Religião

08/06/2021 | domtotal.com

Crise de identidade na mídia do Vaticano

Papa estava certo quando expressou frustração pelo departamento de comunicações, mas o fez com as pessoas erradas

Papa toma chimarrão com Jackson Erpen, da redação brasileira do Vatican News
Papa toma chimarrão com Jackson Erpen, da redação brasileira do Vatican News (Vatican Media)

Robert Mickens*
La Croix

Era para ser um dia de celebração das glórias da Rádio Vaticano e do L'Osservatore Romano. Em vez disso, rapidamente se transformou em um pesadelo constrangedor.

Os mais de 300 funcionários do Dicastério para a Comunicação do Vaticano - que inclui rádio, jornal, assessoria de imprensa e o sítio web Vatican News, entre outros - aguardavam ansiosamente palavras de parabéns e encorajamento no dia 24 de maio, quando o papa Francisco fez uma visita de uma hora à sua sede.

Mas o que eles receberam, em vez disso, foi uma repreensão. E não foi nada bonito.

O papa - em uma entrevista de rádio "ao vivo", nada menos! - perguntou-se em voz alta se havia alguém por aí ouvindo a estação de rádio do Vaticano ou lendo seu jornal.

"Quantos ouvem rádio e quantos leem L'Osservatore Romano?" perguntou.

E só piorou a partir daí.

Um velho papa rabugento?

O motivo da sua visita foi para celebrar os 90 anos da Rádio Vaticano e os 160 anos do jornal, mas não mencionou nenhum dos marcos.

Em vez disso, Francisco comparou o caro departamento de multimídia - do qual as duas entidades são componentes essenciais - a uma montanha que dá à luz um rato!

E mais tarde ele basicamente o acusou de ser todo brilho e fulgor, atolado pela burocracia ineficiente - que chamou de mero "funcionalismo".

Francisco estava de mau humor durante a visita e ainda estava irritado várias horas depois, quando deu uma olhada nos bispos italianos que estavam reunidos para sua assembleia plenária no centro de conferências de um grande hotel.

Depois de ser saudado pelos prelados bem-vestidos, disse: "Quando entrei, tive um pensamento desagradável, perdoe-me: esta é uma assembleia de bispos ou um concurso para escolher o bispo mais bonito?".

Então começou a repreendê-los também.

Francisco disse que os bispos devem estar sofrendo de "amnésia" porque "se esqueceram" de seguir as instruções extremamente claras que lhes deu em novembro de 2015 para iniciar um processo sinodal de reforma para a Igreja italiana.

Não é preciso especular muito para descobrir o motivo da frustração do papa com a conferência dos bispos ou com seu próprio departamento de multimídia.

O primeiro é não fazer o que ele pediu. E o segundo, não estar dando os resultados suficientes para seu investimento.

Esses são os problemas reais, certo? Não exatamente.

A questão de cobrir exclusivamente o Vaticano

Deixemos os bispos italianos de lado e nos concentremos exclusivamente no Dicastério para a Comunicação.

Seu número de funcionários parece ser muito grande, mas quando se considera que há cerca de 50 redações, além dos sites do Vaticano News em cerca de 40 idiomas diferentes, o pessoal está realmente sobrecarregado.

Existem muitas pessoas boas neste dicastério. A maioria deles trabalhava na Rádio Vaticano quando essa operação foi oficialmente encerrada e incorporada ao novo setor multimídia (o Dicastério para a Comunicação).

Isso foi parte de uma grande e cara reforma da mídia que Francisco ordenou. Quase todos concordam que poderia ter sido realizado de uma maneira muito melhor.

Seja como for, o Vatican News, que é um grande site multilíngue, pretende ser sua principal plataforma de comunicação de notícias e informações ao mundo. (Embora a Sala de Imprensa da Santa Sé continue a ser o veículo mais importante para esse fim.)

No entanto, era de se supor que o Vatican News seria o lugar para cobertura exclusiva e interna do Vaticano, do papa e da Igreja.

Bem, na verdade não. Cada site de idioma possui uma seção chamada "Mundo". Mais uma vez, era de se esperar que fosse dedicado exclusivamente às notícias globais sobre a Igreja.

