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01/06/2021 | domtotal.com

Um roadmap para o setor de energia global

A visão da Agência Internacional de Energia para 2050

O mundo tem um caminho viável para construir um setor de energia global com emissões líquidas zero em 2050
O mundo tem um caminho viável para construir um setor de energia global com emissões líquidas zero em 2050 (Unsplash/Zbynek Burival)

Jose Antonio de Sousa Neto*

Este breve texto é um sumário do relatório Net zero by 2050 – A roadmap for the global energy sector elaborado pela Agência Internacional de Energia (IEA) e publicado neste ano de 2021. Com uma visão do que deve ser feito e dos desafios e riscos a serem enfrentados ao longo dos próximos 30 anos pelo setor energético, o diretor geral da IEA, doutor Fatih Birol, sintetiza o que temos pela frente:

"Estamos nos aproximando de um momento decisivo para os esforços internacionais no enfrentamento da crise climática – um grande desafio do nosso tempo. O número de países que se comprometeram a atingir emissões líquidas zero até meados do século ou logo depois continua a crescer, mas o mesmo acontece com as emissões globais de gases de efeito estufa. Essa lacuna entre a retórica e a ação precisa ser eliminada se quisermos ter uma chance de alcançar o zero líquido (Net Zero) até 2050 e limitar o aumento das temperaturas globais a 1,5° C. Fazer isso requer nada menos que uma transformação total dos sistemas de energia que sustentam nossas economias".

Neste contexto este relatório especial da IEA apresenta sete princípios chave / essenciais para que a meta de Net Zero (emissões líquidas zero) possam ser implementadas de forma efetiva.  A ideia é estabelecer um roteiro / caminho para as próximas três décadas que possa ajudar a cobrir a lacuna atual entre a retórica e a realidade sobre as emissões. De forma pragmática e realista a análise se concentrou no tecnicamente mais viável e no econômico e socialmente aceitável. Mesmo assim, como aponta o diretor da agência, "esse caminho continua estreito e extremamente desafiador, exigindo que todas as partes interessadas – governos, empresas, investidores e cidadãos – tomem medidas este ano e todos os anos depois para que a meta não saia do alcance."

 

Um princípio orientador do roteiro que é proposto é que as transições para uma energia mais limpa devem ser justas e inclusivas, não deixando ninguém para trás. É absolutamente necessário que as economias em desenvolvimento recebam o financiamento e o know-how tecnológico de que precisam para continuar a construir seus sistemas de energia para atender às necessidades de suas populações e economias em expansão de forma sustentável. Neste sentido é um imperativo moral e ético levar eletricidade a centenas de milhões de pessoas que atualmente não têm acesso a ela, sobretudo nas regiões em desenvolvimento mais pobres do planeta. Mas é importante reconhecer que não existe uma abordagem única para todas as transições de energia limpa. Os planos precisam refletir os diferentes estágios de desenvolvimento econômico dos países.

Como aponta o relatório "o setor de energia é a fonte de cerca de três quartos das emissões de gases de efeito estufa e hoje e detém a chave para evitar os piores efeitos das mudanças climáticas, talvez o maior desafio que a humanidade enfrentou." E este desafio requer que todos os governos fortaleçam significativamente e, em seguida, implementem com sucesso suas políticas de energia e clima. Os compromissos assumidos até agora estão muito aquém do que é exigido por esse caminho. Por outro lado, o número de países que se comprometeram a atingir emissões líquidas zero têm crescido rapidamente nos últimos anos e se aproxima de dois terços das emissões globais de CO2. O Brasil é um dos países que tem se comprometido com o alcance destas metas, embora não esteja entre as nações que mais contribuem para o aquecimento global.

Como aponta o relatório o caminho para as emissões Net Zero é relativamente estreito e permanecer nele requer implantação imediata e massiva de todas as tecnologias de energia limpa e eficiente disponíveis. Obviamente a inovação permanece como um elemento chave desta grande empreitada e novas tecnologias e mesmo tecnologias experimentais (por exemplo, fusão tokmak e energia nuclear) não são excludentes em relação ao pragmatismo das tecnologias já disponíveis. Mais do que nunca o capital intelectual que é o pilar da economia do conhecimento e elemento basilar da inovação permanece como fundamental para esta transição.

Também como aponta o diretor da IEA, "as tecnologias de energia renovável cada vez mais baratas dão à eletricidade uma vantagem na corrida para o zero. Nossa trajetória exige um aumento da energia solar e eólica rapidamente nesta década, atingindo adições anuais de 630 gigawatts (GW) de energia solar fotovoltaica (PV) e 390 GW de energia eólica até 2030, quatro vezes os níveis recordes estabelecidos em 2020. isso é equivalente a instalar o maior parque solar atual do mundo quase todos os dias. A energia hidrelétrica e a nuclear, as duas maiores fontes de eletricidade de baixo carbono hoje, fornecem uma base essencial para as transições. À medida que o setor elétrico se torna mais limpo, a eletrificação surge como uma ferramenta crucial em toda a economia para reduzir as emissões. Os veículos elétricos (VEs) passam de cerca de 5% das vendas globais de automóveis para mais de 60% em 2030".

