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08/06/2021 | domtotal.com

Fatores determinantes do Planejamento Estratégico

Colocar a estratégia em prática é notoriamente difícil. O principal obstáculo para sua execução é o fracasso em equilibrar as tensões inerentes que caracterizam qualquer grande esforço

A execução bem sucedida da estratégia exige orquestração habilidosa, muitas das vezes, de forças opostas e necessidades concorrentes
A execução bem sucedida da estratégia exige orquestração habilidosa, muitas das vezes, de forças opostas e necessidades concorrentes (Scott Graham / Unsplash)

*Mateus de Queiroz Bernardes e José Antônio de Sousa Neto

Neste momento tão peculiar da pandemia causada pelo Covid-19, com profundos impactos sociais e econômicos, os esforços na busca pela superação dos desafios requerem a contribuição da sociedade como um todo. Os governos em todo o mundo têm tido um papel preponderante de liderança, mas o setor privado também tem um papel fundamental, tanto do ponto de vista econômico como do ponto de vista social. Neste contexto de grandes desafios, a capacidade de entender as forças e fraquezas de uma organização, assim como os riscos e oportunidades de seu entorno, é determinante não apenas no sentido de se construir vantagens competitivas, mas para a própria sobrevivência da organização. Tanto para as que têm a finalidade de lucro como para as que não têm.

Colocar a estratégia em prática é notoriamente difícil. O principal obstáculo para execução da estratégia é o fracasso em equilibrar as tensões inerentes que caracterizam qualquer grande esforço de execução. A execução bem sucedida da estratégia exige orquestração habilidosa, muitas das vezes, de forças opostas e necessidades concorrentes. Os responsáveis por essa orquestração do processo de gestão estratégica deverão estar sempre atentos aos fatores afeitos às pessoas, aos grupos, aos componentes do sistema de apoio adotado e ao processo definido para sua condução que podem interferir na execução. Esses deverão ser confrontados com o poder dos responsáveis envolvidos para desencadear e implementar mudanças a par dos riscos envolvidos nas decisões de não os levar em conta nessa implementação.

Uma visão de um "estado final" inspirador é essencial para levar as pessoas ao compromisso de mudar: uma narrativa simples que comenta não só porque a mudança é necessária, mas também como a organização vai estar uma vez que a estratégia é implementada com sucesso. No entanto, as metas assertivas de "meio-estado" também são necessárias para dar direção e desafiar colaboradores para entregar seu máximo esforço. Um "estado final" inspirador sem metas desafiadoras não é ideal. Ao mesmo tempo que as metas desafiadoras sem um "estado final" inspirador leva a questionamentos como "por que estou fazendo isso?".

A preocupação com a implementação do Planejamento Estratégico é uma parte importante da administração estratégica, mas frequentemente descuidada. Pesquisas estimam que 70% das estratégias falham, não por terem sido mal concebidas, mas por terem sido mal executadas. Embora a execução seja condição sine qua non para o sucesso estratégico, implementar a estratégia ainda é uma dificuldade para muitas empresas. É importante não negligenciar as variedades de dificuldades no processo de implementação do Planejamento Estratégico. Tal processo pode provocar conflito de hierarquias e mentalidades, uma tensão entre as visões de curto e longo prazo. Representa também uma transição entre duas visões de mundo, que vão afetar, evidentemente, as ideologias administrativas e as crenças dos seus executores.

Obter um bom planejamento, uma estratégia bem-feita, muitas vezes exige compensações entre a entrega de resultados de curto prazo e implementar mudanças fundamentais, as quais exigem tempo. Fazer o plano funcionar é um obstáculo ainda maior do que propriamente desenhar o plano.  O processo de Planejamento Estratégico é executado no longo prazo, sendo sua utilização de caráter formal, sistemático e complexo, exigindo comprometimento e cooperação incessante da organização. Um desempenho ruim normalmente está relacionado na ausência de vínculos entre a formulação da estratégia e a sua execução. As pessoas responsáveis pela execução dos processos precisam estar conscientes disso para implementá-los de forma válida.

