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01/06/2021 | domtotal.com

Mare of Easttown: subterrâneos da violência

Crime e mediocridade na vida provinciana

Kate Winslet em cena da primeira temporada de Mare of Easttown
Kate Winslet em cena da primeira temporada de Mare of Easttown (Divulgação/HBO)

Alexis Parrot*

A vida aparentemente calma de uma cidadezinha da Pennsylvania é sacudida após um bárbaro assassinato, um ano depois de um desaparecimento sem pistas e sem solução à vista. O lugar é cinzento e frio, como as relações entre seus moradores – gente que se conhece desde sempre, mas longe de poder ser considerada uma "comunidade". A regra ali parece ser cada um por si e contra o resto, com todos julgando-se mutuamente no que tudo indica ser o esporte favorito da cidade.   

A detetive encarregada da investigação dos dois crimes é brilhante, porém, a dedicação ao trabalho é a desculpa perfeita para evitar os próprios demônios. Está tentando parar de fumar e não economiza na cerveja quando encerra o expediente e se recolhe ao lar pouco aconchegante. Este, ainda é dividido com uma família que poderia facilmente ilustrar o verbete "ressentimento" em qualquer bom dicionário. 

Este é o tabuleiro por onde percorre a narrativa de Mare of Easttown, atração da HBO cujo sétimo e último episódio foi ao ar no domingo passado. Ainda que a trama policial seja o fio condutor da minissérie, resumi-la a isso seria enganoso. Tanto sinopse quanto cenário são depressivos mas retratam apenas o que se percebe à primeira vista. O pior ainda está por vir, quando tudo que é subterrâneo vem à tona, destrutivo como um vulcão em erupção.

Talvez por carregar intrinsecamente um caráter de imobilismo, a vida provinciana é retratada como uma instituição onde a violência e suas inúmeras formas de expressão assumem papel de instância mediadora. De mãos dadas com a mentira e a dissimulação, acaba servindo de espada e armadura no infrutífero combate contra a mediocridade. Em desesperada busca de algum sentido para viver, é justamente na morte que tropeçam os moradores de Easttown.

Desestabilizada, a cidade e sua essência são expostas e cabe à tão competente quanto mau-humorada policial Mare lutar para que se encontre novamente algum equilíbrio. Já vimos essa história antes (David Lynch marcou época com Twin Peaks e Broadchurch transformou Olivia Colman em celebridade) e também já vimos um sem número de vezes este personagem. Se é assim, o que torna a minissérie tão memorável?

Em primeiro lugar, só a presença de Kate Winslet já vale a assinatura da HBO. O sucesso intergalático do Titanic rendeu à atriz, além do Oscar, um outro status para a carreira. Depois que o barco foi a pique, cresceu exponencialmente seu poder de escolher papéis e interferir nas produções, desembocando nesta Mare of Easttown, a primeira experiência como produtora executiva.

Trata-se de um papel geralmente escrito para homens, o detetive atormentado em busca de algum tipo de redenção. Mais que sinal dos tempos, a escolha de centrar o roteiro em uma mulher é uma mensagem clara para a indústria do audiovisual, apontando para um real protagonismo feminino diante e por trás das câmeras.

Seguindo a mesma trilha, nada mais justo do que oferecer à personagem um bom ator (Guy Pearce) para preencher apenas o papel genérico de interesse amoroso, invertendo os gêneros do que comumente nos oferecem filmes e programas de TV dos EUA.

Depois, há que se louvar o conjunto do elenco, com atores e atrizes impecáveis interpretando com alma o precioso texto criado por Brad Ingelsby. A relação de Mare com a mãe, a história familiar das duas e o torvelinho de sentimentos entre elas (ora de ternura, ora de agressividade) são apresentados e dissecados por meio de conversas saborosas, à altura dos diálogos entre Tony Soprano e sua mamma psicopata. A direção, apesar de meramente competente, porque se abstém de atrapalhar o elenco já merece algum crédito. É mesmo no roteiro que se encontra a grande força do programa.  

Da mesma forma como se costuma esconder as verduras debaixo da carne no prato dos pequenos, temas como família, maternidade e casamento (e o peso de cada um desses pilares sociais sobre os ombros da mulher) surgem sub-repticiamente e se impõem frente à trama policial. A resposta ao "quem matou?" virá, mas o que importa mesmo é o raio-X das relações entre os personagens e de como as falhas de cada um se manifestam e interferem na vida coletiva da cidade.

Ao final do percurso, verdadeira odisseia para a detetive, não há moral da história; apenas a chance provável de seguir em frente com um pouco mais de leveza, uma ou outra dúvida dissipada e alguma esperança – o que não é pouco.

*Alexis Parrot é crítico de TV, roteirista e jornalista. Escreve às terças-feiras para o DOM TOTAL.

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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