metalúrgicos contra a ditadura militar (1964-85), nunca deu sinais de perder o norte, nem mesmo quando foi condenado pela operação Lava Jato, que investigou um esquema de desvios na Petrobras.

E assim como em 2022, quando chegou à Presidência em sua quarta tentativa, ele quer fazer valer a imagem de moderado.

"Lula é uma criatura versátil que teve idas e voltas nas últimas décadas: da extrema esquerda nos anos 1980 à aliança com os conservadores com um perfil de centro nos anos 2000", disse o analista político Oliver Stuenkel, da Fundação Getúlio Vargas. "Agora está de novo no modo 'governo', posicionando-se claramente como alguém de centro", acrescentou.

'Lulinha paz e amor'

Lula recuperou seus direitos políticos em março, quando o ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal, anulou as condenações contra ele por considerar incompetente a 13ª Vara Federal de Curitiba, que havia proferido a sentença, para julgá-lo.

Rapidamente, voltou à cena política em tom de campanha, criticando duramente Bolsonaro, cuja popularidade vem derretendo por causa da gestão da pandemia, que já deixou mais de 450 mil mortos e 14 milhões de desempregados. "Não tenham medo de mim. Eu sou radical porque quero chegar à raiz dos problemas neste país", ironizou Lula, em resposta a seus críticos.

Em visita de cinco dias a Brasília, ele se reuniu este mês com políticos e diplomatas. De volta a São Paulo, almoçou com Fernando Henrique Cardoso, que o derrotou em duas eleições presidenciais antes de lhe passar a faixa. Lula publicou uma foto dos dois usando máscaras e saudando-se com um toque de punhos.

"O que ele está começando a fazer é o que se faz na política: começando as costuras para ver as possibilidades, conversando com os partidos, sentindo qual é a demanda de cada um", disse ao jornal Valor o senador Jaques Wagner (PT-BA). Até agora parece estar se saindo bem.

"No que diz respeito às elites políticas, já temos resultados imediatos. Essa sinalização do Lula foi recepcionada por líderes de vários partidos - PSD, MDB e mesmo por lideranças de partidos menores -, que deram declarações relativamente elogiosas, ou pelo menos cordiais, a Lula", disse Mayra Goulart, professora de Ciência Política da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Seu tom se assemelha ao de 2002, quando disse que o "Lulinha quer paz e amor". De fato, seu governo teve um tom moderado, misturando políticas pró-mercado com programas para combater a pobreza. Quando transmitiu a Presidência à sua sucessora, Dilma Rousseff, sua popularidade beirava os 80%.

Alguém na terceira via?

Muitos eleitores queriam uma alternativa de centro, que parece pouco provável. As pesquisas indicam que 30% poderiam se abster ou votar em branco ou nulo, como em 2018; e que Bolsonaro e Lula teriam 25% dos votos cada um.

"Qualquer candidato de centro terá muitas dificuldades para chegar a um segundo turno", concluiu a consultoria Eurasia Group. Aspirantes não faltam: governadores, empresários, o apresentador de TV Luciano Huck, o ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta e até o ex-juiz Sérgio Moro, que mandou Lula para a prisão, aparecem na lista.

Mas nenhum tem uma projeção nacional em um país de dimensões continentais e 212 milhões de habitantes. Enquanto isso, Lula continua articulando sua volta também no exterior, tomando como referência o presidente americano, Joe Biden, que derrotou Donald Trump, o modelo de Bolsonaro, e dando entrevistas a veículos nas Américas e na Europa.


AFP/Dom Total



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