As Sete Ações Prioritárias apontadas no relatório da IEA

1)  Fazer desta década a década de expansão massiva de energia limpa

Todas as tecnologias necessárias para alcançar os cortes profundos necessários nas emissões globais até o final desta década já existem e as políticas que podem orientar sua implantação já foram comprovadas. Chegar a Net Zero até 2050 exige uma implantação rápida e adicional das tecnologias disponíveis, bem como o uso generalizado de tecnologias que ainda não estão no mercado. As maiores oportunidades de inovação dizem respeito a baterias avançadas, eletrolisadores de hidrogênio e captura e armazenamento direto de emissões de CO2. A inovação nos próximos dez anos – não apenas por meio de pesquisa e desenvolvimento (P&D) e demonstração, mas também por meio da implantação – precisa ser acompanhada pela construção em grande escala da infraestrutura de que as tecnologias precisarão. Isso inclui novos dutos para o transporte de emissões de CO2 capturadas e sistemas para mover o hidrogênio entre portos e zonas industriais.

2) Preparação para a próxima fase da transição, impulsionando a inovação

A inovação em energia limpa deve acelerar rapidamente, com os governos colocando P&D, demonstração e implantação no cerne da política energética e climática. Os gastos do governo com P&D precisam ser aumentados e priorizados novamente. Áreas críticas como eletrificação, hidrogênio, bioenergia e captura, utilização e armazenamento de carbono (CCUS) hoje recebem apenas cerca de um terço do nível de financiamento público de P&D das tecnologias mais estabelecidas de geração de eletricidade de baixo carbono e eficiência energética.

3) Os empregos de energia mais limpa crescerão fortemente, mas devem ser amplamente divulgados

As transições de energia devem levar em consideração os impactos sociais e econômicos sobre indivíduos e comunidades, e tratar as pessoas como participantes ativos. A transição para o zero líquido traz novas oportunidades substanciais de emprego, com a potencial criação de 14 milhões de empregos nos próximos 10 anos. Gastar com eletrodomésticos mais eficientes, veículos elétricos e de células de combustível e reformas de edifícios e construção com eficiência energética poderá exigir mais 16 milhões de trabalhadores.

Um ponto muito interessante do relatório se refere ainda ao fato de que no caminho Net Zero, a demanda global de energia para daqui a 30 anos é cerca de 8% menor do que é hoje, mas deverá atender a uma economia mais do que duas vezes maior e a uma população com 2 bilhões de pessoas a mais. "O uso mais eficiente da energia, a eficiência dos recursos e as mudanças comportamentais se combinam para compensar os aumentos na demanda por serviços de energia à medida que a economia mundial cresce e o acesso à energia é estendido a todos".

As emissões da indústria, transporte e edifícios demoram mais para serem reduzidas. A redução das emissões da indústria em 95% nos próximos 30 anos envolve grandes esforços para construir uma nova infraestrutura. Após o rápido progresso da inovação por meio de P&D, demonstração e implantação inicial entre agora e 2030 para trazer novas tecnologias limpas ao mercado, o mundo deve colocá-las em ação.

4) Definir marcos de curto prazo para entrar no caminho para as metas de longo prazo

Os governos precisam fornecer planos passo a passo confiáveis para alcançar suas metas Net zero, construção de confiança entre investidores, indústria, cidadãos e outros países. Neste sentido a disfuncionalidade das instituições pode ser uma barreira enorme. A segurança jurídica é um pilar essencial. O signaling  de que o rule of law não prevalece corrói o próprio sistema que permite o consenso político e afasta os investimentos tanto de origem local como de origem internacional.

Também muito interessante é que não há necessidade de investimento em novo suprimento de combustível fóssil no caminho proposto para o Net Zero. Além dos projetos já comprometidos em 2021, não há novos campos de petróleo e gás aprovados para desenvolvimento neste caminho, e não são necessárias novas minas de carvão ou extensões de minas. O Brasil precisa ficar atento a isso, sobretudo no peso da indústria de óleo e gás no portfolio de seus investimentos prioritários e na visão de sua matriz energética e ações para geração de riqueza econômica ao longo das próximas décadas.

