Religião

11/06/2021 | domtotal.com

O Espírito que nos une

Elemento de transcendência, o espírito evoca a coletividade e o pertencimento

O Espírito Santo
O Espírito Santo "acende os corações dos fiéis" e "renova a face da terra" (Unsplash/Conor Samuel)

Daniel Couto*

"A cada um é dada a manifestação do Espírito em vista do bem comum. Como o corpo é um, embora tenha muitos membros, e como todos os membros do corpo, embora sejam muitos, formam um só corpo, assim também acontece com Cristo." (1 Cor 12, 7.12)

O espírito é uma das dimensões da natureza humana que mais nos causa interesse e curiosidade. Talvez por se tratar de algo "impalpável", ou por trazer, em si, uma dimensão mística, falar sobre espírito é abrir um leque de compreensões advindas das mais variadas tradições e culturas. Diversos pensadores ao tentar definir uma "constituição" humana, trazem o espírito como uma característica universal, seja atrelando-o ao pensamento/razão ou aproximando-o do caráter religioso da nossa existência. As compreensões mais difundidas, inclusive em uma certa "opinião comum", são as da tríade e da dualidade humana.

O ser humano compreendido como uma tríade é dividido em corpo, mente e espírito. O primeiro aspecto, isto é, a dimensão corporal, é tomada como a condição para a nossa existência e o meio pelo qual experimentamos a realidade. Somos um corpo, estamos em um corpo e existimos em um corpo.

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É a partir do nascimento deste corpo e da sua morte que marcamos a nossa passagem por esse mundo e, em algumas leituras, é a preservação e a preparação desse corpo que nos possibilita uma existência "pós-vida". No aspecto da vida pública, as imperfeições da nossa moral geralmente são atribuídas ao corpo e ao que nomeamos como desejo, vontade, paixão e volúpia. 

O segundo aspecto, a mente, encontra-se no campo da intelectualidade, do pensamento, da consciência. Na maioria das vezes é tomada como o traço que nos permite o raciocínio, a compreensão do mundo e a transformação da nossa experiência em linguagem, o estabelecimento de relações afetivas e sociais e, de modo geral, o que chamamos de inteligência. 

Nessa visão, também compreendemos que a "capacidade" e o "poder" da mente são ilimitados, creditando as nossas invenções e avanços tecnológicos à genialidade da mente. Se o corpo é o meio de experimentar o mundo, a mente é o meio para traduzir/compreender o mundo. 

Como terceiro aspecto da tríade, o espírito seria a dimensão da imensidão. É no espírito que encontramos a relação do ser humano com uma outra maneira de existir, a religiosidade, a contemplação de si, a compreensão de que somos sujeitos e a relação entre o limitado e a postulação do infinito. Vida e morte, agora e futuro, tempo, consciência, tudo isso se torna objeto do espírito. Nessa compreensão de ser humano, o espírito pode ser divino (dado a nós pela própria divindade) ou divinatório, ou seja, aquilo que nos torna capazes de nos relacionar com Deus.

Em situação parecida, o ser humano compreendido de modo dualista se constitui de corpo e espírito. Existe uma forte oposição entre as dimensões, pois a efemeridade do corpo está em relação contrária à eternidade do espírito. Se o corpo é visto de maneira muito semelhante àquilo que vimos na tríade, o espírito incorpora as capacidades da mente e é capaz, inclusive, de guiar o corpo de acordo com a sua vontade. 

Relembrando a imagem dos autômatos (seres mecânicos comandados por um outro ser inteligente), nosso corpo seria apenas o receptáculo do espírito. A nossa identidade, pessoalidade, intelecto e razão estariam, desde sempre, no espírito. Junto com o corpo, o espírito experimenta a vida e está limitado por ele, por isso suas capacidades não são exploradas ao máximo e os exercícios espirituais seriam capazes de nos "libertar" dessa prisão de carne. 

Em algumas vertentes existe uma subdivisão do próprio espírito, deixando as capacidades intelectuais e religiosas em âmbitos diferentes e, de maneira contrária, outros pensadores apontam que essa distinção é apenas teórica, uma vez que o "lugar" do espírito permanece sempre oposto ao corpo. Se a tríade poderia ser destacada pela busca da harmonia entre as dimensões, a dualidade corpo/espírito enfatiza o conflito de "naturezas".

Diante dessas várias compreensões da constituição do ser humano, como podemos compreender o espírito no diálogo entre o Espírito Santo e o espírito humano? Acredito que as duas visões apresentadas podem nos ajudar.

