Brasil

10/06/2021 | domtotal.com

Caso Kathlen: Farm cancela ação de marketing com vendedora assassinada após críticas

Jovem negra tinha 24 anos e estava grávida de 14 semanas. Marca de roupas ofereceu desconto com cupom Kathlen e foi alvo de críticas

Kathlen Romeu havia postado um ensaio gestante pouco antes de morrer
Kathlen Romeu havia postado um ensaio gestante pouco antes de morrer (Reprodução)

A Farm, marca do grupo Soma, criou nessa quarta uma campanha envolvendo sua funcionária Kathlen de Oliveira Romeu, que foi morta no Rio de Janeiro, vítima de bala perdida, na terça-feira, 8. Depois de compartilhar um código promocional com o nome de Kathlen, afirmou que doaria toda a comissão referente às vendas à família da vítima. O post viralizou de forma negativa.

Para os usuários de redes sociais, se quisesse contribuir à família da jovem de 24 anos, grávida de quatro meses, a marca teria doado dinheiro e todas as vendas com o código da vendedora - e não só a comissão. A ação fez a Farm se tornar um dos assuntos mais comentados no Twitter; a marca foi acusada de tentar lucrar com a morte da funcionária. A campanha foi retirada do ar.


À tarde, a Farm reconheceu o erro e mudou o posicionamento. Em comunicado oficial, informou que reverterá integralmente as vendas geradas por meio do código para a família de Kathlen.

Para Dario Menezes, diretor executivo da Caliber, consultoria internacional especializada em reputação corporativa, a empresa teria outros mecanismos para criar uma ação mais solidária e empática. "A cultura da velocidade fez com que ela fosse por um caminho errado", diz. "As ações precisam ser estruturadas, ter um propósito e ser validadas por uma equipe multidisciplinar."

Para ele, a ação de assumir o erro foi positiva. "Ter a transparência de reconhecer rapidamente o erro é melhor do que se omitir ou disfarçá-lo", afirma Menezes.

A Farm pertence ao Grupo Soma, que abriu capital há um ano, quando captou R$ 1,8 bilhão. Além dela, o grupo ainda é dono das marcas Animale, Fábula e Maria Filó. Em abril, a varejista adquiriu a Hering por R$ 5,1 bilhões e deu início à entrada do grupo ao segmento de moda mais em conta.

'Estava na melhor fase da vida dela', diz pai 

Alegre, expansiva, afeita a abraços, sonhadora e vivendo o melhor momento de sua vida. Essas são algumas das formas que amigos e familiares usaram para definir a jovem Kathlen Romeu, de 24 anos, que morreu na  terça, após ser atingida por um disparo no Complexo do Lins, na zona norte do Rio.




Grávida de quatro meses, Kathlen havia postado três dias antes uma sequência de fotos no Instagram para registrar sua felicidade com a gestação. A família também estava animada com a espera de um novo integrante. "Eu brincava com minha filha: o meu neto vai nascer com os pais formados", disse nesta quarta o pai da jovem, Luciano Gonçalves, da porta do IML. "Minha filha era a coisa mais especial da minha vida. Cheia de sonhos. Uma pessoa do bem, inteligente. Ela tinha o sonho de ser blogueira, modelo. Estava na melhor fase da vida dela."

Quem convivia com Kathlen também era só elogios. "Ela é luz. Amava praia, festa e ter quem gosta por perto. Doce, amiga, uma pessoa insubstituível", definiu a amiga Carolina Gomes.

"Ela era muito do toque, do abraço, do contato. Sempre muito abraço a qualquer momento, vindo do nada, sempre falando que amava todo mundo", contou outra amiga, que pediu para não ter o nome citado. "Era alegre e expansiva. Trabalhamos juntas por um ano e dali surgiu a amizade. Ela tinha várias clientes (na loja onde trabalhava, na zona sul da cidade) que só compravam com ela. Sempre recebia todo mundo bem, sorrindo e de bom humor. Acho que nunca a vi estressada. Todo mundo era só elogio pra ela."

Kathlen tinha se mudado havia um mês. "Eu tirei ela de lá (do Lins) por causa da violência", afirmou o pai. "Noventa e nove por cento da comunidade são pessoas de bem. A mesma operação que tem constantemente lá, esse tiro ao alvo na nossa área, na zona sul não tem."

A mudança de endereço veio na esteira de uma série de esforços e conquistas da jovem. "Ela trabalhava como vendedora há muitos anos para ter dinheiro pra estudar e pagar as contas todas", explicou a ex-colega de trabalho.

A avó de Kathlen, Sayonara Fátima de Oliveira, também estava desolada. "Aquela minha rua está muito perigosa. Eu não queria ter perdido minha neta e perdi desse jeito estúpido. Uma garota que trabalha, que estuda, formada. Só isso que eu tenho a dizer. Eu não tenho mais nada. Perdi minha neta num tiroteio bárbaro que a gente não tem culpa de nada", lamentou.

Segundo a Polícia Militar, Kathlen foi encontrada ferida logo após um confronto entre policiais e criminosos, ocorrido na localidade conhecida como Beco do 14, no Complexo do Lins. A Delegacia de Homicídio da Capital apura de onde partiu o disparo que matou a jovem.


Agência Estado e DomTotal



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