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09/06/2021 | domtotal.com

Como uma ideia brilhante e a tecnologia levaram à prisão de 800 pessoas em 16 países?

FBI criou aplicativo que monitorou secretamente 27 milhões de mensagens de criminosos

Aplicativo supostamente criptografado se 'infiltrou' em redes criminosas em vários países
Aplicativo supostamente criptografado se 'infiltrou' em redes criminosas em vários países (Olivier Morin/AFP)

Uma operação policial gigantesca contra o crime organizado prendeu 800 pessoas em 16 países na terça-feira (8). A série de batidas coordenadas em várias partes do mundo desmantelou redes criminosas que se comunicavam por um aplicativo criptografado, batizado de Anom, criado por americanos e australianos.

O aplicativo do FBI foi o resultado de uma ideia brilhante e um feito tecnológico, que, no entanto, não teria funcionado sem um trabalho significativo de infiltração. Ao longo de três anos, cerca de 12 mil telefones com o Anom, administrado secretamente pelo FBI foram distribuídos para criminosos de todos os tipos, de acordo com dados da polícia federal dos EUA, da agência policial europeia Europol e de vários países.

O app vinha instalado em celulares distribuídos pelo FBI e permitia monitorar conversas de cartéis, gangues e bandidos, que os suspeitos acreditavam estar criptografadas. "Não é uma farsa comum", mas uma amostra de "como as operações secretas na luta contra o crime organizado são fundamentais", disse Vanda Felbab-Brown, analista da Brookings Institution dos Estados Unidos. Desenvolver esse "espião" foi uma boa ideia, mas teve de ser distribuído sem levantar suspeitas. "Não consigo imaginar uma operação como essa no México", diz a analista, "haveria um risco enorme de ser comprometida por funcionários corruptos".

Em 2018, a infiltração do FBI nos sistemas de comunicação criptografados Phantom Secure e "Sky Global" permitiu o acesso às comunicações de dezenas de milhares de usuários, incluindo grandes nomes do crime organizado. O fechamento dessas plataformas criou um vazio que o FBI queria preencher com seu próprio sistema, o Anom.

O FBI recrutou um ex-funcionário da Phantom Secure, que recebeu US$ 120 mil e uma redução de pena para distribuir o Anom. Em três anos, 12 mil aparelhos foram vendidos para cerca de 300 organizações criminosas. O custo dos dispositivos variava de acordo com o país, mas geralmente eles eram vendidos com assinatura de seis meses disponível por US$ 1,7 mil nos EUA.

A estratégia consistia em convencer os líderes dos grupos a usarem os celulares do FBI, criando confiança nos membros das organizações. O sucesso do Anom vem do fato de o aplicativo conter o tipo de criptografia que os criminosos procuram para escapar da vigilância. A ferramenta foi apresentada como produto de uma operadora de telefonia fictícia, que teria rede própria, sem a necessidade de se conectar à internet.

No final das contas, a maior promoção do Anom era feita pelos próprios criminosos. Os celulares personalizados, comprados no mercado paralelo, cresceram em popularidade entre eles à medida que as organizações de alto perfil atestavam sua integridade.

"Foi uma das maiores e mais sofisticadas operações policiais já realizadas até o momento na luta contra atividades criminosas criptografadas", disse Jean-Philippe Lecouffe, vice-diretor de operações da Europol, agência que coordena a atividade policial da União Europeia, em entrevista em Haia.

"O sucesso da Operação Escudo de Troia é um alerta às organizações criminosas: suas comunicações podem não ser seguras", afirmou Suzanne Turner, chefe do escritório do FBI em San Diego, nos EUA. "É bom acreditar que a polícia em todo o mundo está trabalhando em conjunto para combater o crime transnacional." De acordo com Suzanne, o FBI resolveu encerrar a operação agora por dois motivos: as autorizações judiciais para escutas telefônicas estavam a ponto de expirar e o esquema já havia reunido provas suficientes para desmantelar várias organizações.

