Religião

08/06/2021 | domtotal.com

Sinodalidade está no centro da reforma da Igreja

Papa Francisco anuncia processo de consulta e discernimento por dois anos em toda a Igreja, o que é potencialmente o movimento mais ousado desde o Concílio Vaticano II

Professora Myriam Wijlens com papa Francisco
Professora Myriam Wijlens com papa Francisco (University of Erfurt)

The Tablet

A notícia veio pouco antes da celebração do Pentecostes. No que pareceu para alguns um derramamento do Espírito, o papa Francisco aprovou uma mudança dramática para o próximo sínodo dos bispos. Pela primeira vez, os católicos de todo o mundo serão formalmente incluídos em todas as fases do processo.

Em vez de apenas uma reunião única de bispos de três semanas em Roma em outubro de 2022, o sínodo começará ainda este ano em nível local, com todas as dioceses da Igreja universal embarcando em um discernimento estruturado como Povo de Deus, e será concluído dois anos depois. Isso marca um divisor de águas na busca do papa por uma Igreja mais sinodal, na qual pessoas, padres e bispos "caminham juntos" em missão, ecoando os discípulos que caminham com Jesus no caminho de Emaús.

É mais fácil falar sobre isso do que colocar em prática. As últimas mudanças marcam o movimento de reforma mais ousado na fase pós-pandêmica do papado de Francisco. Se isso acontecer, vai incorporar nas estruturas e hábitos da Igreja um processo de renovação que durará para além do seu pontificado.

Contudo, devemos perceber que essas reformas não são apenas ideias de Francisco. "O papa está apertando o botão de resetar", disse a professora Myriam Wijlens, teóloga holandesa e canonista, que lecionava na Universidade de Erfurt, na Alemanha. "Quando reinicializamos nosso computador, nada é adicionado, ele fica configurado para funcionar de maneira ideal. Francisco não está adicionando nada de novo. O papa está implementando mais profundamente o Concílio Vaticano II".

Já havia sido anunciado que o tema do próximo sínodo seria "Por uma Igreja sinodal: comunhão, participação e missão". Qual é a natureza da Igreja e como deve testemunhar o Evangelho no terceiro milênio? A pandemia derrubou os modelos pastorais tradicionais e as convulsões digitais e tecnológicas criaram oportunidades para a Igreja ser mais ágil e criativa.

Para enfrentar os novos desafios, o processo sinodal será "realizado com a escuta de todos os batizados". O que o sínodo busca é o sensus fidei. O papa fala da Igreja como uma "pirâmide invertida", com "o topo localizado abaixo da base".

O papa abrirá formalmente o sínodo nos dias 9 e 10 de outubro no Vaticano e, uma semana depois, cada diocese fará o mesmo com a celebração da Eucaristia em uma "sessão de abertura". Sínodos anteriores no pontificado de Francisco procuraram consultar os fiéis - muitas vezes por meio de questionários - mas nunca antes a Igreja local foi parte constitutiva do sínodo. Cada diocese deve estabelecer uma pessoa de contato ou equipe e realizar um "encontro pré-sinodal" ao final do discernimento; suas conclusões serão enviadas às conferências episcopais, que devem conduzir suas próprias reflexões. A "fase diocesana" de outubro de 2021 a abril de 2022 formará a base para uma "fase continental" de setembro de 2022 a março de 2023, e o processo será concluído com uma "fase da Igreja Universal" em Roma em outubro de 2023.

A maior dificuldade enfrentada por Francisco virá de uma mistura de resistência, inércia, medo e incerteza. Por décadas, esperou-se que os bispos recebessem instruções de Roma. A maioria toma cuidado para evitar qualquer coisa que possa incorrer em falta às "diretrizes". Agora a igreja local está sendo instruída a encontrar sua própria voz. É uma mudança de cultura com a qual nem todo bispo se sentirá confortável.