5) Impulsionar um aumento histórico no investimento em energia limpa

Como aponta o relatório da IEA, "as políticas precisam ser elaboradas para enviar sinais de mercado que desbloqueiem novos modelos de negócios e mobilizem os gastos privados, especialmente nas economias emergentes. A entrega acelerada de financiamento público internacional será fundamental para as transições de energia, especialmente nas economias em desenvolvimento, mas, em última análise, o setor privado precisará financiar a maior parte do investimento extra necessário. A mobilização do capital para infraestrutura em grande escala exige uma cooperação mais estreita entre desenvolvedores, investidores, instituições financeiras públicas e governos. Reduzir os riscos para os investidores será essencial para garantir transições de energia limpa bem-sucedidas e acessíveis".

O investimento projetado total anual em energia chega a US$ 5 trilhões até 2030, acrescentando um valor extra 0,4 ponto percentual ao ano para o crescimento anual do PIB global. Surgem naturalmente novas preocupações com a segurança energética e as antigas permanecem. Evidentemente o caminho não é o da desmobilização de uma hora para outra da matriz existente. A transição precisa ser muito bem planejada no contexto das especificidades de cada país. A contração da produção de petróleo e gás natural terá implicações de longo alcance para todos os países e empresas que produzem esses combustíveis. O Brasil inclusive. A transição energética requer quantidades substanciais de minerais críticos, e seu suprimento surge como uma área de crescimento significativo. O tamanho total do mercado de minerais críticos como cobre, cobalto, manganês e vários metais de terras raras cresce quase sete vezes entre 2020 e 2030 no caminho do Net Zero. Mais uma vez nosso país pode desempenhar aqui um papel de grande importância.

6) Abordar os riscos emergentes de segurança energética desde já

Brevemente comentamos sobre isso no item 5 acima. "O foco da segurança energética evoluirá à medida que a dependência da eletricidade renovável aumenta e o papel do petróleo e do gás diminui. As vulnerabilidades potenciais da crescente importância da eletricidade incluem a variabilidade do fornecimento e os riscos de segurança cibernética. Os governos precisam criar mercados para investimento em baterias, soluções digitais e redes de eletricidade que recompensem a flexibilidade e possibilitem o fornecimento adequado e confiável de eletricidade. A crescente dependência de minerais essenciais necessários para as principais tecnologias de energia limpa exige novos mecanismos internacionais para garantir a disponibilidade oportuna de suprimentos e a produção sustentável. Ao mesmo tempo, a energia tradicional as preocupações com a segurança não desaparecerão, pois a produção de petróleo se tornará mais concentrada".

7) Levar a cooperação internacional a novos patamares

Isso não é simplesmente uma questão de todos os governos que buscam reduzir suas emissões nacionais para o Net Zero. Significa enfrentar os desafios globais por meio de ações coordenadas. Os governos devem trabalhar juntos de maneira eficaz e mutuamente benéfica para implementar medidas coerentes que cruzem as fronteiras. Isso inclui o gerenciamento cuidadoso da criação de empregos domésticos e vantagens comerciais locais com a necessidade global coletiva para implantação de tecnologia de energia limpa. A questão de uma governança global está longe de ser fácil.  Se o fosse organismos como a ONU, a OEA, a OMC e várias outras seriam muita mais efetivas. Provavelmente um caminho pragmático virá dos próprios mercados financeiros apoiados e dirigidos por legislação local e internacional ligado às questões ESG. Por outro lado, a cooperação deve reconhecer as diferenças nos estágios de desenvolvimento dos diferentes países e nas diferentes situações das diferentes partes da sociedade. Como o relatório da IEA aponta, "para muitos países em desenvolvimento, o caminho para chegar a zero líquido sem assistência internacional não é claro. É necessário suporte técnico e financeiro para garantir a implantação das principais tecnologias e infraestrutura. Sem uma maior cooperação internacional, as emissões globais de CO2 não cairão para Net Zero em 2050".

Finalmente, para finalizarmos nossa reflexão, é importante mencionar ainda um evento muito relevante que aconteceu na última quarta-feira dia 26 do mês de maio de 2021. Um tribunal holandês determinou que a gigante do petróleo Shell deve cortar as emissões de carbono em 45% até 2030 em um caso/marco histórico. A decisão chega em um momento em que os maiores emissores corporativos do mundo estão sob imensa pressão para definir metas de emissões de curto, médio e longo prazo que sejam consistentes com o Acordo de Paris. Embora a decisão seja polêmica sob o ponto de vista empresarial, econômico financeiro, tecnológico e de mercado e a empresa já tenha comunicado que vai recorrer, a própria empresa também reconhece a importância deste direcionamento. É um precedente que chama a atenção de todos em um contexto global.

Vejam caros leitores, que todos os temas aqui abordados são em seu conjunto bastante complexos e que os desafios são enormes. Mas tudo isso precisa ser feito. As oportunidades para o desenvolvimento econômico e social são extremamente importantes. O Brasil não só não pode perder este bonde da história, como tem a chance e condições de participar de iniciativas importantes e até lidera-las em conjunto com outros países.

*Professor da EMGE (Escola de Engenharia e Ciência da Computação)

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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