Milhões de mensagens

A Operação Escudo de Troia, liderada pelo FBI, envolveu policiais de Austrália, Suécia, Holanda e Nova Zelândia. Em três anos, eles monitoraram 27 milhões de mensagens de 12 mil usuários em mais de 100 países, principalmente de mafiosos italianos, narcotraficantes, assassinos de aluguel e contrabandistas de armas.

Ainda segundo o FBI, as ações envolveram mais de 9 mil policiais em várias partes do mundo. Policiais de vários países cumpriram mandados em 700 locais, apreendendo 8 toneladas de cocaína, 22 toneladas de maconha, 2 toneladas de drogas sintéticas, 250 armas de fogo, 55 carros de luxo e mais de US$ 48 milhões. Além disso, os investigadores ganharam um entendimento importante sobre o funcionamento das redes criminosas modernas, que deve causar desdobramentos e alimentar outras investigações.

Os criminosos usavam o aplicativo como uma espécie de WhatsApp ou para mensagens de texto, comunicando-se em 45 idiomas, dando detalhes das operações. Em alguns momentos, segundo autoridades, eles se sentiram tão seguros que abandonaram os códigos e falavam diretamente sobre carregamentos, remessas e divisão de lucro.

"Para se ter uma ideia da magnitude de nossa penetração, pudemos ver fotos de centenas de toneladas de cocaína escondidas em carregamentos de frutas. Vimos cocaína escondida em produtos enlatados", disse Calvin Shivers, diretor da divisão de investigação criminal do FBI.

"Há 2 quilos enviados em malotes diplomáticos franceses selados em Bogotá", escreveu um usuário, em março de 2020. "O único problema é que os colombianos levam 50%. Parceiros, incluindo você, precisarão dividir outros 50%."

De acordo com Shivers, as informações obtidas pelo Anom também evitaram mais de 100 assassinatos e revelaram a atuação de funcionários públicos e policiais corruptos. Segundo o FBI, foi possível descobrir, por exemplo, que narcotraficantes sul-americanos usaram um distribuidor de bananas e uma empresa de atum do Equador para contrabandear cocaína para a Ásia e a Europa, em parte subornando funcionários dos portos.

Impacto psicológico

O impacto desse golpe no crime organizado também é psicológico. "Isso inspira muita insegurança nos escalões superiores dos grupos, que vão desconfiar uns dos outros", diz Flebab-Brown. "Cada vez que as autoridades conseguem semear desconfiança, atrapalhar a cooperação, é uma importante vitória tática".

Em relação a isso, os investigadores agora preveem alguma tensão. Como os grupos vão se comunicar? Eles serão tentados pelo contato físico, muito arriscado? A atividade diminuirá? Um novo sistema de mensagens criptografadas surgirá? "Eu imagino que muitas pessoas estão quebrando seus telefones e se escondendo", diz Bryce Pardo, do centro de estudos Rand, em Washington.

Esta é a primeira vez que as agências de aplicação da lei projetaram e implantaram seu próprio serviço de comunicação criptografada. E isso por si só poderia impedir outros grupos criminosos de usar serviços semelhantes. Como eles podem ser confiáveis?

A operação também terá repercussões nos próximos meses, inclusive dentro das organizações que escaparam da operação e podem tentar tirar proveito dela. "Isso abre a possibilidade de mudanças significativas no cenário criminal global", disse Jake Harrington, especialista em inteligência do Centro de Estudos Estratégicos Internacionais (CSIS). "Grupos rivais que não estão envolvidos podem tentar lucrar, o que pode atrapalhar o equilíbrio do mercado", acrescenta Bryce Pardo.

De acordo com Vanda Felbab-Brown, o futuro do combate ao crime misturará "tecnologias ultramodernas com métodos primitivos". "O jogo do gato e do rato ainda não acabou."


AFP/Agência Estado/Dom Total



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