Brasil

07/06/2021 | domtotal.com

Jacarezinho e a manutenção da ordem social

Massacre foi mais um rito de onde 'limpam-se' favelas para mostrar aos pobres seu lugar

Integrante do Bope patrulha Favela do Jacarezinho, no Rio de Janeiro
Integrante do Bope patrulha Favela do Jacarezinho, no Rio de Janeiro (Christophe Simon/AFP)
DW

Philipp Lichterbeck*

A mulher não quer que seu nome apareça na imprensa. Ela tem medo. Não de criminosos, mas da polícia. Ela é testemunha da operação policial mais mortal da história do Rio de Janeiro, que ocorreu em 6 de maio na comunidade do Jacarezinho e deixou 28 mortos, incluindo um policial.

Há provas claras de que a própria Polícia Civil infringiu a lei na operação, que supostamente ocorreu para fazer cumprir a lei. Houve execuções extrajudiciais. Mas agora não são aqueles que cometeram os crimes de uniforme que estão com medo, e sim as testemunhas que acabaram envolvidas contra sua vontade.

Meu encontro com a testemunha é marcado na casa de uma pastora evangélica no Jacarezinho. Antes de a testemunha chegar, a pastora conta que ela própria viveu uma situação dramática naquele 6 de maio. Um traficante invadiu sua casa durante a operação policial e se escondeu atrás do altar. "Eu o conhecia de vista, ele estava sempre em uma boca de fumo próxima", conta a pastora.

Quando os policiais bateram à sua casa, ela disse que não tinha ninguém ali, e os agentes seguiram caminho. Ela deveria tê-lo denunciado? Em um Estado de direito que funciona, teria sido o correto. Mas no Brasil? A pastora deveria ter visto uma pessoa sendo executada em seu local de oração?

'Nunca me sentirei segura com essa polícia'

Depois de um tempo, chega a testemunha com quem eu tinha combinado. A mulher de 43 anos não vive mais no Jacarezinho. Ela se mudou com seu marido e sua filha alguns dias após a operação policial. Os dois trabalhavam no Jacarezinho, estavam bem enraizados na comunidade e estáveis financeiramente. Eles desistiram de tudo isso. "O medo da polícia é maior que o desafio de recomeçar mais uma vez", diz a testemunha do massacre.

Ela conta que, no dia da operação, um traficante entrou em seu apartamento. Ele estava desarmado, vestindo apenas uma bermuda. O pé dele havia sido baleado, então sangrava muito. O rastro de sangue que ele deixou nos becos da favela acabou levando um policial até o apartamento da família. O agente conseguiu entrar e empurrou a mulher. "Eu disse a ele que havia uma pessoa ferida no apartamento".

O traficante, que tinha 21 anos, como agora se sabe, se escondeu no quarto da filha de 9 anos. Aparentemente ele se deitou na cama e fingiu estar dormindo. O policial, que a testemunha descreve como "endemoniado", entrou no quarto com armas em punho. "Onde está a pistola?", gritou ele, segundo a dona da casa. Depois, ouviram-se tiros.

Tudo isso aconteceu pela manhã, mas o corpo do traficante só foi retirado do quarto da criança à tarde, enrolado em um tapete. Os relatos não apontam outra conclusão a não ser que uma execução ocorreu naquele quarto. "Nunca vou me sentir segura com essa polícia", diz a testemunha.

Gerar medo, em vez de proteger

Muito mais além disso, é perfeitamente claro que as operações policiais como a do Jacarezinho são totalmente inúteis. Quando visitei a favela duas semanas após a operação, não faltavam rapazes fortemente armados nem bocas de fumo bem abastecidas com drogas. O tráfico continua seus negócios como antes.

Então, qual foi o objetivo da operação? A justificativa da Polícia Civil, de que queria proteger os jovens do recrutamento pelo tráfico, não poderia ser mais equivocada. A maioria dos jovens é levada ao tráfico pela falta de perspectivas na favela.

O que a operação conseguiu em vez disso: aumentou ainda mais a desconfiança em relação ao Estado. Vidas de pessoas completamente inocentes foram estilhaçadas. Trabalhadores do comércio que não conseguiram chegar a tempo no trabalho por conta da operação foram demitidos. Pessoas como a testemunha com quem conversei precisaram deixar a comunidade. E em vez de salvar os jovens do tráfico, muitos ficaram traumatizados. A filha de 9 anos da testemunha, em cujo quarto o traficante foi morto, pergunta até hoje o que aconteceu com o rapaz e como ele está.

Uma sociedade que comemora massacres

Naturalmente, operações policiais como a do Jacarezinho também têm a função de satisfazer as classes média e alta do Brasil. Fica-se feliz com cada pobre a menos como um perigo potencial. Existe uma lei não escrita no país que diz que a polícia deve "limpar" as favelas de vez em quando para deixar clara a ordem social. Nas redes sociais e na seção de comentários dos jornais, massacres como o do Jacarezinho são comemorados.

A testemunha segue então me dizendo que os moradores da favela perderam a fé na justiça. Eles são comumente tachados de "bandidos", enquanto a mídia sempre afirma que "vamos averiguar os fato" sobre os criminosos de colarinho branco da Zona Sul do Rio.

A operação policial no Jacarezinho, portanto, foi um dos rituais de um país onde, de vez em quando, se deve mostrar aos desfavorecidos a que lugar eles pertencem. Não se trata de uma questão de lei e ordem, mas de manter uma ordem social.

Como sempre, as execuções do Jacarezinho não terão consequências. O maior massacre em uma operação policial na história do Rio logo será esquecido.

DW

Philipp Lichterbeck queria abrir um novo capítulo em sua vida quando se mudou de Berlim para o Rio, em 2012. Desde então, ele colabora com reportagens sobre o Brasil e demais países da América Latina para jornais na Alemanha, Suíça e Áustria. Ele viaja frequentemente entre Alemanha, Brasil e outros países do continente americano. Siga-o no Twitter em @Lichterbeck_Rio.

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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