Algumas de suas hesitações vêm do medo de que os sínodos provoquem tensões, desacordos e dificuldades. Eles podem ser confusos. "A autocracia sempre foi mais rápida e limpa", disse-me o arcebispo Mark Coleridge, presidente da Conferência dos Bispos da Austrália, em março. Quando discute abertamente o poder, a sexualidade e o papel das mulheres, o caminho sinodal da Alemanha é acusado de alimentar o "cisma". A preocupação em Roma é que o sínodo planejado para outubro próximo acabasse sendo uma batalha político-eclesial entre visões conflitantes da Igreja. Embarcar em um processo mais longo e profundo de escuta e consulta busca mitigar isso.

Também faz sentido estratégico. No ano passado, a irmã Nathalie Becquart, a primeira subsecretária do Sínodo dos Bispos, sugeriu que apenas os bispos que haviam embarcado em processos sinodais em suas dioceses seriam convidados a Roma para o próximo Sínodo. O recente anúncio visa abordar o problema de que a prática da sinodalidade é estranha para muitos bispos.

Tenho relatado todos os sínodos durante o pontificado de Francisco: os sínodos de 2014 e 2015 sobre a família, o sínodo de 2018 sobre os jovens e o sínodo de 2019 sobre a Amazônia. A maioria dos participantes os descreveu como fóruns de discussão livre e discernimento genuíno. Mas eu vi como os sínodos são pressionados por dois lados: aqueles que se opõem ao processo sinodal porque o veem como um cavalo de Troia para mudanças, e aqueles que esperam que um sínodo seja o veículo para promover mudanças, que eles acham que a Igreja deve fazer.

Os desentendimentos não podem ser evitados. A sinodalidade oferece uma maneira de discutir questões polêmicas abertamente, sem quebra de comunhão. O cardeal Mario Grech, líder do escritório sinodal, afirma que enquanto alguns argumentaram no passado que a unidade da Igreja era mantida pelo "fortalecimento da autoridade dos pastores", hoje manter a comunhão "requer circularidade, reciprocidade e caminharmos juntos". Esta é uma refutação sutil para aqueles em Roma que alertam sobre um "cisma" alemão.

Durante a homilia de Pentecostes, o papa falou sobre a "harmonia da diversidade" e a unidade que o Espírito Santo deseja. Advertiu que é "o inimigo" que quer "que a diversidade se torne oposição e por isso faz com que se tornem ideologias".

Francisco frequentemente enfatiza que um sínodo não é um parlamento onde aqueles que são maioria podem impor suas ideias. Em vez disso, a verdadeira reforma vem por meio do consenso, o que não é o mesmo que permitir que uma pequena minoria vete qualquer mudança: é mais parecido com o que o cardeal Newman quis dizer quando falou de uma conspiratio, um único movimento de bispos e fiéis. O papa Francisco está buscando uma relação reconfigurada entre os fiéis e os bispos, enraizada na crença de que o Espírito Santo atua por meio de todo o povo de Deus. O Vaticano 2º, ressalta o professor Wijlens, "poderia dar frutos" porque a teologia se desenvolveu em nível local, beneficiando o universal. Wijlens diz que o sínodo está praticando uma dinâmica semelhante.

Assim como aconteceu no Concílio Vaticano, alguns argumentam que a sinodalidade não alcançará nada. "Não haverá nada para ver aqui, devemos nos conformar e seguir em frente". Outros falam do medo de que o sínodo exacerbe as divisões. Wijlens faz uma comparação com os discípulos que trancaram as portas quando se encontraram após a morte de Jesus. Apesar de seus temores, as mulheres foram ao túmulo e Jesus ressuscitado apareceu. "O medo não é um bom conselheiro", diz o professor. "Precisamos ter a coragem de abrir as portas dentro de nós mesmos e confiar que o Espírito Santo nos guiará".

Publicado por The Tablet


Tradução: Ramón Lara



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