O primeiro aspecto a ser lembrado nessa relação entre o Espírito Santo e o espírito humano é a colegialidade. Deus não possui uma dimensão "fechada em si" com a qual pode criar e modificar todas as coisas. O seu Espírito é sopro, é coletivo, é doação. Ele está presente "nos quatro cantos da criação" e é capaz de aproximar o que está disperso. A tradição nos ensina que é o Espírito que enlaça a relação entre as pessoas divinas e através dele todas as coisas podem acontecer. Ele é temporalidade atemporal, intervenção divina na sutileza da lei universal. O Espírito Santo não existe para si, mas para o outro.

Mas onde entra o ser humano nessa equação?

A humanidade é exatamente esse outro sobre o qual o Espírito se debruça. Ele permite a comunicação entre os mistérios da divindade e a compreensão humana, entre a natureza infinita e a corporeidade. É o Espírito que sopra sobre o útero da mãe de Deus e gera a vida. De igual modo, é a própria constituição do ser humano como tal que permite a compreensão desses mistérios no mundo. 

O espírito humano também não é individual. Ele é compartilhado, pois irmana todos segundo as mesmas capacidades: a de experimentar e compreender. O diálogo e a linguagem complexa dos seres humanos são algumas de suas características distintivas. É o espírito humano que permitiu o desenvolvimento de culturas, civilizações, mitos e religiões. É na particularidade do espírito humano que o Espírito Divino sopra. Da mesma maneira que não há palavra sem garganta, ar e corpo, não existe palavra sem Espírito e comunidade.

Não é possível distinguir o espírito humano a partir da experiência de uma pessoa isolada, por isso só compreendemos o que é o ser humano em sua coletividade. Cada ser humano é um, mas é parte de um todo. Somos humanos e somos "eu". O mistério da divindade e da humanidade se encontram. Há um quarto elemento na pericorese divina: o ser humano.

Isso nos levará ao segundo aspecto importante: o Espírito Santo se revela na coletividade humana. Diferentemente de outras tradições religiosas, a manifestação divina não se dá no isolamento do indivíduo e no misticismo "oculto", mas acontece de portas abertas e comunitariamente. 

Assim como em algumas tradições filosóficas, onde o "espírito" pode ser entendido como a partilha coletiva de ideais, valores e cultura que, ao mesmo tempo em que se alimentam modificam a si mesmos, o Espírito Santo se revela na caminhada da humanidade que, pouco a pouco, compreende os sinais divinos e os assume como parte de si. A revelação divina pode ser ao mesmo tempo gradual e plena pois a cada encontro experimentamos o caminho do Espírito para o hoje (de maneira plena) mas como participantes de uma história (gradual) que busca o Reino de Deus.

As revelações individuais do Espírito são, portanto, uma incompreensão da própria constituição da relação entre o humano e o divino e podem ocasionar sérios danos à espiritualidade cristã. Desde os primórdios da igreja encontramos o relato da colegialidade da revelação, quando, em Pentecostes, os diversos povos escutavam a boa notícia segundo a sua língua (e toda a bagagem cultural e simbólica que ela carrega) e são chamados a dar frutos de acordo com a sua natureza. 

Assim, diversidade, diálogo, compreensão e sinodalidade são os fundamentos da fé, marcados em cada um dos crentes pelo chamado batismal de ser luz para todos os povos. Por isso, não existe uma preferência do Espírito em relação a este ou àquele fiel. A divindade e a sua palavra podem ser encontradas na comunidade, dispersa por todo o mundo, em suas diversas configurações e fundamentada na partilha. Se acreditamos na genialidade e na grandeza do espírito humano que pode ultrapassar a nossa compreensão, por que não podemos dar a mesma credibilidade e liberdade ao Espírito Santo? Ele sopra onde quer.

Sendo assim, uma nova mística do Espírito deve ser construída. Precisamos compreender que a fé não é um bem particular e que o divino não pode ser aprisionado nos meus ideais e conceitos. Quando a Igreja nos chama à colegialidade, precisamos perceber que "nessa roda sempre cabe mais um", pois uma multidão de vozes aclama o Senhor. 

Nesse tempo emque o "ar" nos falta, precisamos aprender a compartilhar. Em uma sociedade na qual "deus" é idealizado como distante e poderoso, o Espírito nos mostra que Ele está perto e compartilha a nossa humildade. O fogo do Espírito inflama, mas também destrói. Construir uma espiritualidade em que a dignidade humana é reconhecida e a universalidade da palavra é vivida de maneira plena por cada comunidade, pode ser o caminho para uma "nova Igreja". Isso não é utopia, afinal o Espírito Santo "acende os corações dos fiéis" e "renova a face da terra". Oxalá possamos ver uma terra renovada com justiça social, paz, tolerância e diálogo.

*Daniel Couto é doutorando em Filosofia, UFMG/CAPES



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