Processo de Planejamento Estratégico (Fonte: Mintzberg, H.; Ahlstrand, B.; Lampel, J. Safári de estratégia: um roteiro pela selva do planejamento estratégico. Porto Alegre: Bookman, 2000)Processo de Planejamento Estratégico (Fonte: Safári de estratégia: um roteiro pela selva do planejamento estratégico. Porto Alegre: Bookman, 2000)Um desafio importante está relacionado às questões culturais e, consequentemente, questões ligadas às pessoas. As organizações devem se concentrar na importância de comprometer e alinhar seus colaboradores com suas estratégias, porque serão eles mesmos os protagonistas na implementação. A participação e o envolvimento dos funcionários são fundamentais para o estabelecimento de uma cultura e um clima organizacional adequado em benefício da produtividade e alcance dos objetivos. Muitas vezes os envolvidos no processo de Planejamento Estratégico focam mais nos próprios interesses e não nas ambições da empresa, ou seja, a relutância em pensar de maneira ampla e global é um dificultador para o alcance dos objetivos estratégicos de uma organização. O elemento humano é preponderante quando se fala de engajamento, motivação, comunicação, liderança e até mesmo cultura ágil. A falta dessas características interfere negativamente no processo de implementação estratégica. O papel do líder no processo é crítico. A falta de participação e engajamento dos colaboradores é a consequência direta da ausência de gerenciamento e liderança.

Passos para execução estratégica  

Autor
Passos para execução estratégica
Mintzberg e Quinn (2001), Lima e Albano (2002), Andrade (2011)
O entendimento de como o desenho da estratégia afeta sua execução
Kotter (2000), Tavares (2000)
A gestão da mudança de forma efetiva, incluindo aquelas culturais
Oliveira (2010), Corrado (1994)
O entendimento do poder e seu uso para o sucesso da execução
Mintzberg e Quinn (2001)
O desenvolvimento de arquiteturas organizacionais que inspirem o compartilhamento das informações
Mintzberg e Quinn (2001), Lima e Albano (2002), Andrade (2011)
A coordenação e uma clara definição de responsabilidades
Kotter   (2000),  Oliveira (2010), Corrado (1994)
O desenvolvimento de controles, a provocação para a adoção de uma cultura de apoio à implementação
Oliveira (2010), Corrado (1994)
Emprego da liderança como forma de patrocínio para a execução

Os gestores de Estratégia possuem dilemas urgentes do dia a dia para resolver e objetivos estratégicos para perseguir. Aqui não temos nenhuma intenção de fazer generalizações, mas apenas de trazer alguns pontos para reflexão. Neste contexto algumas recomendações gerenciais podem ser sugeridas. Estas seriam:

  1. Esforce-se para deixar os papéis claros entre a equipe. É importante ter a divisão de responsabilidade bem alinhada com todos;
  2. Mantenha a motivação e engajamento alto na equipe. No fim, é tudo sobre pessoas. O sucesso depende de altos níveis de colaboração da equipe;
  3. Seja ágil em todas as etapas do Planejamento Estratégico, desde o desenho até a implementação e acompanhamento. As dinâmicas de mercado cada vez mais velozes e competitivas obriga uma nova postura. Erre mais rápido para poder corrigir a tempo;
  4. Invista recursos (tempo, pessoas, dinheiro e energia) em atividades consistentes de comunicação da Estratégia. O líder possui um papel único nesse momento, de inspiração dos seus liderados. Ele deve agir com coerência diante daquilo é falado e feito;
  5. Na dúvida entre o mapa e o terreno, acredite sempre no terreno. Não se apegue friamente no que foi construído no papel, na hora de implementar, confie no que a realidade e o mercado estão de apresentando.

Síntese da recomendações gerenciais

AutorPassos para execução estratégica
Mintzberg e Quinn (2001), Lima e Albano (2002), Andrade (2011)Esforce-se para deixar os papéis claros entre a equipe
Kotter (2000)Mantenha a motivação e engajamento alto na equipe.
Serra (2009)Seja ágil em todas as etapas do Planejamento Estratégico
Oliveira (2010), Corrado (1994)Invista recursos (tempo, pessoas, dinheiro e energia) em atividades consistentes de comunicação da Estratégia
Kotler (1998), Oliveira (2010),Tavares (2010)Na dúvida entre o mapa e o terreno, acredite sempre no terreno

O fato é que na prática, existe uma subutilização do extenso conhecimento desenvolvido pelas pesquisas nesta área e a sua verdadeira utilização pelas organizações. O Planejamento Estratégico mostra-se uma ferramenta gerencial com vários benefícios para a competitividade das organizações, porém em algumas empresas tal fato é ignorado. Isso apesar de que este conhecimento pode ser adquirido com razoável facilidade e de forma ampla. No contexto de crises desafiadoras isto pode ser fatal para as organizações e as consequências sociais e econômicas disso são evidentes.

*Professores da EMGE (Escola de Engenharia e Ciência da Computação)

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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