Perdidos no mundo

Mas depende do idioma. Os sites em italiano, inglês, francês, espanhol e polonês (embora não apenas estes) dão cobertura substancial a questões que estão apenas tangencialmente relacionadas ou não estão relacionadas ao papa, ao Vaticano e à Igreja.

Por exemplo, a maioria deles relatou a recente visita do Secretário de Estado dos EUA ao Oriente Médio. Isso certamente é importante. Mas por que o Vaticano News noticiou sobre isso, a menos que houvesse um ângulo explícito da Igreja?

Na era pré-internet (e antes do Vatican News), pode-se argumentar que era importante para a Rádio Vaticana cobrir tais eventos mundiais, especialmente para ouvintes de ondas curtas que podem não ter tido acesso a certos tipos de informação.

Esse foi o caso das pessoas por trás da Cortina de Ferro e em alguns países em desenvolvimento sob regimes severos.

Mas em nosso mundo atual da era digital, as notícias agora podem ser acessadas online nas agências de notícias mais confiáveis do planeta, jornais, revistas, estações de rádio e televisão e assim por diante.

O Vaticano News não pode competir com eles. Nem deveria tentar.

Isso porque essas publicações (e agora sites) são mídias de nicho especializadas. E têm papéis comerciais. Destacando-se em dar cobertura exclusiva da área em que se especializam.

Falta uma declaração de missão

O Vatican News, entretanto, continua dedicando tempo, esforço e dinheiro para cobrir coisas que se pensaria que estão além de sua missão específica.

E por causa disso o papa está absolutamente certo em se perguntar por que poucas pessoas seguem estas mídias.

Mas isso está acontecendo, ao que parece, porque não parece haver uma declaração de missão clara.

O alto escalão do Dicastério para a Comunicação provavelmente acredita que o que o Vatican News deveria estar fazendo é tão óbvio que nenhuma declaração desse tipo é necessária.

Falando da experiência de ter trabalhado na Rádio Vaticano de 1989 até o final de 2000, é claro para mim que um dos problemas perenes que atormentam o departamento de mídia do Vaticano é uma espécie de complexo de inferioridade.

É como se a produção de notícias sobre o papa ou a Igreja não qualificasse seus funcionários a serem "verdadeiros jornalistas".

Em vez de monopolizar o mercado, por assim dizer, com notícias e informações sobre o papa e a Santa Sé, o departamento de multimídia do Vaticano ainda está tentando dar cobertura a questões e eventos para os quais outros meios de comunicação estão mais claramente projetados e mais bem equipados para fornecer.

Perdendo uma oportunidade de ouro

O Vatican News deve ser o local de passagem essencial para notícias sobre o papa, comentários sobre questões da Igreja e entrevistas exclusivas com altos funcionários do Vaticano - não para uma simples repetição em polonês, por exemplo, de um artigo do Economist sobre terapia de conversão de gays.

É bastante óbvio que há pessoas no Vaticano News que querem continuar cobrindo itens que não são especificamente questões ou eventos da Igreja, e até mesmo aqueles que não têm nenhuma perspectiva da Igreja.

Mas o Vatican News existe para promover a mensagem do papa e o compromisso da Santa Sé com o resto da Igreja e do mundo. É uma "mídia estatal", por assim dizer. E quem trabalha lá deve aceitar isso. Faz parte do trabalho.

As pessoas não clicam no site da National Hockey League para obter os resultados do beisebol ou o boletim meteorológico. E os gerentes do NHL.com não permitiriam que nenhum de seus jornalistas ousasse reportar coisas que pouco ou nada têm a ver com hóquei no gelo.

É realmente estranho que o alto escalão do Dicastério para a Comunicação permita que os funcionários do Vatican News comprometam seu precioso tempo, energia e recursos cobrindo questões não relacionadas à Igreja.

É ainda mais estranho é que ainda existam pessoas na organização que evidentemente não veem a oportunidade de ouro que têm de se tornarem líderes mundiais em notícias e informações sobre o papa e o Vaticano.


Publicado por La Croix


Tradução: Ramón Lara

Robert Mickens: siga-o no Twitter @robinrome



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