Meio Ambiente

10/06/2021 | domtotal.com

Carta de um futuro distópico: a era da extinção e os desastres ambientais

De acordo com estudo, até o ano de 2050, 1508 espécies de vertebrados terrestres terão desaparecidas

94% da população de 77 espécies de mamíferos e pássaros desapareceram apenas no século 20
94% da população de 77 espécies de mamíferos e pássaros desapareceram apenas no século 20 (Haroldo Palo Jr./Fundação Grupo Boticário)

Carlos Henrique Carvalho Amaral*

Sempre gostei de filmes! Não me considero um cinéfilo, mas foi um hábito que herdei do meu pai. Quando criança, sem acesso à TV a cabo ou ao VHS, o que me restava era a TV aberta, ainda mais quando o cinema da minha cidade deixou de existir. Isso me proporcionou assistir os mais diversos filmes, bons e ruins, muitos de qualidade duvidosa, ação, aventura, comédia, terror, mas lembro com maior afeto daqueles de ficção científica, por apresentarem máquinas, naves e cidades futuristas e ficavam rodeando minha imaginação. Alguns me chamaram a atenção: O menino e seu cachorro (1975), Blade Runner (1982) e Mad Max 3 (1985), em comum, todos apresentavam um futuro até então distante, afinal eram os anos 80, mas neles já percebia que a ação do homem poderia resultar em um mundo com escassos recursos naturais, decadente, beirando a extinção da vida no planeta. A visão dos diretores, nada mais era que uma carta de um futuro distópico, que por não ter maturidade ou percepção para entender suas mensagens, suas alegorias, acreditava que tudo não passava de imaginação, que nunca viveria uma situação como aquela.

Em artigo publicado pelo Instituto de Ecologia da Universidade Nacional Autônoma do México, pelo Departamento de Biologia da Universidade de Stamford e pelo Departamento de Ciência de Plantas do Missouri, intitulado "Vertebrates on the brink as indicators of biological annihilation and the sixth mass extinction", apontaram que nos encontramos na sexta extinção em massa, cada vez mais acelerada pela ação humana. Segundo o estudo, foram examinadas 29.400 espécies de vertebrados terrestres, das quais 515 encontra-se a beira da extinção (menos de 1.000 indivíduos). O número pode não parecer assustador, mas 94% da população de 77 espécies de mamíferos e pássaros desapareceram apenas no século 20. De fato, ao longo das eras, a história aponta para o desaparecimento natural das espécies, mas a interferência do ser humano impacta, acelera e multiplica a extinção. Conforme o estudo, até o ano de 2050, o total de 1508 espécies de vertebrados terrestres terão desaparecidas.

Colapsos contínuos na biodiversidade terrestre mostram-se, sobretudo, em regiões de alto impacto humano. Elizabeth Kolbert, em sua obra A Sexta Extinção: uma história não natural, aponta que foram adicionados 365 bilhões de toneladas de carbono na atmosfera, desde a revolução industrial ocorrida a partir da segunda metade do século XVIII. Esse número aumenta mais ainda com a adição de 180 bilhões de toneladas, devido ao desmatamento, e a cada ano são acrescidos 9 bilhões de toneladas, o que resulta em uma concentração de carbono no ar superior àquela dos últimos oitocentos mil anos.

A expectativa é que no ano de 2050, caso não ocorra a redução desses números, o nível de CO² na atmosfera será o dobro daquele existente no período pré-revolução industrial, aumentando a média da temperatura global entre 1,9 e 3,8 graus, alterando completamente o mundo como o conhecemos hoje.

O reflexo da ação humana é sentido em todos os lugares, nos oceanos o carbono extra resulta na redução do ph das águas de superfície, tornando-as mais ácidas, alterando todo ecossistema, degradando a vida marinha, extinguindo espécies.

Nas sociedades ocidentais modernas, o padrão de consumo mostra-se insustentável ao longo do tempo, a obsolescência programada, a instigação à aquisição desenfreada de produtos, o aumento do uso de recursos naturais, muito acima da capacidade de regeneração, apontam para um futuro catastrófico.

Boff e Leopold, cada um a sua maneira, indicam para a necessidade de uma ética da Terra, planetária. Um produto da evolução social, que perceba que caminhamos para nossa extinção, que o planeta é a nossa casa comum que precisa de cuidados e reparos, ações urgentes em todo o mundo voltadas para a salvar espécies selvagens e sistemas cruciais de suporte à vida da humanidade.

A cada dia percebo que o futuro distópico dos filmes de ficção torna-se cada vez mais plausível. Fato é que o ser humano possui um arsenal contra o meio ambiente, muda o clima do planeta, o solo, o ar, a água, desmata as florestas, cria pastagens, prioriza a monocultura e assim coloca em sua cabeça uma arma engatilhada, prestes a disparar

*Doutorando e Mestre em Direito Ambiental e Desenvolvimento Sustentável pela Escola Superior Dom Helder Câmara. Graduado em Direito pela PUC-MG. Especialista em Direitos Humanos pelo Centro de Ensino Superior da Companhia de Jesus do Instituto Santo Inácio (FAJE) e Fundação Movimento Direito e Cidadania. Advogado do Núcleo de Prática Jurídica da Escola Superior Dom Helder Câmara e professor na instituição.



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