Cultura

11/06/2021 | domtotal.com

beleza necessária

o que cria novas possibilidades de renovação da crença no humano é a arte

Untitled, Os Gêmeos, 2010, Da coleção de: MAM, Museu de Arte Moderna de São Paulo
Untitled, Os Gêmeos, 2010, Da coleção de: MAM, Museu de Arte Moderna de São Paulo (Google Arts)

eleonora santa rosa*

tudo anda tão violento, agressivo, feio, desigual e doloroso que a sobrevivência, ou melhor, a possibilidade de vivência passa, necessariamente, por doses de belezas, delicadezas, sutilezas, sensibilidades arrancadas/escavadas do chão, do entorno, do meio da aridez da paisagem urbana brasileira que afeta qualquer pessoa com um mínimo de consciência, percepção, humanidade e dignidade.

dias em que a melancolia impera, que a tristeza se impõe como circunstância diária e que o desalento já não tem mais fim (Chico Buarque dixit). tempo de retrospecto, de vida passada em revista não em busca dos idílios nostálgicos, mas em busca do entendimento de onde fracassamos tão vigorosamente como sociedade, como projeto de nação tropical exuberante, criativa, generosa, amorosa, sensual, inventiva, alienada um tanto quanto, mas carregada de promessas de futuro.

naufrágio das teorias cordiais, algumas, chocados estariam Sérgio (Buarque), Gilberto (Feire), Raymundo (Faoro), Nelson (Werneck Sodré), mesmo Cândido (Antônio), este longevo, testemunhou mudanças ferozes na virada milênio. mais agravada agora a pobreza intelectual, pessoal, emocional, moral, econômica, social, material, ambiental, marcando a ferro e fome a pele/corpo de contingentes avassaladores de brasileiros.

como o poema de Régis (Bonvicino) não há saídas, só ruas, viadutos, avenidas. emparedados nos encontramos por decorrência de escolhas imaturas, equivocadas, precipitadas, calcadas no medo, no preconceito, na arrogância, na prepotência e no falso moralismo, impuros buscando a pureza inalcançável na corroída estrutura política e institucional.

beco de saída estreita em meio à ilusão esse é um país que vai para frente. sentimento de vergonha pela locupletação de peito aberto, pela aberração do silêncio cúmplice do desmoronamento do mito da hierarquia da caserna. nada que uma sinecura não resolva no âmago do governo cavernoso do toma lá da cá em sua versão mais deletéria.

meio milhão de mortos e os abjetos vassalos responsáveis pela política da cloroquina, contaminação e congêneres, médicos que se prestam ao papel hediondo de subversão do juramento de Hipócrates. na verdade, praticam o juramento de hipócritas.

nessa ciranda virtual viciada e melancólica, o que salva mesmo, o que auxilia mesmo, o que cria novas possibilidades de superação e de renovação da crença no homem humano é arte com sua magnitude, essência, abertura, generosidade e beleza. beleza necessária, como antídoto potente que produz acolhimento e transcendência, alegria e consciência crítica.

nesse sentido, impacto e efeito extraordinário tem sob mim ouvir muitas e muitas vezes, em lágrimas e crescente encantamento, a parceria entre Augusto e Caetano, dois artistas, cuja  sintonia e interação resultam em obras primas, como esta gravação de ÃO,  poema em arcabouço sonoro de altíssima voltagem, expressão criativa de força e  resistência, e transposição da arte, bastião da beleza necessária que nos mantém dignos e humanos:

no osso do som
do tutano do humano
sem o mel da melodia
casca do ser
creScer
animal
anima alma
psiu
ouve a canção
sem voz
que vem do fio do vão
da foz do teu vazio
do osso
do som
do tutano do humano
sem o mel da melodia
casca do Ser
creScer
animal
anima alma
psiu
o coração
ouve a canção sem voz
que vem do fio do vão
da foz do teu vazio
o coração não
aço do açúcar
só coração
joão
do
tom
o
ão
do om
o
sol
sem

da solidão


Ão – Caetano Veloso e Augusto de Campos

*Ex-secretária de Estado de Cultura de Minas Gerais, ocupou diversas funções públicas de relevo e desenvolveu projetos de educação patrimonial e de patrimônio cultural de repercussão nacional. Ex-diretora executiva do Museu de Arte do Rio - MAR (de novembro de 2017 a novembro de 2019), é considerada uma das mais experientes e respeitadas profissionais no campo da viabilização, implantação e soerguimento de equipamentos culturais no país. Estrategista e gestora cultural, tem larga experiência editorial; foi responsável pela publicação de mais de meia centena de obras voltadas à história e à cultura de Minas Gerais, tendo sido coordenadora editorial das consagradas Coleções Mineiriana e Centenário da Fundação João Pinheiro. Diretora do Santa Rosa Bureau Cultural, é autora do livro Interstício

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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